terça-feira, 25 de abril de 2017

Cine Bueller - "O Rapto do Menino Dourado", de Michael Ritchie


O Rapto do Menino Dourado (The Golden Child - 1986)
Esse filme, com a dublagem espetacular de Mario Jorge, fez minha infância mais feliz. Em uma época sem internet, a garotada ficava repetindo na sala de aula as frases do filme, como: “Eu quero o punhal”, “Não, nem morto, nojo”, “Só quero umas batatinhas”, “Viva o Nepal”, “Tira essa meleca do casaco antes que ela congele e arranhe você”, “É a continuação de um livro chamado: Tora Doce, sobre toras confeitadas”, “Você viu um anãozinho hare krishna nu por aí, correndo com uma nota de cem dólares? ”, “Me engana que eu gosto” e “Parece um bagulhão, passa a língua e fuma”. E todos entendiam o contexto, porque ele havia sido exibido na “Sessão da Tarde” do dia anterior. Lançado na mesma época que o tematicamente similar “Os Aventureiros do Bairro Proibido”, muitos se referem a ele como um dos primeiros escorregões na carreira de Eddie Murphy, não consigo entender o argumento, considero superior a “Um Tira da Pesada” e “48 Horas” juntos!

O roteiro foi escrito por Dennis Feldman, responsável por um dos melhores filmes adolescentes dos anos oitenta: “Quase Igual aos Outros” (Just One of The Guys), inserindo o tipo urbano malandro de Murphy em um cenário de exótico misticismo, com personagens que poderiam ter saído das aventuras fantásticas de Ray Harryhausen, como a mulher dragão. O equilíbrio perfeito entre humor e ação dá o tom da missão que é dada pela linda Charlotte Lewis ao investigador especializado em localizar crianças perdidas: Salvar o Menino Dourado, a criança que nasce a cada mil anos com o poder de espalhar o bem, ou o mal, pela face da Terra, das mãos do demônio vivido com sobriedade shakespeariana pelo sempre competente Charles Dance. O projeto inicialmente seria protagonizado por Mel Gibson, mas acabou tendo que ser modificado radicalmente com a entrada do comediante que estava em franca ascensão. O diretor Michael Ritchie vinha do sucesso com “Fletch – Assassinato por Encomenda”, veículo para Chevy Chase. É perceptível que ele deu sinal verde para improvisações, o elenco se mostra bastante relaxado, sentimento que é transmitido para o espectador e consegue transformar diálogos, no papel, comuns, em material cômico de alto nível.

Vale destacar o exemplo mais deliciosamente cara de pau de product placement, a cena da latinha dançante de Pepsi, ao som de “Putting on the Ritz”, produzida pelos magos da ILM, de George Lucas, utilizando técnica pioneira que depois seria trabalhada em “Uma Cilada Para Roger Rabbit”. Para a criança brasileira que estava acostumada a ver o Bocão da Royal jogado de qualquer maneira nas cenas dos filmes dos Trapalhões, esse refinamento publicitário era uma lufada de ar fresco. 

sábado, 22 de abril de 2017

"Vida", de Daniel Espinosa


Vida (Life - 2017)
O filme dirigido pelo sueco Daniel Espinosa é um terror sci-fi extremamente competente, infelizmente prejudicado pelo setor de marketing que o vende como uma homenagem ao “Alien” de Ridley Scott. Esse tipo de estratégia causa um problema grave, insere o elemento da expectativa na equação.

É tolice comparar o cenário da indústria hoje com o do final da década de setenta, o ritmo da narrativa do clássico hoje não seria aceito pela garotada imediatista que vai para a sala escura para extravasar as frustrações sociais, falar alto e frequentemente checar mensagens no celular. Se o filme antigo, exatamente como ele é, tivesse sua estreia hoje, seria um fracasso nas bilheterias. É uma triste constatação de como a sociedade culturalmente deu passos largos para trás. A informação hoje precisa ser transmitida com rapidez publicitária, o roteiro apresenta os personagens, insere o conflito e conduz, com muita ação, até o desfecho, essa é a fórmula. E, como crítico e público, aplaudo sempre que vejo um projeto no gênero que ousa se desviar dessa armadilha.

O roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick não cria algo especialmente novo, mas utiliza um modelo desgastado como laboratório criativo, a câmera caótica no início desorienta o espectador, aproveitando a falta de gravidade no ambiente, refletindo o estado psicológico dos astronautas, longe de seus familiares e forçados a um convívio alimentado por sentimentos essencialmente artificiais. Com poucas cenas, não mais que vinte minutos, o companheirismo é estabelecido eficientemente. Ao mostrar eles respondendo questões de crianças no monitor, ou carinhosamente saudando o colega que acaba de conhecer em uma transmissão de vídeo o seu filho recém-nascido, o espectador é levado naturalmente a se importar com aqueles indivíduos, mérito que merece ser salientado. O elenco ajuda nesse sentido, o foco não é a construção de personagens, mas Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Ryan Reynolds, Olga Dihovichnaya e Aryion Bakare são carismáticos o suficiente, ainda que com poucas oportunidades dramáticas.

Quando a ameaça alienígena se faz presente, visualmente inofensiva a princípio, “Vida”, não tendo nenhuma relação com a criação de Ridley Scott, acaba se mostrando mais fiel ao espírito perturbador do primeiro “Alien”, que as sequências oficiais protagonizadas pelo xenomorfo. Outro ponto que merece ser ressaltado é a forma como a trama termina, utilizando um truque que sintetiza a mágica do cinema, a montagem como o ilusionista. 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Woody Allen - "Hannah e Suas Irmãs"

Link para os textos anteriores desse especial que se leva tão a sério quanto o próprio Woody:

"Euclides levantou da cama, admirou a vista da janela, agradeceu à chuva por lavar seu carro, tomou um shot de uísque para despertar seu organismo, desceu a escada em direção à cozinha, percebeu que seu cão havia fugido novamente, discou o número do vizinho, constatou que não havia ninguém em sua casa, piscou duas vezes os olhos para umedecer as vias lacrimais, pensou por um momento em como seria interessante o conceito da Terra plana para quem tem pés chatos, depois levantou a mão direita na direção do rosto e afastou com delicadeza o mosquito que tencionava se alojar em sua pele para sugar..."

O editor não conseguia acreditar naquilo que estava lendo, ele jogou os originais do autor na mesa e pediu para sua secretária entrar em contato com o rapaz imediatamente. A reunião foi marcada para aquela tarde, o destino literário de Ashton Moser estava por um fio.

Ashton Moser, pseudônimo de Cícero Adamantino, entrou no escritório com a segurança de um narcisista em uma sala de espelhos, ele representava o futuro da nação, o jovem que trocou uma carreira promissora na loja de calçados por uma possibilidade de inserir seu nome dentre os imortais das letras. O único obstáculo era sua capacidade impressionante de ser desprovido de qualquer talento na área. Ele se sentou e aguardou os elogios.

- O seu herói se chama Euclides? – O editor tentou iniciar no amor.

- Exatamente. Um espião à serviço secreto de sua majestade...

- O sabiá? – O corte debochado do seu superior perceptivelmente não o agradou.

- Como? Não estou entendendo.

O editor se levantou, contendo seu impulso de esmurrar o nobre mentecapto, trabalhando cada palavra com a leveza de um boxeador.

- É pedir demais que você se atenha ao cenário nacional? O seu texto é chato porque você quer passar uma imagem de algo que não conhece, nem sequer estuda o tema. Você é tipo aquele diretor de cinema metido a culto que filma uma árvore ao contrário por cinco minutos e chama isso de arte. Eu não vou te enrolar, o seu texto é insuportável!

- Eu já te contei do meu outro projeto engavetado? – A animação do autor surpreendeu o editor.

- Você escutou uma palavra do que eu disse?

O jovem se levantou também, aquele feedback negativo não parecia ter abalado sua confiança.

- Olha, imagine isso, uma história que vai agarrar o público pelo bolso...

- Diga, Cícero, não me faça sofrer por antecipação.

- Uma mulher, dois homens, um corretor de imóveis...

- Ok, já escutei o suficiente. Chega! Leve seus originais e, por favor, pense no que eu te disse. Você precisa se alimentar, está magro demais, precisa tomar um sol, sair um pouco e se divertir.

- Eu tentei começar um treino na academia de ginástica.

- É isso! Esse é o caminho. Não está treinando?

- Eles exigiram um exame físico, eu disse que já havia passado por uma bateria de exames médicos de vídeos de ASMR, a personal trainer não aceitou...

O editor, prezando por sua sanidade, abriu a porta do escritório e esperou o rapaz abandonar o local. Aquele era o fim da promissora carreira literária de Ashton Moser, o mito nacional, a lenda.


Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters – 1986)
A filha mais velha de um casal de artistas, Hannah (Mia Farrow) é uma dedicada esposa, mãe carinhosa e atriz de sucesso. Uma leal defensora de suas duas confusas irmãs: Lee (Barbara Hershey) e Holly (Diane Keaton), ela é também a espinha dorsal de uma família que parece se ressentir de sua estabilidade quase tanto quanto dependem da mesma.


Inspirado em "Fanny e Alexander", de seu ídolo Ingmar Bergman, Allen trabalha a evolução de um núcleo familiar através de três celebrações anuais, pela ótica do leitmotiv defendido em cena: "O coração é um músculo muito, muito elástico". Na cena mais bela do filme, ele captura aquela que considero a melhor explicação para a vida. Seu personagem acreditava estar prestes a morrer, entristecido também pela impossibilidade de sua esposa engravidar, sem paixão com relação ao futuro, então ele caminha pela cidade sem rumo por algumas horas, guiado apenas pela centelha de esperança que se recusa a ceder perante a doença fatal que acredita ter. Ele chegou a apontar o cano de um rifle para a própria cabeça, acreditando não haver motivação alguma em sua existência. Nada parecia fazer sentido, até que ele entra numa sala de cinema e, mesmo naufragando em um oceano de depressão, ele se surpreende sorrindo com uma comédia dos Irmãos Marx.

O personagem conclui que, mesmo a vida sendo um passeio numa montanha-russa de mais baixos que altos, aqueles breves momentos de conforto e alegria valem o preço do ingresso. E o elemento desconhecido inerente a todos nós, que o perseguia com tantos questionamentos, nunca seria plenamente revelado, independentemente do quão insistentemente perguntasse. Ele então relaxa na poltrona, com todos os seus conflitos internos sucumbindo ao peso daquele leve entretenimento, e se permitiu o prazer da diversão. O ânimo adquirido naquela sessão motivou seu espírito a enfrentar mais um dia. E, um ano depois, envolvido em uma relação muito mais feliz com outra mulher, num ato inesperado do destino, ele se emociona por ter realizado o sonho de ser pai.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Como Hollywood trabalha a figura de Jesus


Quando o cinema aborda temas religiosos, dificilmente faz de forma original. Há basicamente duas maneiras de se tocar no assunto, com exagerada reverência, ou correndo os riscos de se abraçar a contestação crítica. Não existe o meio termo. Algumas das melhores obras que a sétima arte nos legou no passado tocam exatamente nestes temas. Produções grandiosas como “A Bíblia” (1966), do lendário John Huston, prestam-se a forçar no didatismo, deixando de lado a fluência de um ritmo mais cinematograficamente sedutor, favorecendo a retratação simples de várias passagens do livro sagrado católico. A longa duração não ajuda a tornar a experiência mais agradável, criando um enfadonho e nada orgânico retrato dos textos milenares. Problema parecido sofre o pomposo “A Maior História de Todos os Tempos” (1965), de George Stevens, com Max von Sydow interpretando um Jesus um tanto quanto apático e pouco marcante. De qualquer modo, a culpa não pode recair no ator, mas no roteiro truncado e, para piorar, na direção megalomaníaca (a várias mãos) e perceptivelmente desorientada. No cinema mudo, o diretor francês Carl Theodor Dreyer eternizou a imagem de Renée Falconetti como uma sofrida Joana D’Arc no ótimo “A Paixão de Joana D’Arc” (1928). Algo raro, mesmo o filme sendo contrário à igreja católica, conseguiu entrar na seleta lista dos indicados pelo Vaticano.


Existem filmes de menor apuro técnico com o intuito central, não menos importante neste gênero, de doutrinar o público. Essas produções podem ser encontradas aos montes nas seções religiosas das locadoras, estampando por vezes em suas capas artistas renomados. Estas obras não possuem méritos que as tornem referências. Honestamente, eu prefiro aquelas incursões de diretores autorais e com roteiros audaciosos, como “A Última Tentação de Cristo” (1988), de Martin Scorsese. O filme nos propõe uma instigante releitura da vida de Cristo que evita as suas virtudes divinas e dedica generosa atenção às suas inconfessáveis fraquezas humanas. Considerado pela igreja católica como algo abrasivo e herético, acabou sendo proibido em diversos países. Baseado no ótimo livro de Nikos Kazantzakis, o roteiro se foca no conflito interior entre o messias predestinado por Deus ao derradeiro sacrifício e o homem comum, que ambiciona constituir família e desfrutar de uma vida pacífica em pleno e confortável anonimato. Em sua ânsia de proteger o legado de Cristo (e, claro, seus próprios interesses), a igreja deixou de perceber o quanto o filme é essencialmente cristão. Scorsese apenas mostra durante as quase três horas de duração uma alucinação de Jesus já na cruz, garantindo que, ao final, ele esteja consciente de que seu suplício final era necessário. Não existe nada de herético em se apresentar uma segunda versão, ainda mais quando ela não tem pretensão alguma de ser vista como a oficial. Afinal, se nós somos criações à imagem e semelhança de “Deus”, porque ele se furtaria a refletir o que temos de mais humano, a nossa própria natureza cheia de conflitos? Esta releitura de Scorsese e Kazantzakis, junto ao roteirista Paul Schrader, mostra-se muito mais interessante que a concepção tradicionalmente acatada, tão destituída de humanidade.


O diretor húngaro Ladislao Vajda filmou em 1955 o terno e sensível “Marcelino Pão e Vinho”, que trazia como protagonista o jovem e carismático Pablito Calvo. A obra cativou públicos de todas as idades com a história de um menino órfão que é deixado em um mosteiro. Solitário e ingênuo, o pequeno acaba fazendo amizade com uma enorme estátua do Cristo crucificado, com a qual conversa. É encantadora a forma como a trama trabalha a pureza da criança. O meu filme favorito do gênero, o responsável por minha paixão pelo cinema, como já citei em textos anteriores, não aborda centralmente Jesus, mas acredito que é o que melhor se utiliza de sua figura: “Ben-Hur” (1959), de William Wyler, com Charlton Heston no elenco. No épico embate entre o judeu vivido por Heston e seu inimigo romano, vivido por Stephen Boyd, na clássica corrida de quadrigas, existe uma motivação muito bem construída. Judah Ben-Hur outrora havia sido um príncipe. Ele perdeu tudo após ser traído por seu amigo de infância: Messala, que cresceu e se tornou um centurião romano ambicioso e arrogante. Após uma infeliz tragédia, o príncipe vê sua vida destruída ao ser levado para as galés. 


O roteiro deixa claro que a cada virada de seu remo, o ódio e o desejo de vingança crescia nele, junto à angústia de não saber o paradeiro de sua mãe e irmã, abandonadas no vale dos leprosos. Na obra literária de Lew Wallace e na versão muda de 1925, o personagem de Jesus e o contexto bíblico são muito presentes, quase que dividindo a obra em duas partes distintas. Na celebrada refilmagem, Cristo se mostra menos presente visualmente, mas seus atos ecoam ao longo de toda projeção. Ele ensina ao jovem revoltado que o caminho da espada nunca é solução, o ódio só alimenta o ódio, a maior rebeldia em um mundo corrupto é se manter íntegro. Outro grande acerto dos produtores foi não mostrar seu rosto, fazendo com que sua presença fosse notada pelo uso magistral da impressionante trilha sonora de Miklos Rozsa. Wyler não quis fazer sermão para ninguém, apenas contar uma bela história que poderia ter como pano de fundo qualquer período histórico. Acredito que este filme transcende qualquer tipo de limitação filosófica, religiosa ou cultural.

Mesmo um ateu pode perceber que a história de Jesus tem todos os elementos de um grande herói mítico, com a glória, queda e a redenção ao final. Mel Gibson conseguiu transpor a sua visão da queda de maneira excruciante no ótimo “A Paixão de Cristo” (2004). Poucas cenas são tão emocionantes quanto uma desesperada Maria indo socorrer seu filho caído no chão, após não ter suportado o peso da cruz. A beleza da edição, que intercala o momento trágico com um flashback da mãe e do filho ainda criança, aliado a uma linda trilha sonora de John Debney, já valem a experiência difícil de assistir o sofrimento que o diretor intencionalmente nos mostra ao longo da projeção. Uma obra completamente antagônica à visão de Gibson é “Rei dos Reis” (1961), do mestre Nicholas Ray. Aproveitando o sucesso que os épicos religiosos estavam fazendo na época, com filmes como “Os Dez Mandamentos”, “Quo Vadis” e “O Manto Sagrado”, Hollywood decidiu dar uma face ao personagem central do catolicismo. Escolheram para esta missão o jovem Jeffrey Hunter, que possuía fama de bom moço e nunca havia se envolvido em nenhum escândalo que abalasse sua persona pública. O filme, narrado por Orson Welles, reconta de forma bastante didática e poética os eventos descritos no Novo Testamento. Com a ajuda da imponente trilha de Miklos Rozsa são apresentadas cenas de incrível beleza estética, que acabaram tornando-se referências no gênero. Passagens como o sermão da montanha exalam refinamento e emocionam sobremaneira. É, sem dúvida alguma, a versão cinematográfica de Jesus mais elegante já realizada. 


Já o italiano Franco Zefirelli exagerou no didatismo em seu monumental “Jesus de Nazaré” (1977), esquecendo que estava criando um produto para todos os tipos de público, não uma exibição de slides para uma palestra católica. Rico em informações, mas estruturalmente fraco e com esparsos momentos de genuína emoção. O grupo inglês Monty Python, com sua genial verve cômica, nos convida a ver a história do messias por outro ângulo em seu precioso “A Vida de Brian” (1979). Caso assistido em sessão dupla com outra obra prima do grupo: “O Sentido da Vida” (1983), mostra-se uma experiência que abre mentes e amplia conceitos enquanto diverte. Um bom exemplo de crítica eficiente ocorre no segundo filme citado, um pai católico explica à sua extensa prole que terá que doar as crianças para experiências científicas, já que o Vaticano proíbe os métodos anticoncepcionais e ele está financeiramente quebrado. A cena é conduzida como um grande musical, com direito a freiras dançarinas e um refrão que defende: “Caso um esperma seja jogado fora, Deus ficará muito irado”.

O cinéfilo pode escolher sua versão favorita: O Jesus humano e questionador (logo, combatido pela igreja católica) de Scorsese e seu polêmico “A Última Tentação de Cristo”, o Jesus puramente simbólico e inocente que ajuda Pablito Calvo no clássico “Marcelino, Pão e Vinho”, o Jesus didático de Zeffirelli em seu gigantesco “Jesus de Nazaré”, o Jesus poético, loiro e de olhos azuis de “Rei dos Reis”, o Jesus transgressor e musical de “Jesus Cristo Superstar”, entre muitos outros. O cinema une a todos e nos faz discutir ideias e subverter conceitos. Seria louvável se as organizações religiosas criadas pela ganância do homem também fossem assim.

"12 Homens e Uma Sentença", de Sidney Lumet


12 Homens e Uma Sentença (12 Angry Men - 1957)
É possível escutar os tambores de guerra no horizonte, vivemos tempos sombrios, líderes políticos promovendo ódio, segregação cruel, valores invertidos em todos os níveis da sociedade, medo e dor, angústia e fome, o mundo parece estar nas mãos de loucos e psicopatas, o apedrejamento nunca foi tão incentivado nas redes sociais, justiceiros virtuais que compartilham notícias falsas e são facilmente manipulados, aderindo a modismos imediatistas, frases repetidas pelo prazer de se sentir parte da manada, gostos moldados servindo aos interesses dos titereiros, vivemos a era da informação ao alcance de todos, mas grande maioria do povo perdeu o elemento fundamental do interesse.

Um adulto alfabetizado que enxerga alguma verdade na estratégia torpe de um programa televisivo que melhora seus pontos de audiência com uma polêmica grosseiramente engendrada. Um jovem alfabetizado que aplaude fervorosamente um político estúpido defensor do clássico “direitos humanos para humanos direitos”. Figuras que respiram, comem, caminham e falam, mas não passam de zumbis em estado vegetativo, intelectualmente vazios. O mundo precisa urgentemente de pessoas como Davis, o personagem vivido por Henry Fonda.

O roteiro gira em torno do julgamento de um jovem porto-riquenho que é acusado de ter matado o próprio pai. Doze jurados são convocados para decidir a sentença. Onze deles, movidos por razões egoístas e por puro preconceito, votam sem pensar duas vezes pela condenação. O jurado número oito (Fonda) é um homem de caráter íntegro, ele acredita que o jovem deve ser considerado inocente até que se prove o contrário. Os seus colegas se revoltam com essa atitude, a pequena sala de júri é abafada, o calor intensifica os ânimos. Não há qualquer senso de empatia deles pelo rapaz, uma vida dispensável, o estranho responsável por aquela tarde perdida. A voz dissonante é a mais baixa na mesa, o homem introvertido, elegante, de poucos gestos, o rebelde que pede apenas para que seus pares argumentem, dedicando tempo ao caso, atenção sincera, em suma, um clamor por humanidade.

O senso comum forja verdades frágeis, convicções são alimentadas por sentimentos pequenos, a memória é capaz de criar situações impossíveis, as provas teoricamente inabaláveis podem ser aniquiladas caso analisadas por outro ponto de vista, o ser humano enxerga aquilo que quer ver, projetando no outro as suas frustrações e desejos mais íntimos. O brilhante diretor Sidney Lumet, trabalhando o roteiro de Reginald Rose, reduz ao máximo o espaço cênico, a trama se passa quase que inteiramente nesse único local, uma decisão muito acertada. O suspense é estruturado nos diálogos, no embate franco de ideias. A solução se dá a partir do questionamento, recurso cada vez mais raro em nossa sociedade.

É fundamental que os seres humanos despertem desse coma existencial, não é possível que essa tragédia anunciada não possa ser evitada. A minha esperança reside naquele indivíduo que, contra todas as probabilidades, levanta a mão e pede a palavra, ousando confrontar o pensamento medíocre dominante.