A sensibilidade apurada de “Por Trás dos Seus Olhos”, de Marc Forster

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Por Trás dos Seus Olhos (All I See Is You – 2016)

O diretor alemão Marc Forster, que conquistou o mundo pela sensibilidade apurada de filmes como “Em busca da terra do nunca”, “Mais estranho que a ficção” e “O caçador de pipas”, mas acabou se perdendo em produções caras e tolas como “Redenção” e “Guerra mundial Z”, retorna ao seu estilo mais elegante com este drama psicológico.

Blake Lively, em ótimo momento, vive Gina, que perde tragicamente a visão na infância e a recupera na vida adulta, após uma cirurgia. A redescoberta sensorial do mundo impacta o dia a dia dela e de seu marido James (Jason Clarke), o relacionamento sem o elemento da dependência, intensificada na mudança profissional do casal para a Tailândia, sofre um abalo considerável. Ela, pela primeira vez, sente o desejo de ser admirada nas ruas, a beleza, conceito que desconhecia, passa a ser tentadora fonte de exploração existencial.
Ele, amedrontado, inseguro, compreende que não é mais fundamental naquela equação.

A forma como o roteiro trabalha esteticamente a cegueira e, por conseguinte, a sensação de isolamento da jovem, é criativamente instigante, conduzindo o espectador à dedução de imagens através de distorções visuais, sombras, borrões, tornando-o cúmplice da protagonista. O grande mérito é fazer com que o público sinta o desespero que pode ser causado pelas ações mais simples do cotidiano, como o acelerar de um carro na estrada.

Na cena mais rica em simbologia, Gina subverte sua condição e propõe sensualmente vendar James na cama, atitude que ele recebe com excessivo desconforto. É a mulher reivindicando finalmente o controle de seu corpo na sociedade machista.

Cotação: 3 5 stars - A sensibilidade apurada de "Por Trás dos Seus Olhos", de Marc Forster

* Crítica publicada no “Jornal do Brasil” (22/03/18).

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