“Extraordinário”, de Stephen Chbosky

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    Extraordinário (Wonder – 2017)

    O livro original, escrito pela R.J. Palacio, pode ser lido
    em uma madrugada, linguagem fácil e acessível, capítulos curtos, estrutura
    simples e muitos diálogos, mas muito rico em sua mensagem, encantador da
    primeira à última página. É fascinante a forma como o roteiro se mantém fiel à
    essência infanto-juvenil da obra, sem resvalar no melodrama piegas que o tema sugere,
    transpondo com inteligência e muita sensibilidade as agruras diárias do pequeno
    Auggie, vivido pelo impecável Jacob Tremblay, que nasceu com síndrome de
    Treacher Collins, um distúrbio do desenvolvimento craniofacial que o faz querer
    se esconder do mundo.

    Os seus pais, vividos por Julia Roberts e Owen Wilson, temem
    que ele seja rejeitado em seu primeiro contato com outras crianças na escola. Vale ressaltar uma breve e comovente cena protagonizada por
    Sonia Braga, simbolizando a lembrança querida da avó falecida, os valores que
    prepararam a família para suportar qualquer desafio. É
    linda a relação entre ele e sua irmã adolescente, excelente atuação de Izabela
    Vidovic, o jeito como ela consegue sintetizar carinho profundo e preocupação em
    um olhar, sendo beneficiada pelo texto que proporciona uma construção tridimensional
    de sua personalidade, evidenciando a angústia que ela precisa vencer
    constantemente por ter consciência de que a existência do menino forçou os pais
    a deixarem, por vezes, as suas necessidades emocionais de lado. Há espaço até para
    uma esperta rima mostrando a famosa cena de “Dirty Dancing” na televisão, com
    Patrick Swayze dizendo que “ninguém coloca a Baby de lado”. As referências da
    cultura pop, algo intrínseco no livro, como o amor do protagonista pela saga “Star
    Wars”, são trabalhadas com extrema eficiência. Sem reinventar a roda, o filme
    poeticamente insere o elemento poderoso da arte como instrumento de inspiração.

    Há uma corrente tola na crítica que enxerga problema na
    história que objetiva primordialmente as lágrimas dos espectadores, ignorando
    que é muito mais difícil tocar os corações do público, não é uma equação fácil,
    qualquer diretor consegue criar algo que incite indiferença, poucos nos
    comovem. Eu me recordo claramente de quando vi pela primeira vez “Marcas do
    Destino” (Mask – 1985), ainda na infância, como aquela imagem do jovem que
    sofria de displasia craniodiafisária me perturbou a princípio, até que a emoção
    superou qualquer estranheza, eu amadureci ao final da sessão. São filmes
    fundamentais que os pais devem mostrar aos filhos pequenos. O que motivou a
    autora de “Extraordinário” foi testemunhar a reação de uma menina na rua à
    passagem de uma criança com uma deformação facial, ela decidiu fazer algo a
    respeito objetivando jovens leitores, aqueles que efetivamente podem modificar
    algo na sociedade em longo prazo. Grande parte das vezes, a crueldade que vemos
    nas crianças nasce dos adultos, seres que dificilmente modificam diante da
    percepção do erro. O roteiro aponta isto em uma forte cena, os pais de um aluno
    que pratica o bullying em Auggie dão um espetáculo de arrogância e estupidez na
    sala do diretor da escola, intolerantes e preconceituosos, avalizam desavergonhadamente
    as atitudes do garoto.

    O diretor Stephen Chobsky, do ótimo “As Vantagens de ser
    Invisível”, equilibra muito bem os diferentes pontos de vista narrativos,
    conceito existente no livro, dedicando tempo generoso ao desenvolvimento de
    personagens periféricos e, principalmente, reforçando o impacto transformador da
    presença do menino em suas vidas, a força suave e terna que, ao corajosamente resistir
    às provocações, ensina a todos o valor inestimável da gentileza.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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