“Eu, Tonya”, de Craig Gillespie

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    Eu, Tonya (I, Tonya – 2017)

    O diretor australiano Craig Gillespie foi responsável por uma das melhores comédias de 2007, “A Garota Ideal”, mas desperdiçou os últimos anos em produções comportadas ou irrelevantes, tendo como ponto mais baixo a refilmagem de “A Hora do Espanto”. Com “Eu, Tonya”, ele protagoniza uma impressionante redenção artística, contando a conturbada história real da patinadora Tonya Harding, vivida impecavelmente por Margot Robbie, a primeira mulher norte-americana a completar o Axel triplo em grandes competições, mas que ficou marcada por ser a mandante de um caso grave de agressão a uma colega no início da década de noventa.

    O roteiro brilhante de Steven Rogers utiliza variados recursos, subvertendo a narração convencional ao entrecortar ela com a quebra da quarta parede, fazendo uso generoso de depoimentos interrompidos, além de momentos que resvalam no pastelão, como na cena do primeiro beijo do casal, com os dois limitados pelas mãos nos bolsos. Ao utilizar o terceiro movimento do Verão, das Quatro Estações de Vivaldi, que descreve musicalmente as forças da natureza desatadas em uma terrível tempestade, do momento em que ela claudicante beija a mãe (irrepreensível Allison Janney) em casa, atravessando a passagem de tempo e acompanhando a sua primeira apresentação profissional, a opção conscientemente estabelece a ligação intrínseca entre a execução de sua arte e a rigorosa criação parental. Se na infância havia algum traço de espontaneidade em seu amor pela patinação, agora aquilo havia se tornado válvula de escape e, principalmente, instrumento de revide. O próximo passo, adaptar a realidade à algo confortável, desfazer-se do figurino tradicional das competidoras e forjar sua própria armadura de batalha, evidenciando na sua costura exatamente o elemento que foi mais tolhido por sua extremamente insensível, abrutalhada mãe, a sua feminilidade.

    E, ironia do destino, quando ela finalmente oferece pela primeira vez a sua essência pura ao julgamento, entregando competência inegável no gelo, acaba recebendo críticas estéticas devido à simplicidade do figurino, a sociedade responde seu impulso existencial com a medíocre valorização da aparência. É, também, uma crítica ácida ao vazio culto das celebridades, a irrelevância dos rituais de premiação que se levam muito à sério, acusando o desespero em inserir no vulnerável psicológico da criança o ideal do “ser vitorioso”, ao invés do pleno “ser”, e, por conseguinte, exibindo de forma tragicômica o comportamento daqueles que alimentam esta indústria. Tonya pode ter um temperamento problemático, mas, como enfatizam estes sutis detalhes no relacionamento dela com a mãe e com o abusivo ex-marido (Sebastian Stan), ela nada mais é que o fruto de seu torto ambiente.

    “Eu, Tonya”, com sua leveza cativante ao abordar o tema espinhoso, ousadia narrativa inteligente e senso perfeito de ritmo é, desde já, um dos melhores filmes do ano.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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