Críticas

“O Andarilho” (1979), de Paul Naschy

O Andarilho (El Caminante – 1979)

Leonardo (Paul Naschy), o diabo em forma humana, é um andarilho que preza a busca pelo prazer sem escrúpulos, sem código moral, embasado pela consciência de que a humanidade é uma raça corrompida, sem redenção. Ele cruza o caminho do jovem Tomás (David Rocha), um servo maltratado por seu antigo mestre, que logo se torna seu aprendiz em uma jornada para provar que os seres humanos são fracos e destinados ao inferno.

Não sei explicar a razão, mas sempre considerei “El Caminante” esteticamente similar ao “Finis Hominis”, porém, com proposta radicalmente oposta, lançado por José Mojica Marins oito anos antes.

O diretor Paul Naschy, pseudônimo de Jacinto Molina, o lobisomem espanhol Waldemar Daninsky de tantas fitas B divertidíssimas, considerava este o seu melhor trabalho, apesar de continuar sendo pouco comentado até mesmo entre seus admiradores. É, sem dúvida, o seu momento mais sofisticado, com uma fotografia inspirada de Alejandro Ulloa, destacando a cor vermelha sempre que o protagonista abraça apertado o maquiavelismo.

O roteiro ambientado no período medieval, escrito por Naschy e Eduarda Targioni, tem toques pasolinianos de humor negro e uma boa dose de crítica social e religiosa, como na sequência forte em que, crucificado à frente de uma imagem de Cristo, emoldurado pelo entardecer, o seu personagem entrega um monólogo pungente salientando a suprema tolice de um messias que se sacrifica por uma humanidade tão cruel, capaz de atos tão terríveis como o extermínio de judeus na Segunda Guerra Mundial.

O elemento de terror mais óbvio está na forma como o filme estabelece desde os primeiros minutos um clima constante de desamparo, refletindo a maneira brutalmente desesperançada com que seu diretor enxerga a experiência da vida, algo facilmente perceptível em toda a sua carreira.

Octavio Caruso

Viva você também este sonho...

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