A Ilha Nua (Hadaka no Shima – 1960)

Numa ilha a oeste do Japão, uma família vive tranquilamente e sozinha, apesar da dificuldade do dia a dia, até que acontece um infortúnio que faz com que tudo mude de forma drástica para aquele casal e seus dois filhos.

O diretor Kaneto Shindô, homenageando seus pais e sua vida na infância, criou um poema visual, sem diálogos, trabalhando o esforço diário do casal que, como formigas enfrentando as forças da natureza, segue levando água para manter seu cultivo, viajando em um pequeno barco até o continente, abastecendo os baldes que equilibram com extrema dificuldade nos ombros enquanto sobem o relevo íngreme e acidentado, castigados pelo sol ardente, apenas para que, como o mitológico Sísifo, vejam a terra beber em questão de segundos aquele tesouro.

Ao repetir generosamente este ritual no primeiro ato, recurso tido por alguns colegas críticos como equivocado por tornar o ritmo arrastado, o diretor inteligentemente potencializa o impacto emocional do público quando algo dá errado, um mínimo descuido da mulher, Shindô te faz sentir o suor que escorre das faces, a dor silenciosa, assim como também te leva a compreender a reação impulsiva do marido ao ocorrido. O sentido da vida do casal é aquela rotina, qualquer abalo no processo significa mais do que apenas prejuízo momentâneo, ou um obstáculo na luta pela sobrevivência, representa uma cicatriz existencial, afinal, eles sacrificam tudo o que mais amam, a convivência com os filhos pequenos, por aquele trabalho.

O devastador terceiro ato recompensa o espectador paciente ao permitir à mãe, pela primeira vez, o natural extravasamento emocional, após enterrar um dos filhos que havia adoecido, o que conduz à uma cena plena em simbolismo, mostrando a leoa ferida retomando o ritual com a dignidade de quem sabe que não há alternativa, a terra precisa de água, um dos momentos mais belamente tristes do cinema japonês.

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Viva você também este sonho...

1 COMENTÁRIO

  1. Prezado Octavio,
    Assisti esse filme no cinema. Já faz um bom tempo, e, as cenas em que carregam água, são realmente fortes.
    Pena que, filmes de arte, mostras de grandes diretores, são cada vez mais raros. Saudades da Sala Cinemateca, Oscarito, CCSP, quando era comum assistir filmes de arte.

    Abraço.

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