“A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg

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A Lista de Schindler (Schindler’s List – 1993)

A inusitada história de Oskar Schindler (Liam Neeson), um sujeito oportunista, sedutor, “armador”, simpático, comerciante no mercado negro, mas, acima de tudo, um homem que se relacionava muito bem com o regime nazista, tanto que era membro do próprio Partido Nazista (o que não o impediu de ser preso algumas vezes, mas sempre o libertavam rapidamente, em razão dos seus contatos). No entanto, apesar dos seus defeitos, ele amava o ser humano e assim fez o impossível, a ponto de perder a sua fortuna mas conseguir salvar mais de mil judeus dos campos de concentração.

Não havia cineasta mais qualificado para eternizar nas telas o lindo legado de Oskar Schindler, qualquer outro, por mais competente que fosse, acabaria optando pela excessiva frieza reverente, equivocadamente tida por muitos críticos esnobes como expressão artística de maior valor. Spielberg sabia que o importante tema seria favorecido pelo estímulo à revisão, logo, inteligentemente recusou o distanciamento emotivo, entregando um dos mais belos filmes da década de 90, adaptado do ótimo livro homônimo de Thomas Keneally pelo competente roteirista Steven Zaillian.

“Aquele que salva uma vida, salva todo o mundo.”

O desfecho é poderoso em sua simbologia, os sobreviventes dos campos de concentração e seus descendentes em uma peregrinação até o túmulo de Schindler, repetindo a tradição judaica de depositar pedras, reforçando a duradoura memória daquele ato libertador. A bela melancolia na trilha sonora de John Williams capta a essência fugaz da vida, com o desenvolto violino se esforçando para manter as notas limpas, sobrepondo-se orgulhoso à disciplina do piano, alegoricamente representando o conflito da trama, em suma, a beleza nascida da dor. Na tela, a mesma sensibilidade transborda em cada cena, mérito da fotografia do grande Janusz Kaminski, como a muito comentada aparição da menina de vestidinho vermelho, única cor que se destaca brutalmente na desolação registrada em preto e branco, a pureza da criança que será vencida pela maldade dos adultos.

A entrega inicialmente contida de Liam Neeson enfatiza o elemento mais interessante, Schindler, um oportunista sedutor que lucrava com o regime opressor, amadureceu e firmou seu caráter ao enxergar a dimensão humana da tragédia, o lento processo de humilhação e exploração que culminou com a eliminação massiva nos campos, com a fundamental ajuda de Itzhak Stern (impecável Ben Kingsley), abdicando de sua fortuna e literalmente lutando por cada indivíduo que conseguia salvar do extermínio, preciosos nomes na lista de funcionários em sua fábrica de panelas. O seu heroísmo desperta contra todas as probabilidades, conquistando a profunda admiração de seu colega contador.

Spielberg entende onde está o coração da história e dedica tempo generoso ao momento em que o homem, após todo o sacrifício, chora convulsivamente por ter a consciência de que desperdiçou tanto dinheiro em sua juventude e que, naquela noite fria, um simples broche poderia ter pagado por mais uma alma.

Cotação: stars1 - "A Lista de Schindler", de Steven Spielberg

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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