Preparar sessões duplas caseiras com refilmagens pouco óbvias é algo que sempre me divertiu, mas era algo bastante difícil na época das locadoras de vídeo, a informação era escassa, o acesso ao material era muito limitado.
Quando a internet começou a engrenar, a brincadeira melhorou, você encontrava praticamente qualquer filme com facilidade, ainda que levasse uma madrugada inteira para baixar um arquivo. Hoje em dia, o cinéfilo dedicado e apaixonado vive o paraíso, mas, no auge da tecnologia, o ser humano parece ter perdido o elemento básico do interesse.
Ao público que rema comigo contra a corrente, proponho desta feita uma experiência enriquecedora que tive o prazer de viver nesta semana. Eu descobri em meu estudo autodidata contínuo na arte a (excelente) refilmagem mexicana de uma pérola cômica da era de ouro de Hollywood. Motivo suficiente para rever o original e absorver com fascínio as diferenças, aquilo que foi melhorado, a beleza única de cada obra.

Sua Excelência, O Chofer (Merrily We Live – 1938)
Clássica screwball comedy sobre Emily Kilbourne (Billie Burke, em uma atuação espetacular), uma excêntrica socialite com a mania de contratar ex-presidiários como empregados. A trama se desenrola quando ela contrata um atraente “vagabundo” (Brian Aherne) que aparece à sua porta para ser seu novo chofer. A casa vira de cabeça para baixo quando sua filha, Geraldine (Constance Bennett), se apaixona pelo novo funcionário.
Dirigida pelo sempre competente Norman Z. McLeod, com uma história que bebe (principalmente no desfecho) livremente na fonte de “Irene, a Teimosa” (1936), de Gregory La Cava, só que objetivando mais a graça do que o discurso social, esta pérola exala a criatividade típica da maravilhosa década de 1930, com diálogos e situações que sobreviveram com folga ao teste do tempo.
Um ponto que considero brilhante é o contraste imediato que é estabelecido entre o “vagabundo” e a família, ele é, de longe, a figura mais equilibrada e bem-educada na equação.

Escola de Vagabundos (Escuela de Vagabundos – 1955)
A trama gira em torno de Alberto Medina (Pedro Infante), um famoso e rico compositor que fica sem gasolina durante uma viagem e acaba parando na mansão da família Valverde. Doña Emilia (Blanca de Castejón), a mãe da família, tem a peculiar mania de abrigar e tentar reformar vagabundos. Ao chegar lá, Alberto é confundido com um andarilho e, por diversão, decide manter a farsa, sendo contratado como motorista da família.
O diretor Rogelio A. González, do ótimo terror “O Esqueleto da Sra. Morales” (1960), entende bem a mensagem do original e brinca inteligentemente (e com segurança) transpondo as personalidades para a realidade do povo mexicano da época, inserindo o elemento musical, na presença de Pedro Infante (que canta, entre outras, a bonita “Cucurrucucú Paloma”, de Tomás Méndez). A química entre ele e a bela Miroslava cativa desde o início.
No roteiro, há a assinatura do grande Fernando de Fuentes, um dos maiores diretores da história do cinema mexicano. Vale destacar para o público brasileiro a rápida (mas talentosa) aparição de Don Ramón, o eterno Seu Madruga, de “Chaves”.
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Uma curiosidade, o público mexicano deve ter amado este conceito, já que há outra espécie de refilmagem, lançada em 1969, intitulada “El Criado Malcriado“, dirigida por Francisco del Villar, com Mauricio Garcés. Considero inferior, até porque modifica algo essencial na construção do protagonista, ele deixa de ser honrado, ele é mostrado como um criminoso mesmo, perde o sentido. A execução também é bem fraca, o desfecho é desastroso.
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