Crítica de “Ferrugem”, de Aly Muritiba

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Ferrugem (2018)

A adolescente Tati adora compartilhar sua vida nas redes sociais. Mas ela precisa amadurecer e lidar com as consequências, depois que algo que ela não queria que se tornasse público é divulgado no grupo do WhatsApp de sua turma de colégio.

Escrever sobre filmes que abordam o bullying é algo que me toca profundamente, porque eu vivi a experiência na carne durante boa parte da infância e toda a adolescência, um processo que aniquilou gradativamente minha autoestima na época. O ponto de virada foi quando tentei suicídio numa madrugada após uma excursão escolar, evento que, como relato em detalhes em meu primeiro livro, culminou em uma reflexão preciosa e, por conseguinte, uma mudança de atitude drástica, em que, sem qualquer ajuda externa, comecei a utilizar a teatralidade e o amor por cinema como ferramentas em uma desfragmentação diária de disco rígido interno, decisão que, em longo prazo, algo em torno de dez anos, transformou o garoto extremamente tímido em um adulto introvertido que atua, canta, escreve, dirige curtas independentes e ministra palestras profissionalmente.

Ao invés de me debruçar fragilizado na muleta da depressão, utilizei conscientemente toda a dor que sentia para forjar psicologicamente uma espécie de “nova identidade”, já que percebi que a vida é muito curta para desperdiçá-la com autocomiseração. É fundamental compreender que viver a vida adulta é ter coragem, enfrentar o medo, estimular naqueles que estão vivendo este problema hoje a atitude, não a letargia do coitadinho. “Ferrugem” marca pontos importantes neste sentido.

O roteirista/diretor Aly Muritiba (que assina o roteiro ao lado de Jessica Candal) conduz com muita competência o tema, especialmente na primeira metade do filme (estrutura em dois atos, ao invés dos três usuais), conseguindo retratar com sensibilidade o universo adolescente, as angústias e alegrias do período, assim como a natural hipersexualização, evidente nas pinturas das paredes do banheiro, sintomática da insegurança existencial típica da idade. Ao estabelecer o tom de sentimentos efervescentes, o texto se torna crível, essencialmente humano, com o mérito de optar por não fazer julgamentos, ao contrário de quase todas as obras no tema, como o mexicano “Depois de Lúcia”.

A segunda metade do filme se foca no rapaz (Giovanni De Lorenzi) responsável pelo absurdo, qualquer filme menos inteligente trabalharia o personagem como uma caricatura odiosa, mas o roteiro espertamente subverte as expectativas, aprofundando o estudo sobre o contexto familiar dele, dedicando mais tempo à ele. Se a ótica do diretor busca analisar o problema, não seria possível conquistar o objetivo com lucidez pela linha simplista do ódio, traçando um “vilão”. O real inimigo a ser combatido no bullying é a estupidez.

A necessidade tola da nova geração valorizar mais o registro (em vídeos e fotos) do que a experiência, uma camada subliminar que, de certa forma, aponta o erro cometido também pela garota. A evolução tecnológica parece potencializar o interesse cada vez mais raso do ser humano pelo aprimoramento intelectual, o imediatismo preguiçoso que considera mais interessante a vida projetada, do que a vida vivida. E, vale ressaltar, a humilhação violenta cai toda nas costas da jovem (Tifanny Dopke), outro ponto positivo, uma crítica direta que expõe o ovo da serpente machista, já que o garoto que aparece no vídeo íntimo parece ser “perdoado” pelos amigos, tudo se resume a piadas, gargalhadas. Estas escolhas narrativas mostram que o alvo de Muritiba é o sistema.

A ferrugem do título, a culpa que atormenta o protagonista. O relacionamento do rapaz com seus pais separados (Enrique Diaz e Clarissa Kiste) é turbulento, a personalidade problemática do jovem é amparada em adultos irresponsáveis. Não há tentativa de redimir o personagem da culpa no crime, apenas um esforço sincero e correto em tentar enxergar a soma de erros que transformam um ser puro em alguém capaz de cometer as maiores atrocidades.

Se, em termos de ritmo, o segundo ato indefensavelmente perde pontos, graciosamente ele evita o melodrama folhetinesco em sua conclusão, resultando em um produto acima da média.

Cotação: 4 stars - Crítica de "Ferrugem", de Aly Muritiba

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Octavio Caruso
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