“Praça Paris”, de Lucia Murat

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Praça Paris (2017)

Filha de um pai abusivo, Glória (impecável Grace Passô), moradora da favela e ascensorista na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, busca tratamento psicológico com a terapeuta portuguesa, Camila (Joana de Verona, ponto fraco) para lidar com as memórias dos abusos do pai e com a ausência e proteção de seu irmão, Jonas (Alex Brasil), que está preso. A trama segue com competência os códigos do thriller psicológico, mas um problema estrutural prejudica o resultado.

Ocorre com “Praça Paris”, de Lúcia Murat, obstáculo similar ao de projetos nacionais como “Que horas ela volta?”, a mensagem ideológica exagera no maniqueísmo e acaba fragilizando o bom roteiro, escrito por Raphael Montes, com consultoria do crítico e psicanalista Luiz Fernando Gallego. O potencial seria plenamente alcançado caso a narrativa não estivesse refém de personagens caricaturais. Frases como: “Você me enxerga como um bicho de zoológico, né?”, acabam reduzindo os argumentos ao raso “nós contra eles”.

Opções criativas da fotografia do argentino Guillermo Nieto, parceiro frequente de Pablo Trapero, e a eficiência da trilha sonora de André Abujamra e Marcio Nigro em estabelecer tensão, méritos louváveis. Ao utilizar a relação entre a dupla de protagonistas como veículo para discutir os excessos da polícia, a violência urbana, a visão preconceituosa e folclórica do estrangeiro sobre a realidade do brasileiro e, acima de tudo, o muro social que separa ricos e pobres, Murat entrega seu trabalho mais coeso desde “Quase dois irmãos”, de 2004.

  • Crítica publicada no Caderno B do “Jornal do Brasil” (26/04/18).

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