Crítica de “Mamma Mia: Lá Vamos Nós de Novo!”, de Ol Parker

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Mamma Mia: Lá Vamos Nós de Novo! (Mamma Mia: Here We Go Again! – 2018)

É comum a nova geração ligar a banda “ABBA” a algo brega, exótico, mas considero Benny Andersson e Björn Ulvaeus compositores tão brilhantes quanto Lennon e McCartney. Já em “Ring Ring”, primeiro disco do quarteto, quando ainda estavam buscando a harmonia com as lindas vozes de Agnetha Fältskog e Anni-Frid Lyngstad, você encontra a pérola pouco lembrada: “Another Town, Another Train”. No trabalho seguinte, “Waterloo”, além da excelente faixa-título, destaco “My Mama Said” (a linha de baixo é arrepiante) e “Honey, Honey”. A maturidade do som viria nos anos seguintes, especialmente nos discos “Arrival” (“My Love, My Life” é uma balada emocionante), “The Album” (a riqueza melódica de “The Name of The Game” é pura ousadia), “Super Trouper” (“The Winner Takes It All” e “Our Last Summer” são inesquecíveis) e o impecável “The Visitors”, último e injustamente pouco celebrado esforço criativo dos talentosos suecos, com canções maravilhosas como “When All Is Said And Done”, “One of Us” e “Slipping Through My Fingers”. Algumas destas já foram apresentadas no simpático “Mamma Mia”, dirigido pela Phyllida Lloyd em 2008, outras recebem tratamento especial nesta sequência que eleva o nível de qualidade, injetando alta dose de emoção.

A roteirista Catherine Johnson retorna, desta vez auxiliada pelo diretor Ol Parker e pelo mestre das comédias românticas modernas, Richard Curtis. Sophie (Amanda Seyfried) reabre na Grécia o hotel da mãe Donna (Meryl Streep). A premissa básica é inteligentemente simples, o projeto nasceu a partir da demanda do público, não há necessidade de reinventar a roda. A opção narrativa de eliminar a protagonista do original, passo corajoso, abre espaço para que os novos participantes conquistem o carinho dos fãs. Com a competência usual do editor Peter Lambert, a estrutura intercala o tempo atual e o flashback mostrando a juventude de Donna (vivida pela encantadora Lily James) e suas duas amigas, Tanya (Jessica Keenan Wynn) e Rosie (Alexa Davies), da época da escola às primeiras aventuras românticas com Sam (Jeremy Irvine), Harry (Hugh Skinner) e Bill (Josh Dylan).

O segredo do sucesso reside no carisma imbatível do elenco jovem. Você é levado a investir emocionalmente nos seus conflitos, apesar dos acontecimentos serem, em sua maioria, propositalmente inverossímeis, surreais. Quando os rostos familiares aparecem, Pierce Brosnan, Colin Firth, Stellan Skarsgård, Christine Baranski e Julie Walters, o espectador já comprou a ideia. A participação especial de Cher, como a avó de Sophie, momento pensado no diapasão épico, simboliza bem esta liberdade despretensiosa que é o maior charme da produção. O ponto fraco é que, com exceção das músicas mais intimistas, algumas coreografias são excessivamente elaboradas, o que acaba prejudicando a suspensão de descrença, dando um tom pasteurizado, resultando em clipes de empolgação forçada. Se a química natural do elenco tivesse sido aproveitada nestes interlúdios musicais menos inspirados, não seria necessária tanta firula técnica, recurso que invariavelmente afasta ao invés de convidar à imersão.

O leitmotiv da valorização da memória garante sequências belíssimas, infelizmente não posso revelar muito, para não estragar as surpresas, mas prepare os lenços para o terceiro ato. E vale aguardar a hilária cena pós-créditos. Você sente a todo segundo o coração deste espetáculo pulsando, a intensa ternura, poucos filmes conseguem fazer você rir e chorar de tristeza ao mesmo tempo. “Mamma Mia: Lá Vamos Nós de Novo!” opera esta mágica.

Cotação: Azhar movie Star Ratings 2 - Crítica de "Mamma Mia: Lá Vamos Nós de Novo!", de Ol Parker

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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