Mirrors No. 3 (Miroirs No. 3 – 2025)
Durante um fim de semana no campo, Laura (Paula Beer), uma estudante de Berlim, sobrevive milagrosamente a um acidente de carro. Fisicamente ilesa, mas profundamente abalada, ela é acolhida por Betty (Barbara Auer), que testemunhou o acidente e cuida dela com carinho. Aos poucos, o marido (Matthias Brandt) e o filho (Enno Trebs) de Betty superam a relutância inicial, e uma tranquilidade quase familiar se instala. Mas logo, eles não conseguem mais ignorar o passado e Laura precisa enfrentar a sua própria vida.
Eu tenho uma relação complicada com o estilo do roteirista/diretor alemão Christian Petzold, boa parte de sua obra me causa a pior sensação ao término da sessão, indiferença, propostas que caberiam perfeitamente (e seriam melhor executadas) em curtas-metragens, como “Em Trânsito” (2018), “A Segurança Interna” (2000) e o projeto anterior, “Afire” (2023). Há notáveis exceções, como é o caso do ótimo “Fênix” (2014) e, felizmente, “Mirrors No.3”, o novo trabalho que estreia nesta semana nas salas de cinema brasileiras.
Laura cruza o caminho de Betty segundos antes de quase perder a vida. As duas estranhas compartilham olhares profundamente tristes. Não sabemos nada sobre as suas vidas, mas imediatamente somos hipnotizados. O jeito como a câmera destaca no enquadramento o senso de solidão, o triste vazio, ativa instantaneamente a empatia, prende a atenção. E, apesar do ritmo ser lento, sereno, você não consegue tirar os olhos da tela.
A jovem é apresentada nas primeiras cenas como deslocada na própria existência, como se já tivesse desistido de nutrir esperança no amanhã. O paralelo que será estabelecido no segundo ato com a filha falecida de Betty é brilhante.
O trágico acidente é inserido então na equação como elemento transformador, o susto necessário para redirecionar positivamente uma rota que se acreditava inatingível. Laura será testada, o caminho do conforto psicológico é representado pela nova realidade que se apresenta na generosidade de Betty, uma lúdica nova identidade, mas, por outro lado, este cenário apenas reduz ainda mais a sua persona, ela se torna a lembrança de outrem, algo que prejudica também a mãe enlutada que oferece abrigo à ilusão.
A sutileza do roteiro ao trabalhar esta situação extremamente difícil, principalmente na forma como escolhe seu desfecho, encanta e faz com que pensemos nos temas abordados por horas após a sessão. É uma experiência emocionalmente madura, evita o caminho fácil da satisfação imediatista do público, uma atitude coerente e elegante.
Não terá sessões lotadas no intelectualmente tétrico e infantilizado Brasil atual, provavelmente ficará pouco tempo em cartaz, mas é cinema de altíssima qualidade, pensado para adultos sensíveis.
Cotação:
- O filme estreia nesta semana nas salas de cinema brasileiras.
Trailer: