sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Ciclo da Comédia Nacional Clássica - "Pistoleiro Bossa Nova"


Pistoleiro Bossa Nova (1959)
Nesta produção da Herbert Richers que brinca com o gênero faroeste e aproveita a onda da Bossa Nova que estava despertando, um vilarejo chamado ironicamente de “Desespero” é atormentado por bandidos. Neste clima hostil, chegam à cidade dois camelôs, vividos por Ankito e Grande Otelo. Um deles, sósia de um temido pistoleiro, assume o papel do justiceiro, apesar de ser medroso contumaz e  avesso à sons altos. Eles fazem amizade com um grupo teatral mambembe liderado pela encantadora vedete vivida por Renata Fronzi, que logo desperta ciúmes na hilária cangaceira Pequenina (Anabela), namorada do verdadeiro pistoleiro, que ilumina a tela com sua presença. Tente não rir com o método dela para espantar pessoas desconhecidas de seu quarto. A sequência é um dos pontos altos da chanchada nacional.

Ankito tinha algo de Stan Laurel, pureza e ternura no olhar, misturados à capacidade acrobática circense que remetia ao Buster Keaton, característica que seria perdida no projeto seguinte, quando o ator se machucou seriamente ao cair de um prédio em construção, tragédia que prejudicou sua carreira. Não é meu cômico nacional favorito, mas ele alcança equilíbrio perfeito em parceria com Grande Otelo, que vive o tipo malandro de fala rápida, contraste que humaniza a dupla. O roteiro garante bons momentos, especialmente no primeiro ato. Gosto bastante do início no trem, ao som de Carlos Lyra cantando a sua linda composição "Maria Ninguém", que seria lançada por João Gilberto no mesmo ano em seu clássico disco de estreia: "Chega de Saudade". 

"Pistoleiro Bossa Nova" é comédia de alta qualidade, infelizmente esquecida por seu próprio povo. 

"Corpo e Alma", de Ildikó Enyedi


Corpo e Alma (Teströl és Lélekröl - 2017)
A roteirista/diretora húngara Ildikó Enyedi retorna após um longo inverno com um trabalho essencialmente simples e poderoso. As fortes cenas iniciais no abatedouro remetem à crueza do clássico curta “Le Sang des Bêtes”, de Georges Franju, que também utilizava a violência animal como metáfora para falhas humanas. 

O leitmotiv da obra é sintetizado na breve sequência em que o chefe (Géza Morcsányi) conversa com o novo empregado sobre o impacto psicológico daquele ofício na rotina dele. O rapaz diz que não sente pena dos animais, resposta que incomoda seu interlocutor. O problema não está na decisão individual de comer carne ou ser vegano, mas no absurdo de não se perturbar minimamente com o ato de abater o animal para suprir sua fome. Conceito mais complexo do que pode parecer à primeira vista, algo que ressoa em vários momentos da trama. O garçom que não percebe o chamado insistente dos clientes na mesa, os únicos no local, por estar com os olhos baixos, focado na tela de seu smartphone. O roteiro evidencia a ternura no olhar dos animais, os cervos do sonho compartilhado, o gado sacrificado e os protagonistas, a fragilidade de vítimas que instintivamente reconhecem a aproximação da finitude e, por conseguinte, aprendem a lidar com o medo. A ideia da conexão pelo sonho agrega camada de fábula, motivo surreal que reforça a compreensão de uma sociedade que prima cada vez mais pela incomunicabilidade.

A chegada da inspetora de qualidade Mária (Alexandra Borbély), uma jovem excessivamente introvertida, faz com que os olhares dos colegas se voltem para seus movimentos controlados, a cabeça baixa, uma beleza que parece buscar desesperadamente ser comum. O chefe é um dos que ficam estranhamente fascinados por aquela figura. Como ele mesmo afirma, vive uma fase em que já desistiu de amar, provavelmente abalado após ter seu braço paralisado, o cotidiano desumanizante de sangue e vísceras reflete o torpor em seu rosto sofrido que parece esculpido a cinzel. Ele teme que o toque feminino venha por pena, mas ela simplesmente teme o toque, seja qual for a intenção de quem o faça, duas almas alquebradas que já desistiram de tudo. As tentativas de ambos se adequarem aos padrões de relacionamentos fracassam miseravelmente, escutar canções de amor mercadologicamente construídas para o sucesso nas rádios não funciona, a vulnerabilidade deles não suporta mentiras confortáveis, rituais sem significado genuíno, os dois aguardam amedrontados no abatedouro como os outros animais, passivos, contando os minutos. 

A paz da floresta nevada onírica representa a fuga da realidade, a existência sem regras e cobranças sociais, a resposta está no ato de encarar a verdade e enfrentar o medo. Ao superarem este obstáculo no terceiro ato, a vitória está nos olhos que se encontram com cumplicidade passional, na mão que ampara carinhosamente a fragilidade do outro. Quando eles vencem o medo, o sonho perde razão de existir. 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Ciclo da Comédia Nacional Clássica - "Mulheres à Vista"


Mulheres à Vista (1959)

“O negócio é perguntar pela Maria.” – Estratégia infalível do protagonista para iniciar conversa com belas mulheres.

O malandro João Flores (Zé Trindade) tenta seduzir uma viúva rica (Estelita Bell) querendo que ela patrocine o show de um grupo de artistas abandonados por um empresário desonesto. Esta chanchada da Herbert Richers, com argumento de Chico Anysio e Zé Trindade, e direção do sempre competente croata J.B. Tanko, registra o melhor momento do poeta baiano no cinema, quase sempre eclipsado por seus colegas nas páginas da História, um tipo caricato que poderia ter saído dos traços de um gibi, encantador, esperto e mulherengo, ele resolve tudo na lábia. Auxiliado por Grande Otelo e Consuelo Leandro, ele alcança o equilíbrio perfeito que faz de seu vigarista do bem uma presença inesquecível. Sem dinheiro, mas cheio de sonhos, ele coloca em prática um plano que sintetiza o instinto de todo empreendedor artístico nacional independente, mover montanhas e fazer qualquer negócio para conseguir realizar seu objetivo, o retrato fiel do amadorismo apaixonado da indústria na época. 

Dentre as várias sequências musicais, destaco a simpática canção-título interpretada por Grande Otelo, com boa trucagem visual, além da presença do grande Nelson Gonçalves, cantando a bela "Arco-Íris". Há um momento breve e muito interessante que ressalta a criatividade do diretor, a cena que envolve uma transição temporal com o auxílio de um quadro na parede, mostrando um peixe no prato. E vale destacar também a composição visual da personagem da governanta sisuda, um óbvio deboche com a figura da Sra. Danvers (Judith Anderson), de “Rebecca – A Mulher Inesquecível”, de Hitchcock. 

“Caiu na risada, considero castigada.” – Zé, analisando a eficiência da cantada.

Ao ser obrigado no final a desempenhar vários papéis na orquestra do teatro, Zé faz com que o espectador gargalhe da precariedade de sua produção, a realidade de todos os profissionais que lutavam no cinema nacional com garra tremenda e que conseguiam entregar seus filmes contra todas as probabilidades, um exercício de metalinguagem atípico e que engrandece a obra. 

"Roda Gigante", de Woody Allen


Roda Gigante (Wonder Wheel - 2017)
(O texto revela informações sobre a trama, spoilers, então recomendo que seja lido após a sessão)

É revigorante ver um diretor tão prolífico criativamente buscar uma nova abordagem aos 83 anos de idade, sem perder sua identidade, exibindo total controle narrativo em sua elegante sintonia com o diretor de fotografia italiano Vittorio Storaro, que capta com precisão as cores vibrantes e antinaturais que remetem conscientemente ao Technicolor, emoldurando o cenário da Coney Island da década de cinquenta com a aura de terna e gloriosa melancolia dos melodramas clássicos de Douglas Sirk. Se o estilo despojado de Allen é representado pela forma como o personagem de Justin Timberlake conversa com o público, não há outros pontos de fácil identificação, a trama não se parece com nada que o cineasta tenha realizado em sua longa carreira, algo que pode causar estranheza no primeiro contato. Boa parte da crítica norte-americana, intensamente preguiçosa, parece ter se incomodado com o fato de não conseguir desta vez reduzir o diretor ao estereótipo que eles criaram, cometendo o equívoco banal de apedrejar a obra por não satisfazer seus desejos, o clássico “não é o filme que eu queria, ou pensei que seria”.

A trama de “Roda Gigante” é depressiva, existencialmente apocalíptica, com ecos perturbadores autobiográficos que revelam o estado de espírito de Allen. A nostalgia do mundo de sua infância dá o tom, conforto necessário para enfrentar a crueldade do mundo adulto. Kate Winslet vive Ginny, uma mulher casada com experiência como atriz e que se apaixona pelo jovem Mickey (Timberlake), um salva-vidas que se dedica à literatura e ao teatro, que acaba se interessando também pela enteada dela, Carolina (Juno Temple), provocando na primeira um processo destrutivo e inconsequente que culmina no ato extremo de facilitar o assassinato da jovem. O rapaz afirma no início para o espectador: “Como poeta, eu uso símbolos e, como um dramaturgo em germinação, adoro melodrama e personagens maiores do que a vida.”

Voltando à realidade, Allen se apaixonou pela enteada de sua esposa Mia Farrow, Soon-Yi, que tinha 22 anos à época, relacionamento que segue forte ainda hoje, um caso que movimentou as manchetes sensacionalistas e que fez com que a mulher traída decidisse se vingar assassinando a reputação do ex-marido, inserindo na amarga equação acusações doentias e claramente mentirosas de abuso sexual infantil (não existe pedófilo de um caso só). Apesar de um dos filhos corajosamente se posicionar publicamente sobre o abuso psicológico da mãe no passado, defendendo que ela fez “lavagem cerebral” nos pequenos, boa parte do público (que sequer estudou a fundo o caso) ainda liga o nome do cineasta ao escândalo midiático.

Ginny percebe ao final que não há redenção para sua atitude, temos que ser responsáveis por tudo o que fazemos, não há vitória em sua vingança, o seu impulso somente trouxe mais dor. O jovem segue sua vida longe dela, o filho adolescente piromaníaco parece sentir cada vez mais prazer no calor das chamas, o marido (atuação inspirada de Jim Belushi) continua insensível, bêbado e bronco. O filme termina abraçando o patético rosto da mulher, banhada pela luz azulada que representa morte em vida, espécie de evolução do conceito trabalhado em “Blue Jasmine”, perdida em suas ilusões e destruída pela culpa que jamais irá revelar.

“Roda Gigante”, mais que um simples filme em sua carreira, é a elegante resposta de Allen no crepúsculo de sua vida. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ciclo da Comédia Nacional Clássica - "A Baronesa Transviada"


A Baronesa Transviada (1957)
Eu escutava quando criança o LP “Dercy Espetacular – Um Banho de Risos”, passava mal de tanto rir, felizmente meus pais nunca tiveram frescura e não levaram em consideração a advertência que vinha na capa: “Proibida a execução a menores de 21 anos”. Eu cresci respeitando a obra desta inesquecível artista brasileira, mas só fui conhecer seus trabalhos no cinema já na época da faculdade. E considero “A Baronesa Transviada” o seu melhor momento na tela grande. 

"Achei! Touca pra criança de duas cabeças.” – Edayr Badaró, ao encontrar o sutiã da baronesa no quarto dela.

Baseado em argumento de Chico Anysio, esta produção da Cinedistri escrita e dirigida pelo sempre competente Watson Macedo conta a história da simplória manicure Gonçalina (Dercy), que tem uma pinta nas costas que prova ser ela a mais legítima filha de uma baronesa moribunda. Assim que herda a fortuna, ela precisa lutar contra o restante da família que também quer o dinheiro. Dercy era bilheteira de cinema, amava a sétima arte, gostava de imitar Theda Bara, Pola Negri, a sua personagem reflete este amor. Quando ela descobre que herdou a herança, o primeiro desejo é produzir um filme.

“Ela já tá fritando o bolinho pra viajar” – Maneira hilária como Grande Otelo informa ao telefone o estado de saúde da baronesa.

Nem tudo funciona, o roteiro não envelheceu muito bem, algumas piadas são racistas (compreensível no contexto da época), outras são simplesmente fracas, os segmentos musicais são simpáticos, mas quebram o ritmo. Algumas cenas insinuam maior ousadia ao satirizar a própria indústria cinematográfica, como na apresentação final de Dercy representando a antítese da elegância dos grandes musicais norte-americanos, ou o momento em que ela é carregada para fora da sala de seleção de elenco, esperneando e berrando: "É por isso que o cinema nacional não vai pra frente!".