Muito Além do Jardim (Being There – 1979)

Um jardineiro simplório (Peter Sellers) cresce fechado na casa do patrão, sem saber nada do mundo além do que via pela TV. Quando ele falece, Chance é obrigado a deixar a casa e, acidentalmente, é atropelado pelo automóvel de Benjamin Rand (Melvyn Douglas), um grande magnata que se torna seu amigo e chega a apresentá-lo ao Presidente (Jack Warden). Enquanto isto, a esposa (Shirley MacLaine) do magnata acaba se apaixonando pelo enigmático estranho.

Eu jamais vou esquecer a sensação ao final da primeira sessão da obra, que consegui encontrar com dificuldade no garimpo vespertino pelas locadoras de vídeo (era comum entrar de sócio apenas por causa de um título que não encontrava nas outras), e, claro, fiz uma cópia em VHS para a minha videoteca, antes de colocar a fita na mochila, entre os livros das matérias do dia na escola, para devolver rebobinada na tarde seguinte. Eu só fui ler “O Videota” décadas depois, adquirido em sebo, mas o que me atraiu o interesse à época foi a semelhança com o conceito de outro filme que eu adorava, “O Enigma de Kaspar Hauser”, de Werner Herzog, inspirado em uma história real ocorrida na Alemanha.

Peter Sellers já era um dos meus atores favoritos, mas nada havia me preparado para sua entrega minimalista, fiquei muito emocionado com a simbologia do elegante desfecho, infelizmente prejudicado sensorialmente pela equivocada decisão (repudiada pelo próprio ator) de apresentar cômicos erros de gravação durante os créditos finais. Uma das cenas mais bonitas da história do cinema. O ato metafórico de atravessar o lago caminhando reforça visualmente a inaptidão do protagonista em se adequar ao sistema corrupto, um ser verdadeiramente livre, seu caráter não segue as leis da física, ele entende que a vida é um estado mental, logo, ele é o mestre de suas emoções.

beingthere - Sétima Arte em Cenas - "Muito Além do Jardim", de Hal Ashby

O jardim precisa ser regado constantemente, a lei da natureza deve ser obedecida, mesmo que o dono do terreno articule novas regras, o jardineiro dedicado sabe que a desobediência às ordens erradas é fundamental. A política é a arte do possível, não se pode esperar grandes feitos de um sistema apodrecido e que se protege de qualquer tentativa ingênua de correção. Qualquer voz contrária, por mais corajosa que seja, está fadada a ser silenciada e deslegitimada. Não há dúvida, os donos do poder enxergam inicialmente na figura de Chance uma marionete fácil de controlar.

No livro original do polonês Jerzy Kosinski, próximo do espertamente abrupto final, os engravatados demonstram preocupação quando percebem que aquele indivíduo não possui histórico de vida rastreável, logo, não terão material para, no futuro, punir sua desobediência às suas agendas. O homem simples é também perigoso, indecifrável, a sua verdade é tão pura que confunde aqueles adultos que vivem pela mentira e dependem de um coletivo submisso.

Chance, assim como o Jefferson Smith, vivido por James Stewart em “A Mulher Faz o Homem”, representa as potencialidades remissoras de alguém íntegro, profundamente sincero, inserido naquele jogo sujo.

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Viva você também este sonho...

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