Oscar 2018 – A Resposta Enfática de Hollywood para o Governo Trump

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    Em noite mexicana, o Oscar manda recado direto para todos os
    opressores, daqueles abusadores sexuais que se escondem nas sombras aos grandes
    construtores de muros sociais.

    A cerimônia do Oscar, com exceção de breves rompantes de
    ousadia, entregou o tom familiar de festa chique da empresa, com seu senso de
    humor de tio do pavê representado pela recorrente e rasa brincadeira sobre o
    jet-ski verde que seria dado ao vencedor que conseguisse discursar seu
    agradecimento em menor tempo. Apesar de teoricamente valorizar a
    representatividade, aquele profissional menos importante que se alongar um
    pouco no agradecimento continua sendo catapultado do palco com a “delicadeza”
    usual. Nem mesmo a presença da sempre bela Helen Mirren, participando de
    maneira obviamente desconfortável da tolice, ajudou a transformar o material
    vaudeville em algo minimamente digno da pretensa grandeza da noite.

    O importante não é respeitar a representatividade, apenas
    passar a imagem de que respeita, o público não deve ser ingênuo, os movimentos
    são comercializados, na intenção de evitar o boicote nas bilheterias. Tudo se
    resume aos lucros na fábrica de sonhos. Na categoria de Filme Estrangeiro, na
    dúvida, premia-se o produto menos interessante em competição, o chileno “Uma
    mulher fantástica”, protagonizado pela transexual Daniela Vega Hernández, que
    também foi generosamente utilizada no palco, já que a imprensa mundial precisa
    registrar como a mentalidade da Academia evoluiu.

    O início emulando os clássicos cinejornais foi nostálgico, a
    pena é que o direcionamento de resgate do passado cultural de Hollywood acabou
    sendo engolido pela necessidade midiática de vender a revolução comportamental.
    Já na brincadeira do monólogo de abertura de Jimmy Kimmel, houve espaço para um
    mea culpa sobre a gafe da troca dos envelopes no ano anterior, além de uma
    análise boba sobre a figura da estatueta, um eunuco que deixa suas mãos à
    mostra. Tudo muito rasteiro, infantil, roteiro pouco trabalhado.

    O primeiro grande momento de elegância e inteligência da
    noite foi a participação da veterana Eva Marie Saint, premiada em 1954 por
    “Sindicato de Ladrões”, que deu aula de vivacidade e emocionou a plateia ao
    falar sobre o recente falecimento de seu marido, companheiro de várias décadas.
    Logo depois, a jovialidade impressionante de Rita Moreno, premiada em 1962 por
    “Amor, sublime amor”, audaciosamente repetindo o vestido da época. Nestes
    momentos, o público consegue ter um vislumbre do que o Oscar já representou,
    antes de se tornar irrelevante perfumaria brega.

    Na fala sutil de Mark Hamill, eterno Luke Skywalker, um
    ponto de vista jocoso que compreende a fragilidade do verniz socialmente
    consciente do engajamento na indústria. Ele cita “discriminação contra robôs”,
    os colegas no palco fingem não escutar, a plateia emudece. O jogo é marcado,
    todas as minorias serão celebradas, os tons de cinza serão aniquilados, a festa
    da hipocrisia não pode parar. Ashley Judd, Salma Hayek e Annabella Sciorra,
    lendo o teleprompter com austeridade, abordam diretamente o movimento Time’s
    Up, o discurso não comove, não serve como protesto, mas cumpre a função
    principal, prover fotos interessantes para os veículos de comunicação.

    A vitória óbvia da animação “Viva – A vida é uma festa” desfere
    um gancho poderoso no queixo de Trump, Hollywood mostra que ama os mexicanos, o
    discurso de agradecimento brada pela importância da representatividade, sobra
    até um “Viva a América Latina”, faltou apenas os violinos e a fanfarra gloriosa
    típica do mestre John Williams, para que tudo ficasse ainda mais artificial.
    Digamos que a animação da Pixar cumpriu neste ano a função que a saudosa Carmen
    Miranda executou outrora, quando os norte-americanos precisavam de aliados na época
    da guerra.

    É válido ressaltar talvez o momento mais tolo, que está se tornando um péssimo hábito no
    evento. O apresentador convoca alguns astros para caminharem até uma sala de
    cinema próxima, para “surpreenderem” a plateia, como forma de agradecer o
    público cinéfilo mundial. Tão crível quanto os reality shows que dominam nossa
    televisão atual, a esquete é pura perda de tempo, obviamente combinada, com
    reações hilárias dos supostos surpreendidos. Vexame grotesco desnecessário.

    Gafe imperdoável do “In Memoriam”, esquecer nomes como Bill
    Paxton, Adam West e Miguel Ferrer. Sintomático do desprezo dos realizadores
    pela tradição, um segmento que já foi profundamente emotivo no passado, hoje,
    despejado rápido, tapinha nas costas inglório com pessoas que simplesmente
    forjaram a indústria de cinema.

    Sobre os vitoriosos da noite, Frances McDormand não apenas recebeu o justo reconhecimento
    por seu trabalho monumental em “Três anúncios para um crime”, como também
    garantiu o melhor discurso da noite, coisa de gente grande, inteligentemente
    cutucando as feridas expostas sobre a inclusão das mulheres no sistema. Perto
    do feminismo de butique que muitos aplaudem, este breve momento foi um choque
    de maturidade.

    Guillermo del Toro levou a estatueta de Direção e Filme,
    pelo belíssimo “A forma da água”, reconhecimento justo que novamente consagra a
    importância do cinema de gênero. É possível argumentar que ele estava no
    momento certo, na hora exata, afinal, premiar um mexicano na noite mais
    glamourosa de Hollywood é uma oportunidade primorosa de agredir o presidente
    Trump, nocaute brutal em um personagem caricato que nem mesmo os roteiristas
    mais criativos conseguiriam imaginar em seus trabalhos.

    * Texto escrito para o Caderno B do “Jornal do Brasil” (07/03/2018).

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    Octavio Caruso
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