2 pérolas do CINEMA MUDO: “Inferno” (1911) e “Uma Página de Loucura” (1926)

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Inferno (L’Inferno – 1911)

Ao voltar no tempo para os primórdios desta arte com os irmãos Lumière e a produtora de Thomas Edison, você entende o caráter de puro entretenimento desta ferramenta, que era exibida inicialmente nos Nickelodeons, primitivas saletas em que, por alguns trocados, os frequentadores garantiam poucos minutos de diversão com a exótica novidade da imagem captada em movimento na tela.

Os primeiros cineastas autorais, como Georges Méliès e Alice Guy-Blaché, ousaram inserir o elemento da narrativa, transformando o cinematógrafo em um contador de histórias. Analisando a lenta evolução que ocorreu entre “Viagem à Lua”, de Méliès (1902), e “O Nascimento de Uma Nação”, de D.W. Griffith (1915), existe uma obra italiana pouco lembrada, apesar de ter sido um sucesso nas bilheterias da época: “Inferno”, dirigida por Francesco Bertolini, Adolfo Padovan e Giuseppe de Liguoro, adaptando a primeira parte de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, com forte inspiração nas pinturas de Gustave Doré.

É surpreendente o escopo épico, não apenas da ambiciosa pretensão artística da obra, mas também de sua execução, nos elaborados figurinos e na composição das cenas. O posicionamento da câmera, como era usual no período, remete à linguagem teatral, algo que reforça a reverência ao material literário, dando um caráter mais adulto ao que, até então, ainda era visto como bobagem juvenil. As filmagens levaram mais de três anos, o hercúleo esforço dos três diretores é visível em sequências como aquela que mostra Dante e Virgílio se aproximando do rio Aqueronte, com dezenas de corpos nus tentando embarcar na balsa de Caronte, que os afasta com seu remo. Não há nada realizado pelo cinema até aquele momento que se compare com a complexidade das imagens desta obra, que, inclusive faz uso pioneiro dos flashbacks na trama.

Alguns truques visuais de Méliès são utilizados, mas a proposta é completamente diferente, o interesse é evidenciar o horror daquela realidade, o clima é de constante pesadelo. Se tivesse sido feita nos Estados Unidos, seria abraçada hoje internacionalmente pelos acadêmicos como uma obra-prima, não estaria limitada ao interesse arqueológico dos cinéfilos mais dedicados.

a page of madness - 2 pérolas do CINEMA MUDO: "Inferno" (1911) e "Uma Página de Loucura" (1926)

Uma Página de Loucura (Kurutta ippêji – 1926)

É curioso pensar que esta pérola ficou perdida por quarenta e cinco anos, até que seu diretor a encontrou no seu armazém em 1971, uma versão incompleta, mas, ainda assim, espetacular, com óbvia inspiração no clássico do expressionismo alemão: “O Gabinete do Dr. Caligari” (1920), de Robert Wiene. Após conseguir um contrato de distribuição com a produtora Shochiku, o diretor lutou para se manter vivo financeiramente, com a ajuda do próprio elenco, que se colocava à disposição até para pintar os cenários, acreditando na qualidade da obra.

A ausência de intertítulos, agregando ao estilo experimental trabalhado por Teinosuke Kinugasa, reforça a atmosfera sombria da narrativa que, sem exagero, parece saída dos recônditos da deep web. As imagens são perturbadoras, não por menos, acompanhamos os delírios de pacientes de um manicômio (numa crítica à forma como eles eram tratados na sociedade), como a jovem que dança aprisionada em seu quarto de isolamento, tendo como acompanhamento sonoro os trovões da chuva intensa que castiga o ambiente externo.

Os ângulos enviesados, refletindo a distorção mental, abusando da edição frenética da montagem soviética (de forma inconsciente, já que os medalhões de Eisenstein só foram exibidos no Japão na década de 60), facilitam a imersão sensorial imediata do espectador.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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