Crítica de “A Escavação”, de Simon Stone, na NETFLIX

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A Escavação (The Dig – 2021)

Baseado em uma história real. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, uma viúva inglesa (Carey Mulligan) faz uma descoberta histórica ao contratar um arqueólogo amador (Ralph Fiennes) para escavar misteriosas formações em suas terras.

O afinado roteiro de Moira Buffini (da mais recente adaptação de “Jane Eyre”, de 2011), adaptando o romance homônimo de John Preston, escrito em homenagem à sua tia arqueóloga (Peggy, vivida por Lily James), recebe tratamento elegante na fotografia maravilhosa de Mike Eley, sob a direção firme do australiano Simon Stone, profissional que já demonstrava sua competência na pérola minimalista “A Filha”, de 2015.

A história é pouco conhecida no Brasil, mas é uma página importantíssima da arqueologia mundial, as escavações em Sutton Hoo, na Inglaterra, no final da década de 30, foram fundamentais para os historiadores que investigam a Idade Média, preencheram lacunas importantes, evidenciando que houve refinamento na era das trevas.

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“Ele fala conosco, o passado…”

A forma como a trama utiliza o evento como alegoria para explorar filosoficamente a finitude é plena em beleza e sensibilidade, rimas visuais injetam profundidade em momentos aparentemente simplórios. O real interesse do filme está na escavação da alma de seus personagens. Se o acidente quase fatal com Basil (Fiennes), que é soterrado, desperta nele a compreensão daquele trabalho como uma missão de vida, a constatação médica de que não resta muito tempo para Edith (Mulligan), potencializa nela a valorização do legado.

Há uma guerra destruidora no horizonte, mas os dois entendem que vale a pena arriscar tudo para oferecer aos homens do amanhã os frutos daquela escavação. A mesma força inexplicável de caráter que instintivamente fazia ela crer que havia algo especial em suas terras, parece mover os sonhos do pequeno Robert (Archie Barnes), seu único filho, que encontra no espírito aventureiro de Basil a resposta real para os heróis espaciais que povoam sua imaginação nas páginas dos quadrinhos.

Quando a jovem Peggy se une ao grupo, extravasando a frustração matrimonial na tarefa braçal, a mensagem da obra fica mais clara, o trabalho conjunto pela preservação daquela descoberta encoraja a libertação do melhor em cada indivíduo, ilumina o recôndito esquecido dos anseios existenciais mais ternos.

A escolha esperta do design de som, diálogos utilizados como narração na montagem, além de deixar mais fluido o todo, transmite a sensação de que testemunhamos uma narrativa formada a partir de lembranças, ecoando a pegada onírica da fotografia. Ao lutarem pela melhor utilização daquela preciosa informação, eles redimem erros de outrora, marcando suas pegadas na História, honrando a breve experiência da vida. E considero perfeito o timing deste lançamento, já que vivemos globalmente os efeitos da cultura torta do imediatismo revolucionário, da desconstrução irresponsável da memória em todos os setores, nada melhor do que celebrar a arte de indivíduos que vivem para conservar/estudar o passado.

Um dos méritos de “A Escavação” é manter a abordagem cálida, o tom elegíaco, ao contrário do que a trama sugere, não poderia ser mais emotivo, vale ressaltar, sem derrapar no melodrama pueril, cativando o espectador desde os primeiros minutos, até o desfecho recompensador. É, desde já, um dos melhores filmes do ano.

Cotação: stars1 - Crítica de "A Escavação", de Simon Stone, na NETFLIX

Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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