Séries

Crítica nostálgica da clássica série “Columbo” (1971-1978)

Columbo (1971-1978)

A trama segue o tenente Columbo (Peter Falk), de Los Angeles, desleixado, mas genial, que usa dissimulação e persistência para desvendar assassinatos perfeitos, frequentemente cometidos pela elite.

O meu primeiro contato com a série foi na infância, quando ela era exibida na TV Record, anos depois acompanhei alguns episódios no canal por assinatura Universal, sempre lia na adolescência sobre ela em revistas de cinema e cultura pop, mas foi graças à internet que pude conhecer melhor a produção. Quando foi lançada finalmente a primeira temporada em DVD, creio que em 2005, não pensei duas vezes, comprei e devorei cada episódio, apesar de já ter baixado e gravado as seis primeiras temporadas. Este era o modus operandi para os apaixonados por arte na época pré-internet, a gente caçava o objeto de desejo, não ficava sentado perguntando: “Onde encontro? Onde está passando?”

O conceito, criado por Richard Levinson e William Link, apareceu inicialmente em estágio embrionário no teleteatro “The Chevy Mystery Show”, em 1960, um episódio chamado “Enough Rope”, com Bert Freed no papel do detetive. A dupla posteriormente adaptou o roteiro para uma peça teatral, “Prescription: Murder“, que, mais tarde, em 1968, virou telefilme, dirigido por Richard Irving, já com Peter Falk defendendo o personagem. É um ótimo trabalho, ainda que não traga muitas das características que seriam desenvolvidas na série, tenho ele na coleção em fita VHS importada, indico como uma curiosidade fascinante, uma boa apresentação da fórmula de sucesso.

A proposta da série é genial porque o protagonista é subestimado por todos os personagens à sua volta, a sua figura não impõe fisicamente respeito, ele não é bonito, não lembra em nada os clássicos detetives durões do cinema Noir e da literatura pulp, parece que acabou de sair trôpego de um botequim, o seu modo de falar também não é especialmente marcante, e, exatamente por este motivo, ele consegue a atenção do criminoso de elite, um ser por definição vaidoso, que se considera acima da lei, ele caminha tranquilo abaixo do radar, sempre questionando, de forma educada, e, quando o alvo crê estar livre do incômodo, ele retorna com uma perguntinha aparentemente despretensiosa, mas que, em sua essência, carrega a chave para a solução do caso.

Ao subverter a expectativa do público, eliminando o elemento do mistério, cada episódio se foca na engenhosidade de Columbo em arruinar gloriosamente cada plano mirabolante destes “deuses” fajutos, expondo ao final as falhas na execução. O espectador, consciente de cada etapa desde o início, acaba se divertindo com o crescente desespero dos criminosos. O homem que eles enxergavam como frágil e patético destrói, sem teatralidade ou ego inflado, as suas ilusões de grandeza.

A questão é que grande parte do segredo do sucesso da série é a personalidade excêntrica e autêntica de seu protagonista, Peter Falk. Nos dias de hoje, com a indústria lotada de fantoches amedrontados com a cretina cultura do “cancelamento”, gente que apenas repete os chavões permitidos pelos seus titereiros, um bando de medíocres memorizadores de falas, sem qualquer sinal de brio em seus espíritos vendidos, aquele cenário jamais se repetiria, não há mais roteiros desta qualidade, não há mais elegância, e, principalmente, não há mais demanda por este tipo de material.

O público se infantilizou sobremaneira, você vê hoje um adulto (em teoria) alfabetizado passar horas boquiaberto acompanhando em seu celular vídeos curtos de traquinagens de felinos, enquanto implora para a ferramenta da inteligência artificial facilitar a compreensão e a interpretação de um simples parágrafo. E não é preciso ser sagaz como Columbo para decifrar o culpado neste caso, a responsabilidade recai sobre os ombros de cada indivíduo que decidiu desistir de raciocinar, que escolheu a apatia existencial, que abandonou os livros e o amor pelo conhecimento, entregando o controle de suas vidas nas mãos de psicopatas assessorados pela imprensa.

Os longos episódios da série seguem eficientes, tempo generoso é dedicado no desenvolvimento de cada trama, você sente nitidamente o respeito pelo material e pela inteligência do público. Os melhores atores e atrizes da época faziam questão de participar, o entretenimento televisivo firmava o pé na batalha com as salas de cinema, todos buscando a excelência, uma era de ouro que precisa ser celebrada.

No intuito de facilitar o seu garimpo cultural, revi os meus episódios favoritos e selecionei aqueles que considero brilhantes. Você encontra todos eles com facilidade na internet. 

T01E01 – Murder by the Book

Quando um membro de uma dupla de escritores de mistério decide se separar de seu parceiro menos talentoso e seguir carreira solo, ele se torna a vítima em um mistério de assassinato da vida real.

T01E04 – Suitable for Framing

Um rico colecionador de arte é assassinado, e tudo indica que se trata de um assalto que deu errado. Mas o álibi do sobrinho é conveniente demais, e Columbo usa de astúcia para desmascarar o assassino.

T02E01 – Étude in Black

Um implacável maestro de orquestra assassina a brilhante pianista com quem mantém um caso. O tenente Columbo fica responsável pelo caso.

T02E06 – A Stitch in Crime

Um cirurgião elabora um plano engenhoso para assassinar seu parceiro em um projeto de pesquisa, mas uma enfermeira paranoica logo descobre seu esquema, então ele a mata. O Tenente Columbo terá dificuldades para desvendar esse mistério.

T02E08 – Double Shock

Um chef de TV afetado e seu irmão gêmeo idêntico, um banqueiro extremamente formal, são suspeitos do assassinato de seu tio rico por eletrocussão.

T03E05 – Publish or Perish

Uma editora contrata um veterano especialista em fabricação de bombas para assassinar um autor de romances policiais de grande sucesso, depois que o autor decide submeter seu último livro a outra editora. O tenente Columbo fica responsável pelo caso.

T04E02 – Negative Reaction

Um fotógrafo elimina a esposa e culpa um sequestro mal sucedido pela morte dela. Mas o Tenente Columbo tem um olhar ainda mais perspicaz que o vencedor do Prêmio Pulitzer.

T05E05 – Now you See Him

Um famoso mágico de palco assassina o empregador que o chantageava, ameaçando revelar seu passado como guarda de um campo de prisioneiros nazista, fazendo parecer um assassinato por encomenda. Columbo precisa enganar o mestre da trapaça para que ele revele a verdade.

T06E03 – The Bye Bye Sky High IQ Murder Case

Um membro da Sociedade Sigma, com um QI elevado, assassina seu sócio e também membro da sociedade quando este ameaça expô-lo como um criminoso, enquanto elabora um álibi aparentemente infalível. O Tenente Columbo consegue desmascarar o gênio.

  • Para finalizar a matéria, selecionei abaixo dois momentos fascinantes na carreira de Peter Falk:

Entrevista de Peter Falk no The Tonight Show, de Johnny Carson (1972):

O discurso de Peter Falk (citado no vídeo acima) na entrega do prêmio por “Columbo” (1972):

Octavio Caruso

Viva você também este sonho...

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