TOP – Espada e Feitiçaria

A Mythos Editora completa vinte anos de existência e presenteia os leitores com o novo selo “Gold Edition”, especializado em biscoitos finos europeus de capa dura e refinado tratamento, com formato diferenciado. É material para quem aprecia quadrinhos de alta qualidade, colecionadores dedicados e aqueles que desejam iniciar no tema em grande estilo. O primeiro lançamento é “Elric – O Trono de Rubi” (124 páginas), que adapta as primeiras aventuras do personagem criado na literatura pelo inglês Michael Moorcock, talvez o mais consagrado no gênero Espada e Feitiçaria depois de “Conan”. Ao contrário do cimério brutamontes, Elric de Melniboné é albino e frágil, precisando recorrer ao intelecto para superar seus desafios. Esta adaptação, com roteiro de Julien Blondel, arte de Didier Poli e Robin
Recht, com cores de Jean Bastide é considerada pelo criador como a melhor
versão da sua obra, superior em muitos aspectos ao material original. 
Aproveitando o gancho temático, eu decidi listar os meus dez
filmes favoritos no subgênero Espada e Feitiçaria (Sword and Sorcery), com
breves comentários. Tentei ser o mais abrangente possível, abraçando todas as
vertentes, evitando aqueles que não resistiram ao teste do tempo em revisão.


1 – O Senhor dos Anéis (The Fellowship of the Ring – 2001,
The Two Towers – 2002, The Return of the King – 2003)
 
A adaptação cinematográfica de Peter Jackson para “O Hobbit”
foi vítima de sua aversão pela sala de edição (problema crasso em sua versão de
“King Kong”), mas sua trilogia original é uma coleção de acertos, um marco no
cinema de fantasia. A sua adaptação para o personagem Aragorn (Viggo Mortensen)
é um exemplo de sua sagacidade. Nos livros, Passolargo é um marginal, fazendo o
seu caminho fora das fronteiras de uma civilização em declínio. Quando ele se
revela, mostra-se um mito dentre seres comuns e ordinários, simbolizados pelos
Hobbits. A beleza da saga de Tolkien não reside nas batalhas e na riqueza do mundo
fantástico que ele criou, mas sim naqueles elementos mitológicos facilmente
identificáveis em nossas vidas comuns. A corrupção do caráter humano, a
ambição, a resignação perante a inevitável mortalidade, a coragem que nasce
forjada no calor dos desafios mais extenuantes e os laços de amizade que nos
fazem “carregar nos ombros” (tal qual Sam) os irmãos feridos em batalha.

2 – Conan, o Bárbaro (Conan the Barbarian – 1982)
Após seus pais terem sido mortos pelo líder de um culto
sanguinário e sua gangue de brutais saqueadores, Conan é submetido a uma
infância de impiedosa escravidão, apenas para tornar-se um gladiador para
diversão de seus captores. Após ser enviado para o Oriente para aperfeiçoar
suas habilidades de batalha, ele é libertado e inicia uma perigosa e sangrenta
vingança contra o massacre de seus pais. Subestimado por muitos, o roteiro eficiente de John Milius e
Oliver Stone capta perfeitamente a essência da obra de Robert E. Howard.
Schwarzenegger se impõe fisicamente como o bárbaro, deixando nas batutas do
compositor Basil Poledouris a responsabilidade de expressar suas emoções. E a
trilha sonora brutalmente primitiva é impecável, o elemento mais forte do
filme.
3 – Excalibur (1981)
Uther Pendragon entrega a mística espada Excalibur para o
mágico Merlin. No seu leito de morte, Uther enterra a espada em uma pedra, e o
próximo homem que conseguir retirá-la será o novo rei da Inglaterra. Anos
depois, Arthur, o filho bastardo de Uther consegue retirar a espada da pedra e
se torna rei. O filme dirigido por John Boorman é simplesmente o melhor a
abordar as crônicas arturianas, mantendo-se fiel ao “A Morte de Arthur”, de
Thomas Malory. Ele retrata fielmente a Era Medieval, com uma direção de arte
primorosa, que traduz em imagens a transição da era da magia para a era da
razão. Como esquecer a poderosa trilha sonora, com Richard Wagner e Carl Orff
emoldurando cenas épicas?

4 – Highlander – O Guerreiro Imortal (Highlander – 1986)
Um guerreiro imortal, após séculos lutando contra outros de seu tipo, terá o seu maior desafio em 1985, na cidade de Nova York. Ele deverá lutar contra um também imortal bárbaro para conquistar a habilidade espiritual do conhecimento total, que lhe dará poder quase infinito. Com uma ótima trilha sonora do grupo “Queen”, nem mesmo a apatia de Christopher Lambert pode prejudicar a experiência. Com forte inspiração na “Jornada do Herói”, do escritor Joseph Campbell, o filme de Russel Mulcahy abraça o contexto apocalíptico que dominava a época de profunda recessão econômica na América, propondo a existência de uma sociedade secreta de “príncipes do universo”, guerreiros imortais fadados a dominar os humanos. O protagonista, como um homem de várias eras, não está associado a modismos, ele é de uma essência atemporal, simbolizado imageticamente pela transição de cena onde vemos seu rosto “tornar-se” o de Mona Lisa. Connor MacLeod representa o que de melhor existe na natureza humana: Arte. E ter Sean Connery no elenco também não faz mal.

5 – A Princesa Prometida (Princess Bride – 1987)
Bela princesa faz pacto de amor com um camponês, mas quando
recebe a notícia de que ele morreu vítima do cruel pirata Roberts, decide
aceitar o pedido de casamento de um príncipe sinistro. Nas vésperas do
casamento, contudo, ela é raptada por um trio muito estranho, constituído por
um exímio espadachim que possui seis dedos, um gigante retardado de força
descomunal e um intelectual baixinho especialista em resolver enigmas. Este é daqueles filmes que você assiste quando criança e só
percebe suas várias camadas de interpretação quando o revê já adulto. O diretor
Rob Reiner, com auxílio do escritor William Goldman (autor da obra), consegue
transpor para o roteiro toda a ironia contida no livro. A visão de um mundo
fantástico, através dos olhos de uma criança. E algumas frases são antológicas,
como: “A vida é dor. Quem diz o contrário, só pode estar vendendo alguma
coisa”.

6 – Uma Noite Alucinante 3 (Army of Darkness – 1992)
Ash (Bruce Campbell) é sugado por um vórtice e é jogado nos
primórdios da Era Medieval, onde terá que encontrar o livro dos mortos, que tem
o poder de enviar Ash de volta para sua época, mas não antes de enfrentar um
exército de demônios. Estou levando em consideração o corte do diretor, que
considero superior em vários sentidos. Sam Raimi entrega uma bela homenagem aos
esforços pioneiros de Ray Harryhausen, com grande senso de humor negro e
intensa energia nesta evolução do conceito iniciado em “A Morte do Demônio”. O
horror é deixado de lado, valorizando o carisma de Bruce Campbell como o
desastrado herói Ash.

7 – Fúria de Titãs (Clash of the Titans – 1981)
Adaptação do mito grego de Perseus, o filho de Zeus, e sua
aventura para destruir Medusa e o monstro Kraken, a fim de salvar a Princesa
Andrômeda, sua noiva. A obra-prima de Ray Harryhausen (dirigida por Desmond Davis)
mantém seu charme, ainda que o protagonista vivido por Harry Hamlin seja uma
variação do “Cigano Igor”. A narrativa pode ser arrastada, mas assistir
Laurence Olivier como Zeus compensa qualquer problema. Este é o melhor momento
do mestre na técnica do stop-motion, com cenas incríveis como a de Perseu
dominando Pégaso, o confronto com a Medusa e o espetacular monstro Kraken.

8 – A Bela Adormecida (Sleeping Beauty – 1959)
Era uma vez uma linda princesa chamada Aurora, que sofreu
uma terrível maldição: ao completar 16 anos, espetaria o dedo no fuso de uma
roca e cairia em um sono eterno. Mas as três fadas madrinhas de Aurora
descobrem uma forma de quebrar o feitiço. Um beijo de amor do corajoso príncipe
Felipe poderá acordar a princesa adormecida desde que ele enfrente a ira da
bruxa Malévola. Este clássico de Walt Disney normalmente é ignorado em
listas similares, mas preenche todos os requisitos necessários, além de ser uma
das animações mais ricas em simbolismos do estúdio. Os longos cinco anos
dedicados ao processo de animação são notados na beleza de cada estilizada
cena. E ter Tchaikovsky como inspiração
musical é a refinada cereja do bolo.

9 – O Feitiço de Áquila (Ladyhawke – 1985)
Este filme retrata a história do amor entre Navarre e
Isabeau. Ambos são vítimas de uma maldição do invejoso e traiçoeiro Bispo de
Áquila. Durante o dia, Isabeau transforma-se em falcão. À noite, Navarre
tornar-se um lobo. Destinados a nunca se encontrar, eles tentarão pôr um fim ao
feitiço. Por mais que a trilha sonora equivocada, com sintetizadores
emoldurando o cenário medieval, possa ter datado terrivelmente o filme, existe
algo nele que se mantém forte: a poesia trágica que existe no eterno
desencontro dos amantes, interpretados por Michelle Pfeiffer e Rutger Hauer. A
cena de poucos segundos em que eles conseguem se enxergar como humanos continua
tão emocionante quanto em sua época.

10 – A Lenda (Legend – 1985)
Jack (Tom Cruise) é o morador de uma floresta encantada,
habitada também por seres feéricos, como elfos e unicórnios, além das fadas,
que tem de libertar a Princesa Lily (Mia Sara) do Senhor das Trevas (Tim
Curry), sob a ameaça de todo o mundo tornar-se um lugar gelado. O diretor Ridley Scott havia acabado de conquistar a atenção
do mundo com seus dois excelentes trabalhos anteriores (“Alien – O Oitavo
Passageiro” e “Blade Runner – O Caçador de Androides”), quando
decidiu mudar completamente o rumo de sua carreira e investir em um tema que
desafiou as expectativas dos espectadores. Um filme que captasse o inconsciente
coletivo das memórias lúdicas das crianças, procurando traduzir em imagens o
vasto e fértil terreno da fantasia, nosso primeiro contato com o mundo, através
das histórias contadas pelos nossos pais.

Uma resposta para “TOP – Espada e Feitiçaria”

  1. Gostei e aprovo a lista, com apenas uma troca. Desde criança me tornei fã do filme "Jasão e os Argonautas" (1963) dirigido pelo Don Chaffey e para mim, a melhor obra do mestre Harryhausen. Portanto, eu a trocaria pelo "Fúria de Titãs", ou então, à acrescentaria tornando essa lista ímpar, rsrsrs. Abraço

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