Galante e Sanguinário (3:10 To Yuma – 1957)

Dan Evans (Van Heflin), um rancheiro do Arizona que foi prejudicado pela seca, se prontifica a levar o criminoso Ben Wade (Glenn Ford) de Bisbee para Yuma onde ele irá ser julgado. Acompanhado apenas pelo bêbado da cidade, Alex Potter (Henry Jones), Dan tem que lutar contra o capanga de Wade, o irmão da vitima do assassino que quer se vingar do criminoso, e também com a tentação de aceitar uma grande recompensa oferecida por Wade, em troca de sua liberdade.

Este é um dos meus faroestes favoritos, e, em revisão para este texto, fiquei ainda mais impressionado com a sua incrível capacidade de síntese, o roteiro, assinado por Halsted Welles, adaptando o conto de Elmore Leonard, compreende perfeitamente a essência da bonita alegoria sobre o poder inspirador da honra como bússola moral.

devotudoaocinema.com.br - "Galante e Sanguinário", de Delmer Daves

Uma bela jovem (Felicia Ferr) serve mecanicamente o uísque aos forasteiros no saloon, o olhar perdido de quem já não nutre esperança alguma, ela inconscientemente transparece o mesmo espírito quebrado de todo cidadão que vive por muitos anos em um regime ditatorial. Wade, encantado, enfatiza a fragilidade física dela, como se ela tivesse sido consumida por frustrações constantes. O público logo vai descobrir que aquele microcosmo é dominado por homens absurdamente covardes.

Quando surge a oportunidade de minimizar o prejuízo de uma temporada de seca, Evans, incomodado com o abalo na sua imagem de provedor aos olhos da esposa e dos filhos pequenos, aceita os riscos de uma missão que ele sabe não ter capacidade real de cumprir: conduzir um criminoso experiente ao trem das 3h10 para Yuma.

Na jornada para o julgamento de Wade, Evans existencialmente enfrenta o seu próprio juízo, abandonado por todos e tentado financeiramente pelo bandido, ele encontra o sentido da vida na admiração que sua atitude vai gerar na mulher que ama, no orgulho que os seus meninos vão sentir, um tesouro inestimável, mais importante do que saciar a fome do corpo.

Wade, ainda perturbado com o que enxergou nos olhos da jovem no saloon, reconhece naquele pai de família honrado uma valorosa coragem. É como se ele, objetivando metaforicamente proteger a dama, entendesse a importância daquele sujeito virtuoso na necessária transformação da sociedade. Ele sabe que pode se safar a qualquer momento, Evans não oferece ameaça física, não é um pistoleiro, mas o seu fascínio por aquela figura só cresce a cada tentação rejeitada.

O desfecho é brilhante, a chuva reforça o caráter fabulesco da trama, um conto moral que utiliza as convenções do faroeste como veículo para transmitir uma mensagem mais relevante do que nunca: o medo destrói o espírito, alimenta o mal, a coragem granjeia o respeito até mesmo do inimigo mais cruel.

  • Você encontra o filme em DVD e garimpando na internet.

Trailer:

Trilha sonora composta por George Duning (cantada por Frankie Laine):



Viva você também este sonho...

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