Uma Infância Alemã (Amrum – 2025)
A trama se passa na primavera de 1945, na ilha isolada de Amrum, Alemanha. A obra acompanha Nanning (o estreante Jasper Billerbeck), um garoto de 12 anos que precisa caçar focas, pescar e trabalhar em fazendas para ajudar a sustentar a família nos dias finais da Segunda Guerra Mundial.
Quem acompanha a carreira do diretor turco-alemão Fatih Akin sabe que seu estilo é bruto, ele não facilita para o público, entrega cenas muito fortes, em suma, um cineasta que nos remete à época em que ainda havia adultos psicologicamente maduros nas filas das salas de cinema.
Esta essência já se mostrava presente em seu primeiro longa, “Rápido e Indolor” (1998), depois ele se aventurou em outra seara radicalmente diferente, os simpáticos “Em Julho” (2000) e “Solino” (2002), provando sua versatilidade, até retomar sua verve ácida no excelente “Contra a Parede” (2004). O público brasileiro dos festivais começou a prestar mais atenção em sua obra com a repercussão positiva de “Do Outro Lado” (2007), mas, como o terror foi meu gênero de formação, não posso deixar de destacar o visceral “O Bar Luva Dourada” (2019).
Em seu novo filme, “Uma Infância Alemã”, baseado no livro de memórias do ator e diretor Hark Bohm, o seu amigo e mentor, ele alcança um equilíbrio primoroso, abordando um tema muito difícil. O roteiro nos conduz pelo ponto de vista de um menino de 12 anos, puro e de coração bom, inserido forçosamente no pior contexto possível. Nanning vive em Amrum, uma ilhota no norte da Alemanha, que acaba de ser informada sobre o último ato de Hitler e o fim da guerra.
A sua família é claramente apoiadora fanática do ditador, uma atitude que, naquele recorte temporal específico, já trazia problemas com os outros membros da comunidade. A mãe, vivida por Laura Tonke, que havia acabado de dar à luz, fica tão revoltada com o desfecho do conflito, que entra em depressão e decide parar de se alimentar. O menino sabe que ela gosta muito de pão branco, com manteiga e mel, então corre para tentar alegrar a mulher e salvar a sua vida. Esta tarefa aparentemente simples se torna verdadeiramente hercúlea, já que o povo passa fome. E, além disso, o clima de desconfiança é total, uma realidade que o garoto obviamente não possui capacidade cognitiva para compreender.
O tom da obra remete aos clássicos “A Infância de Ivan” (1962), de Andrei Tarkóvski, e “Alemanha, Ano Zero” (1948), de Roberto Rossellini. A coragem silenciosa da criança, que não faz ideia da dimensão do inferno que vai enfrentar, mas que sabe intuitivamente que não quer herdar a crueldade que a permeia, é captada com sensibilidade na bonita sequência em que, para proteger com sua mãozinha a quantidade mínima de açúcar que conseguiu arduamente com seu tio, ela quase perece por submersão. Um momento que, por seu simbolismo, fica na mente por horas após o final da sessão.
“Uma Infância Alemã” não fará sucesso nos tempos doentios e infantilizados atuais, provavelmente será ignorado nas salas de exibição, mas é o tipo de história que geraria boas discussões na época áurea das locadoras de vídeo.
Cotação:
- O filme estreia nesta semana nas salas de cinema brasileiras.
Trailer: