Primavera (2025)
Veneza, século XVIII. Cecília (Tecla Insolia) cresceu entre as paredes do Ospedale della Pietà, o orfanato que também é lar da orquestra mais respeitada do mundo. Violinista extraordinária, ela se apresenta atrás de uma grade para os ricos padroeiros da instituição. Nunca além disso. Até que um novo professor de violino chega e muda tudo. Seu nome é Antonio Vivaldi (Michele Riondino).
Damiano Michieletto faz sua estreia no cinema, após duas décadas encenando as mais belas óperas, evocando a sensibilidade do saudoso Franco Zeffirelli, ainda que os dois, apesar das raízes semelhantes, representem visões artísticas antagônicas.
O segundo primava pela grandiosidade estética, conservando ao máximo a essência da obra, Michieletto já busca uma adaptação moderna, sem apego à fidelidade histórica, mais preocupado com o universo interno dos personagens. É uma postura que divide opiniões, mas considero válida. Assisti na internet ao “Don Quichotte”, de Jules Massenet, realizada em 2024, uma experiência curiosa, definitivamente não é a minha praia, no que tange ópera sou extremamente conservador.

Nunca me esqueço do que senti tempos atrás na desastrosa encenação de “O Barbeiro de Sevilha”, de Rossini, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, quando um dos personagens, durante a execução de uma ária, achou simpático imitar um golpe de luta do videogame Street Fighter 2. Parte do público gargalhou, outra se manteve indiferente, eu abandonei o espetáculo.
O esforço de atualização de Michieletto nos palcos não chega a ser tão vergonhoso, mas proporciona momentos que incomodam bastante (e este é o seu propósito). Como ele se sairia em seu primeiro trabalho cinematográfico? A resposta é, felizmente, muito positiva. Ele acalma inteligentemente seu ímpeto revisionista e entrega, com louvável segurança, uma bonita história.
“Primavera” é a adaptação livre de “Stabat Mater”, escrito pelo dramaturgo e poeta Tiziano Scarpa, em que cria a personagem ficcional Cecília como representação de várias musicistas da época, além da musa real do compositor, Anna Maria della Pietà.
A forte sequência inicial deixa clara a confusão mental da jovem órfã. Ela se identifica com os filhotes de gato que a madre superiora brutalmente afasta da mãe, pobres criaturas que são eliminadas sem piedade (um toque esperto o roteiro, logo após este acontecimento, informar o público o nome da instituição: “Hospital da Piedade”). Neste início corajoso, na substância mais do que na forma, o diretor já sinaliza que se mantém fiel ao seu estilo.
Ao testemunhar escondida nas sombras o fascinante processo criativo de seu novo professor, um Vivaldi no pior momento da vida e que sofria com seu problema respiratório crônico, Cecília admirada enxerga o nível apaixonado de devoção que pode suprir a lacuna materna em sua alma. Ele, mesmo fragilizado e desconfiado, parecia esquecer de tudo ao estabelecer contato sensorial com sua inspiração. Esta força de caráter pode ajudar a jovem a canalizar sua dor em beleza, elevando seu espírito e amadurecendo sua personalidade.
No roteiro, Vivaldi simboliza o sentimentalismo e a pureza da era romântica, um elemento que é confrontado pelo sistema de poder que o resgata do abismo, o filme propõe sutilmente um paralelo com o mundo atual, evidenciando no desfecho em sua analogia uma visão cruelmente realista. Como manter vivo o amor pela arte sublime em um local que abomina e penaliza a paixão?
É um importante alerta direcionado aos mais sensíveis, uma ode ao poder libertário da criatividade, uma obra que infelizmente será ignorada pelo tétrico público brasileiro moderno.
Cotação:
- O filme estreia nesta semana nas salas de cinema brasileiras.
Trailer: