Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin – 1987)
Dois anjos, Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander), passam pelas ruas de Berlim observando a população, fornecem raios invisíveis de esperança para os aflitos, mas nunca interagem com eles. Porém, Damiel acaba se apaixonando pela solitária trapezista Marion (Solveig Dommartin) e agora deseja experimentar a vida no mundo físico.
No exato momento em que escrevo este texto, o veterano diretor alemão está sendo vítima de uma tentativa de estúpido “cancelamento”, o motivo é sempre cretino, você pode buscar nas manchetes de seus engenheiros sociais diários, basicamente ele não se curvou no jogo de “o mestre mandou” financiado pelos titereiros do caos mundial, deu a resposta errada em um terreno dominado por fantoches canalhas e infantilizados, perturbando a teatralidade doentia que segue se alimentando da apatia de um povo que infelizmente, na hora crucial, desistiu de raciocinar. Como ousam deslegitimar a arte de Wim Wenders? Tomem juízo!

É incrível como alguns filmes crescem com o olhar da maturidade, eu lembro que considerava problemático o desfecho de “Asas do Desejo” na adolescência, falhava em captar plenamente o significado e a beleza de algumas cenas, em suma, entendia a experiência, mas não sentia o seu impacto em meu coração, não tinha a bagagem emocional necessária para me perder (e, por conseguinte, me achar) dentro do seu lindo conceito. A revisão deste filme causou um efeito verdadeiramente terapêutico, horas depois da sessão ainda sinto o peso das reflexões que ele incitou.

Antigamente eu dedicaria madrugadas inteiras na preparação de um texto sobre obras desta grandeza, mas a frustração de saber que a postagem vai gerar poucos cliques acaba me forçando a priorizar a síntese, não há mais material humano, principalmente no meu tétrico Brasil, capaz de absorver e interpretar análises longas, fico triste ao constatar o efeito deprimente do comportamento brasileiro em meu ofício. Olho pela janela multidões de bobos alegres marchando em trajes sumários para bloquinhos carnavalescos, para a exibição usual de bestialidade, e, com o orgulho de remar contra este vazio existencial, luto para entregar algo de qualidade para os poucos que se importam.
Como se portariam os anjos da obra na minha realidade? Damiel e Cassiel enxergariam esta massa pútrida como um caso perdido? Talvez não, provavelmente tentariam compreender a chocante ausência de amor próprio, o desprezo pela elegância, a perda dos bons modos, o declínio dos pequenos gestos de cortesia, o desrespeito com os mais velhos e com as crianças. A única certeza que tenho é que eles, em hipótese alguma, teriam qualquer estímulo para vivenciar como humanos esta experiência. Qualquer indivíduo inteligente, sobrenatural ou não, simplesmente abandona um coletivo que estupidamente gargalha no limiar da própria destruição.

Há cenas incrivelmente belas, destaco a sequência em que Cassiel extravasa a angústia por não conseguir deter o ato desesperado de um jovem. É um momento tonalmente destoante, mais visceral, reforçando sensorialmente o peso dramático da situação. O valor inestimável da vida, no contexto de um país que ainda se recuperava dos traumas da guerra. O personagem de Peter Falk, o eterno “Columbo”, representa laudatória persona metalinguística que, por ter vivido esta transição, serve como veículo para explicar ao anjo o modus operandi destes seres frágeis e fascinantes.
A triste e solitária figura da bela trapezista de circo, alguém que, por profissão, exercita constantemente o risco da ambição de Ícaro, desperta em Damiel uma paixão arrebatadora. Ela, vulnerável, mas corajosa, simboliza as potencialidades humanas, o seu longo e profundo discurso ao final, na cena do bar, confirma as suas crenças, evoca a integridade que o anjo já captava quando a acompanhava ao pé do ouvido, encantado com o sussurro doce de seus pensamentos.
“Asas do Desejo” precisa ser redescoberto, um dos filmes mais bonitos da década de 80, um tesouro na carreira do grande Wim Wenders.
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