A trágica morte do ator Vic Morrow nas filmagens de “No Limite da Realidade”

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Existem casos trágicos nos bastidores de Hollywood que conseguiram ser abafados com precisão cirúrgica pelos produtores. Nenhum foi mais terrível que o do ator Vic Morrow e duas crianças asiáticas. Deve haver enorme responsabilidade ao comandar uma produção em que a verba seja alta e as ambições ainda maiores.

O diretor John Landis (que vinha de uma corrente de sucessos, como “Um Lobisomem Americano em Londres”, “Os Irmãos Cara de Pau” e “O Clube dos Cafajestes”) era jovem e já experimentava as glórias do reconhecimento em sua carreira, sendo considerado um dos expoentes em sua área. Associou-se a Steven Spielberg na produção de “No Limite da Realidade” (Twilight Zone: The Movie – 1983), um aguardado resgate da série “Além da Imaginação”. Tudo parecia conspirar para o sucesso da produção, que contava com um elenco de nomes populares na época, como Dan Aykroyd e Vic Morrow (famoso pela série “Combate” e que na época estava com cinquenta e três anos), tendo seus segmentos dirigidos também por Joe Dante (que viria a fazer “Gremlins”) e George Miller (já popular por “Mad Max” e “Mad Max 2”). O problema ocorreu nas filmagens do episódio de Landis, que, em seu clímax, mostrava Morrow sendo perseguido em uma floresta no Vietnã por um helicóptero. Seu personagem encontraria duas crianças vietnamitas e em um ato de redenção atravessaria um rio com elas nos braços, enquanto a vila seria dizimada por enormes explosões. O segmento terminaria com o veterano ator (cujo personagem tinha um histórico cruel) dizendo às crianças: “Eu manterei vocês a salvo, prometo!”.

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O diretor ficou transtornado ao saber que na Califórnia havia uma lei trabalhista infantil que impedia uma criança de trabalhar de madrugada (que era o horário que ele considerava necessário para seu projeto). Os agentes de elenco chegaram a demonstrar preocupação com a gravação da cena, chegando a conversar com o diretor sobre o perigo envolvido. Landis decidiu driblar a lei, contratando ilegalmente as crianças e dando-as alguns trocados, para evitar inseri-las na folha de pagamento. Um dos assistentes de direção tentou mudar a cabeça de seu chefe, dando a opção de filmá-las durante o dia e artificialmente fazer parecer ser de noite ou até mesmo contratar dois anões para fazer o serviço (mas desta forma não se poderia filmá-los de perto, o que contrariou o perfeccionismo do diretor), porém, ele estava irredutível. Os assistentes então correram para encontrar as crianças asiáticas, cujos pais estivessem dispostos a aceitar as condições arriscadas da filmagem. Encontraram Renee (seis anos) e My-Ca (sete anos), que ficaram tremendamente felizes por participarem do filme. Foram duas noites de gravação, que terminaram tragicamente em 23 de Julho de 1982.

As explosões assustaram as crianças e o piloto do helicóptero, que alertou Landis do risco, mas recebeu dele um comando de: “desça mais, desça mais!”. Os explosivos acertaram o helicóptero, que perdeu o controle e despencou com a hélice em movimento, acertando em cheio Morrow e as duas crianças, que já estavam no meio do rio. A tragédia levou Landis e Spielberg a um processo jurídico (pela filha de Morrow, a atriz Jennifer Jason Leigh) que terminou com a amizade entre os dois. Traumatizado, o jovem chegou a duvidar da possibilidade de estar atrás de uma câmera e dar ordens novamente. Foi uma tragédia que poderia ter sido evitada, um conjunto de erros que foram ignorados em prol da ganância. Em uma decisão infeliz dos produtores, o filme estreou pouco tempo depois, sendo recebido pelo público e pela crítica com óbvia frieza. Como sempre, após o “prédio desabar contrata-se um engenheiro”, devido ao que ocorreu foram modificadas as leis de trabalho infantil no cinema, o que impediu que casos similares acontecessem.

A irresponsabilidade de John Landis fez com que sua promissora carreira perdesse crédito. Ele ainda conseguiu destaque dirigindo o clássico clipe de Michael Jackson “Thriller”, mas seus projetos seguintes não demonstram toda aquela sagacidade que o jovem possuía em seu início. Em entrevistas, ele raramente toca no assunto, mas quando o faz, reafirma o quanto esta tragédia o abalou e como ele não passa sequer um dia sem se lembrar daquelas crianças.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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