Seven – Os Sete Crimes Capitais (Seven – 1995)

Um detetive (Morgan Freeman) de homicídios veterano e seu novo parceiro (Brad Pitt) caçam um assassino em série que baseia seus crimes nos sete pecados capitais.

Como é bom rever depois de um longo tempo uma obra e perceber que ela segue impecável, não há um mínimo aspecto problemático em sua estrutura. Na época da estreia, lembro do impacto que o seu desfecho causou, parte da imprensa apedrejou com manchetes alertando sobre violência excessiva, mas o público brasileiro já estava começando a aprender o modus operandi canalha destes profissionais, não deu bola, lotou as salas de exibição.

Quando a fita VHS chegou nas locadoras, o sucesso foi avassalador, o público adulto ainda não havia entrado de cabeça no processo de infantilização que destruiu este país, leia-se, havia gente pensante, com considerável estofo cultural. Eu me recordo de acompanhar discussões filosóficas sobre o roteiro enquanto aguardava na fila de um supermercado. Alguns filmes causavam esta reação, o brasileiro lia as matérias sobre a produção nas revistas de cinema, estudava sobre a carreira do cineasta, um período mágico, os últimos estertores do refinamento cognitivo de uma nação que hoje chafurda na lama.

devotudoaocinema.com.br - "Seven - Os Sete Crimes Capitais", de David Fincher

A ideia para “Seven” nasceu na cabeça do roteirista Andrew Kevin Walker enquanto ele se adaptava ao cotidiano de uma cidade mais violenta, uma Nova York entregue ao crime, com uma população que abusava de substâncias psicotrópicas. Ele enxergou nesta fase deprimente de sua vida as consequências de uma sociedade que abandona seus valores primordiais (inclusive religiosos) na busca do prazer imediatista, uma realidade em que o mal foi banalizado. Na superfície, a trama se assemelhava a de vários projetos do mesmo gênero, mas o ouro estava no simbolismo representado pela dupla protagonista.

O detetive veterano já havia se decidido a desistir de sua função, ele viveu plenamente uma era em que até os bandidos tinham um código de conduta, tudo agora estava contaminado pela dessensibilização. Ele, até no modo de se vestir, resgata o cavalheirismo que se tornou obsoleto, cada gesto sinaliza a consciência de ser o último de sua linhagem, cada silêncio esconde o medo por perceber o conformismo ao redor, esta perigosa apatia que sempre precede a queda.

devotudoaocinema.com.br - "Seven - Os Sete Crimes Capitais", de David Fincher

A namorada (Gwyneth Paltrow) de seu jovem parceiro age como alter ego do roteirista, alguém que sai de um ambiente tranquilo e cai no abismo, lutando para manter sua pureza, com a certeza de que não há chance de vitória. O veterano enxerga nela a esperança que havia perdido, alguém que (literalmente) carrega a semente de um futuro melhor, algo que precisa ser preservado a todo custo para o bem da humanidade.

O seu namorado, avesso aos livros (elemento inteligente na trama), com um temperamento infantil e inconsequente, quer ser reconhecido em sua função (a referência ao policial Frank Serpico é muito esperta nesta sentido), ele é ingênuo o suficiente para acreditar que é possível enfrentar (e vencer) o sistema estando em suas engrenagens, uma postura que será posta à prova quando o vilão é inserido na equação.

O monstruoso John Doe (Kevin Spacey) é o fruto direto desta realidade intensamente doentia, ele se vê como um instrumento divino de punição, alguém que vai forçar a massa a se reconectar com seus valores através da dor, utilizando os pecados capitais. Ele quer uma vida normal, deseja uma esposa, filhos, satisfazer o senso de adequação social, ele quer justificar a sua existência.

A chuva constante e a utilização das sombras na fotografia do francês Darius Khondji transportam imediatamente o público para este inferno dantesco, um cenário de decadência moral altamente estilizado, que traduz o estado mental dos personagens.

Vale destacar como a imprensa é retratada nas cenas, corvos que se alimentam da espetacularização do mal, parte fundamental do problema, um dos elementos que sustentam esta arquitetura macabra.

  • Você encontra o filme em DVD e, claro, garimpando na internet.

Trilha sonora composta por Howard Shore:

Trailer:



Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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