terça-feira, 22 de agosto de 2017

TOP - 25 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos


O cinema brasileiro é rico em temas, o problema é que muitos diretores não conseguem fazer seu trabalho ser comercialmente disponível, poucos conseguem atravessar o funil e ir além dos festivais de cinema. Há uma massa de intelectuais brasileiros que desprezam o cinema de gênero, professores de faculdades de cinema estimulam em seus alunos esta atitude errada. Uma nova geração de críticos, da qual faço parte, está lutando diariamente para mudar esta triste realidade em longo prazo.

Alguns destes filmes que eu selecionei nem sequer são lembrados por estes profissionais veteranos, mas demonstram a versatilidade, coragem e bom humor destes artistas que geralmente trabalham com orçamento muito baixo. Da era silenciosa aos tempos modernos, todos os gêneros, drama, romance, suspense, comédia, horror, documentário, filmes infantis e intensos filmes de ação. Aqui estão os 25 melhores filmes brasileiros:

25 – Os Saltimbancos Trapalhões (1981)
"Os Trapalhões" eram um grande sucesso no Brasil, um grupo de comédia amado por crianças e adultos, mas nunca fizeram algo tão ousado quanto este filme. Adotando a estrutura de um musical infantil (músicas escritas por Sergio Bardotti e Luis Enríquez Bacalov, adaptado ao português por Chico Buarque), vale a pena enfatizar o roteiro ousado, a bela mensagem dos pobres artistas de circo unidos como uma oposição corajosa aos atos ultrajantes de um ditador, um elemento que engrandece o resultado com um excitante simbolismo.

24 – Noite Vazia (1964)
Walter Hugo Khouri, inspirado por Antonioni e os jovens cineastas franceses da Nouvelle Vague, lida com a angústia de quem, em teoria, não teria motivos para sofrer, os problemas existenciais da burguesia. Os personagens são hipócritas incapazes de exercer o esforço necessário para escaparem da inércia, o confinamento no apartamento simboliza o medo de enfrentar o mundo.

23 – Assalto ao Trem Pagador (1962)
Com base em um caso real que aconteceu no Rio de Janeiro, quando uma gangue atacou o trem pagador da Central do Brasil, Roberto Farias consegue criar um ótimo filme de assalto com muito pouco orçamento, pressionando o dedo sobre a ferida da sociedade preconceituosa e racista da época. O elenco brilhante, com destaque para Eliezer Gomes, Grande Otelo e Reginaldo Faria, ajuda a elevar ainda mais a qualidade do filme.

22 – O Caso dos Irmãos Naves (1967)
O filme de Luís Sérgio Person, corajosamente nos anos da ditadura militar, conta a verdadeira história de prisão, tortura e morte de Joaquim e Sebastião Naves, injustamente acusados ​​de um crime. Presos e torturados, os irmãos são obrigados a confessar um crime que não cometeram. Um dos casos mais emblemáticos de erro judicial no Brasil.

21 – O Bandido da Luz Vermelha (1968)
Rogério Sganzerla, com muito pouco orçamento, experimentou (e subverteu loucamente) com as convenções do thriller de Hollywood. Fugindo da lógica populista dominante no Cinema Novo, não há heroísmo na pobreza, não há esperança, apenas a devastação direcionada a tudo e a todos.

20 – O Gato de Madame (1957)
Amácio Mazzaropi foi um dos maiores nomes do cinema brasileiro, profundamente amado pelas pessoas, apesar de ser humilhado na vida por críticos profissionais que desprezaram seu trabalho. Ele lutou para estabelecer uma indústria cinematográfica autossustentável no país. Neste projeto, dirigido por Agostinho Martins Pereira, ele foi favorecido por um roteiro corajoso que extraiu o humor ácido das críticas sociais, zombando de praticamente todos os conceitos estabelecidos, principalmente sobre políticos e a utopia socialista, com citações como: "Democracia é como uma melancia, verde de esperança por fora, mas vermelha por dentro, queimando com o desejo de mandar em tudo."

19 – Abril Despedaçado (2001)
Walter Salles tornou-se conhecido no mercado exterior com "Central do Brasil", mas foi com o projeto seguinte que conseguiu o equilíbrio sensorial perfeito. Inspirado pelo livro do albanês Ismail Kadaré, adaptado ao cenário do nordeste brasileiro, o roteiro é um conto de vingança entre duas famílias, mas não se concentra na violência, o interesse é no desenvolvimento de personagens expostos aos níveis mais profundos da miséria humana.

18 – Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro (2010)
O primeiro filme explodia na cara do espectador como uma espingarda, o segundo é como um tiro de bala dumdum, penetra no corpo e causa maiores danos internos. A reflexão crítica que o roteiro de José Padilha propõe é o elemento que o torna um produto superior no gênero ação, o inimigo não é apenas o criminoso violento nas ruas, mas também o sistema político podre que governa a sociedade em que a violência está inserida.

17 – Lavoura Arcaica (2001)
A fidelidade ideológica de Luiz Fernando de Carvalho às páginas do livro de Raduan Nassar pode ser percebida inicialmente na preocupação do diretor por uma construção detalhada, desde o uso do texto original, através das ideias inteligentes no figurino de Beth Filipecki, até a elegância funcional do Gordon Willis brasileiro: Walter Carvalho.

16 – Pixote - A Lei do Mais Fraco (1981)
A realidade cruel das ruas é evidenciada pelo diretor Hector Babenco, em seu melhor trabalho, abordando a perda de inocência em crianças expostas a um mundo de crime e prostituição. O pequeno Pixote é enviado a um reformatório, mas descobre que o sistema está corrompido, e que talvez ele estivesse mais seguro longe das garras da lei.

15 – Ganga Bruta (1933)
Iniciado em 1931, este filme mudo dirigido por Humberto Mauro sofreu consideráveis ​​atrasos. O produtor Adhemar Gonzaga sonhou em filmar o projeto na Amazônia, que acabou por não acontecer, com problemas de dinheiro. Ainda assim, a produção simbolizava uma maturidade profissional do cinema brasileiro, com cenas internas capturadas por quatro câmeras, algo usual em Hollywood na época, mas novidade para a indústria cinematográfica brasileira.

14 – Viagem ao Fim do Mundo (1968)
Com forte inspiração nas obras da filósofa francesa Simone Weil, simbolizada no monólogo existencialista de uma freira sobre a hipocrisia da religião, especialmente como uma ferramenta política, um ponto extremamente atual em uma sociedade em que um candidato que se declara ateu não vence a eleição, o filme do diretor Fernando Coni Campos, embora seja parte do movimento Cinema Novo, pode ser visto como uma antítese da celebração da rebelião sofisticada nas obras de Glauber Rocha, já que seu experimentalismo visual não parece buscar inspiração na melancolia poética do neorrealismo italiano.

13 – O Lobo Atrás da Porta (2013)
O roteiro do diretor Fernando Coimbra, que estreia de forma promissora com a coragem de um veterano como Michael Haneke, se atreve a seguir o caminho do gênero de suspense com personalidade, ajudado pelas ótimas atuações de Leandra Leal e Milhem Cortaz.

12 – Terra em Transe (1967)
Glauber Rocha disse que estava tentando fazer algo que fundisse o cinema intelectual que foi feito na Europa (o surgimento da Nouvelle Vague), com Hollywood. Misturando John Ford e Eisenstein. Em "Terra em Transe", ele conseguiu criar sua obra-prima, aproximando-se mais eficientemente de seus desejos artísticos.

11 – Casa de Areia (2005)
A riqueza do roteiro complementada por uma entrega magistral das atrizes, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, mãe e filha na vida real, cria poesia orgânica, que convida o público a pensar e se emocionar neste inesquecível conto de solidão dirigido por Andrucha Waddington.

10 – A Hora da Estrela (1986)
Não é difícil concluir que esta bela adaptação de Suzane Amaral para o livro de Clarice Lispector, fiel à essência e eficiente na sua execução, é o melhor filme brasileiro da década de oitenta, verdadeira flor no asfalto. A sensibilidade do roteiro, que funciona com uma simplicidade incomum no período, uma época em que todos os cineastas brasileiros pareciam tentar imitar a cacofonia visual de Glauber Rocha, que, por sua vez, emulava experimentos franceses, cativa o espectador já nas primeiras cenas, quando conhecemos a protagonista: Macabéa, vivida por Marcélia Cartaxo.

9 – Cabra Marcado Para Morrer (1984)
Eduardo Coutinho fazia uma espécie de cinema intensamente emocional, original, corajoso, que forjava uma audiência consciente e crítica, um elemento essencial, principalmente por causa da maneira como sua lente aborda um tema que, em outras mãos, poderia se tornar algo panfletário, manipulador, reduzindo tudo a uma visão simplista.

8 – Filme Demência (1986)
Produzido pela Embrafilme, um roteiro escrito por Carlos Reichenbach e Inácio Araújo, esta pérola ainda é raramente comentada por cinéfilos brasileiros, o trabalho mais pessoal do diretor. Idealizado em tempos de crise nacional, a ideia original teve que ser abortada após cortes no orçamento e acabou por ser transformada em uma versão para "Fausto" de Goethe.

7 – De Vento em Popa (1957)
O movimento Cinema Novo dos anos 70 capitalizou com a pobreza, mas a crítica política e social desses filmes empalidece em comparação com a imagem de Oscarito mantendo seu disfarce como cientista aristocrático, um conceito cômico que atinge o alvo com mais pungência do que todos os chamados "revolucionários" cineastas brasileiros fariam nos anos seguintes.

6 – Navalha na Carne (1969)
O diretor Braz Chediak conseguiu estabelecer uma atmosfera opressiva praticamente insuportável, dominada por planos fechados e longas tomadas, com um uso sábio do silêncio, que vai além dos primeiros trinta minutos com apenas sons diegeticos. O texto corrosivo de Plínio Marcos, defendido de forma naturalista pelos atores consome o ambiente claustrofóbico, a sala fétida e desorganizada que serve como microcosmo de uma sociedade hipócrita.

5 – Vidas Secas (1963)
A inteligência do diretor de fotografia Luiz Carlos Barreto, com lente nua, sem filtros, deixando a luz explodir, esmagando os personagens no terreno escaldante. O chiado das rodas do carro de boi é a trilha sonora ensurdecedora, colocando o espectador em um estado alterado e desconfortável, imediatamente imerso na realidade desesperada da família sertaneja.

4 – O Despertar da Besta (1970)
O filme já começa ao som de "Ave Maria", que é implacavelmente interrompida pelo som de um grito de horror. Somente esse elemento seria um argumento suficiente para a estúpida ditadura militar agir como censura. Eles não apenas impediram que o filme fosse exibido nos cinemas, queimaram as cópias. Recuperado nos anos oitenta, continua sem lançamento comercial. Com um roteiro refinado de Rubens F. Lucchetti, baseado em um argumento de José Mojica Marins cheio de metalinguagem, que, no contexto da época, ousou falar sobre o comportamento humano de uma forma que ainda hoje é corajosa.

3 – Limite (1931)
Este belo filme mudo foi amado por David Bowie e selecionado para restauração por Martin Scorsese. Desconhecido pelo público brasileiro, reconhecido no exterior como obra-prima, o filme de Mário Peixoto usa a sobreposição poética de imagens desarticuladas e muito simbolismo, abordando o infortúnio da humanidade diante da limitação universal.

2 – O Pagador de Promessas (1962)
Em 1962, um jovem chamado Anselmo Duarte, ator em filmes como "Sinhá-Moça" e "Aviso aos Navegantes", decidiu dirigir uma história à frente de seu tempo. Ele trouxe a Palma de Ouro, do Festival de Cannes, despertando a inveja de seus colegas.

1 – Cidade de Deus (2002)
Fernando Meirelles conseguiu capturar a revolta brasileira com as taxas crescentes de violência urbana e o sentimento absurdo de impotência diante de um sistema que parece proteger os criminosos, a impunidade em todos os níveis, canalizando essa raiva coletiva para a estética de seu filme. É rápido, é brutal, é real.

* Lista preparada para o site norte-americano "Taste of Cinema". Link para a postagem original, com os textos em inglês e sem cortes: http://www.tasteofcinema.com/2017/the-25-best-brazilian-movies-of-all-time/

Sobre a preguiça intelectual do público e o "Bonequinho" do Globo

Você já deve ter lido várias vezes que "se o Bonequinho está dormindo, pode ir, que o filme é bom". O comentário é maldoso, tolo, além de revelar mais sobre aquele que o defende, o típico indivíduo que se orgulha em dizer que despreza críticos de cinema porque "tem opinião própria". No português claro, um bronco. Há uma questão fundamental, a incompreensão da função da crítica por grande parte do público. O usual é encontrar comentários bastante agressivos direcionados aos profissionais da área. Um absurdo, tremenda falta de respeito, especialmente quando partem de colegas. O problema não é a avaliação do crítico, que fala diretamente aos critérios que ele utiliza. O que vale ser discutido é o jornal utilizar apenas uma avaliação para cada obra. 

O público que já não valoriza leitura no dia a dia, pouca atenção dedica ao texto crítico, vê o "Bonequinho" e decide em poucos segundos se vai comprar o ingresso. O problema realmente grave é a tremenda falta de interesse do brasileiro, hoje em dia o indivíduo tem acesso pleno à informação. Se ele se baseia apenas em uma fonte, triste constatação. Como sempre afirmo, o mais correto é ler variados textos críticos, especialmente os discordantes, agregando aquelas análises à reflexão que a pessoa vai fazer após a sessão. Jogar pedra no crítico é estupidez, atestado de ignorância. Se o jornal não abre espaço maior para a crítica cinematográfica, uma pena, reflete apenas o pensamento comodista e preguiçoso de grande parte dos seus leitores. Futebol recebe páginas e mais páginas de análises, cinema recebe nota de rodapé, esta é a cara do Brasil. 

Buscar informação é elemento essencial, o Globo e seus "Bonequinhos" são apenas uma fonte de informação. E, acima de tudo, são profissionais que merecem respeito. Se os responsáveis não consideram financeiramente viável abrir mais espaço em suas páginas para o cinema, você pode encontrar dezenas de textos críticos na internet sobre uma mesma obra. Encare com mais atenção seu próprio reflexo no espelho e se pergunte com sinceridade: Eu realmente demonstro interesse no tema?

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Sobre o conceito de "filme velho" e o valor da revisão

O filme em preto e branco, mudo ou falado, em suma, aquela obra que foi lançada décadas antes de você nascer. É comum ler comentários de adultos que citam estes títulos com a certeza de que resgatam algo provavelmente esquecido, como se já antecipassem a resposta debochada: "Isso não é do meu tempo, coroa". Por vezes, a própria pessoa já se defende, dizendo de forma depreciativa que o filme é velho. Como assim? Velho é aquilo que você conhece há muitos anos. Se você tem dezoito anos e está começando a se interessar por cinema, TODOS os filmes já produzidos são NOVOS.

É importante, como crítico de cinema e um apaixonado autodidata pelo garimpo desde a infância, utilizar este espaço para tentar fazer você entender que, por mais que muitos jovens e adultos primem pelo limitado pensamento imediatista, o mais correto é apreciar a arte como algo atemporal. Aprofundando a análise, a forma como o indivíduo enxerga o passado é sintomática de seu nível educacional. Vale traçar um paralelo com o desrespeito generalizado com os idosos na sociedade. Como sempre afirmo, incentive em seus filhos desde cedo o amor pelo garimpo cultural. Aquele que não vê beleza no antigo, ou que sequer dá chance de conhecer estas obras, por preconceito tolo ou preguiça, está fadado a acordar um belo dia e perceber que já não é mais existencialmente relevante, afinal, envelheceu.

A pessoa debocha porque você está vendo um filme repetido. O clássico "este eu já vi" simplesmente não faz sentido na apreciação cinematográfica. O ato de rever um filme é fundamental. Imagine escutar a canção apenas uma vez. Imagine beijar a pessoa amada apenas uma vez. Quem vê o filme apenas uma vez enxerga no cinema um passatempo pueril, facilmente substituível por uma partida de gamão, ou um treino de cuspe à distância. O amor urge pelo reencontro.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Nos Embalos do Rei do Rock - "Com Caipira Não Se Brinca"


“Viva Las Vegas” foi filmado antes, mas lançado depois de “Kissin’ Cousins”, o que já evidencia uma característica fundamental do segundo, a produção de baixíssimo orçamento, filmada em duas semanas. O empresário, preocupado com os custos do refinamento do anterior, quis garantir que o próximo compensaria na rapidez, então convocou o produtor Sam Katzman, especialista em extrair leite de pedra. Apesar dos obstáculos naturais, os cortes financeiros são facilmente perceptíveis se comparados à “O Seresteiro de Acapulco”, por exemplo, o roteiro de Gene Nelson e Gerald Drayson Adams, especialista em tramas leves e agradáveis, como “A Princesa do Nilo”, foi indicado para o prêmio do sindicato de roteiristas na categoria musical.


Com Caipira Não Se Brinca (Kissin' Cousins - 1964)
Josh Morgan (Elvis Presley) é um oficial do Exército que precisa visitar parentes caipiras e convencê-los a permitirem que uma base de mísseis seja instalada em suas terras.

Se fosse lançado alguns anos antes, teria sido elogiado pela crítica como despretensiosa comédia, o problema foi o timing, os Beatles invadiam os Estados Unidos, a juventude vibrava com a atitude roqueira dos garotos britânicos, já não tinham paciência para ver Elvis, o ídolo rebelde de outrora, inserido em uma trama cômica caricatural sulista. Mas, em revisão, o filme segue divertido, espécie de primo pobre de “Sete Noivas Para Sete Irmãos”, utilizando sua estrutura simples como base para sequências encantadoras emolduradas por boas canções.

O diretor Gene Nelson era dançarino, o que garantiu o alto nível das coreografias no terceiro ato. O trabalho rendeu a ele uma nova parceria com Elvis, no inferior “Feriado no Harém”, no ano seguinte. O elenco era ótimo, com Glenda Farrell, veterana de obras como “Almas no Lodo”, clássico gângster da Warner, o impecável Arthur O’Connell, que já havia trabalhado com Elvis em “Em Cada Sonho Um Amor”, e a bela Yvonne Craig, que namorou com o cantor durante um tempo, irresistível em seu misto de ingenuidade e malícia, que se tornaria mundialmente conhecida anos depois como a Batgirl da série “Batman”, com Adam West. O elemento inovador foi o truque visual que permitia que Elvis realizasse dois papeis, o militar elegante da cidade grande e o seu primo caipira abrutalhado, a diferença estava apenas na cor do cabelo. O recurso é executado favorecendo o humor, não há intenção alguma de aprofundar o desenvolvimento dos personagens. O cantor havia acabado de conquistar a faixa preta de karatê, uma de suas paixões, ele estava motivado, trabalhando nuances de interpretação que diferenciassem um tipo do outro. O grupo feminino das “mulheres gavião”, beldades da montanha que perseguem os homens que se aproximam do local, elemento que realça o tom antinatural de desenho animado, funciona exatamente por ser coerente com o todo.

A trilha sonora não é especialmente boa, mas as canções funcionam dentro da proposta. “Kissin’ Cousins” (a segunda versão, escutada ao final, com o cantor defendendo o sotaque puxado nas linhas entoadas pelo caipira), a irônica balada “One Boy, Two Little Girls”, “Once is Enough”, “Tender Feeling” e “There’s Gold in The Mountains” merecem destaque dentro da filmografia de Elvis. O sucesso nas bilheterias, comparado com “Viva Las Vegas” e sua refinada produção, estimulou o Coronel Parker a investir sem medo nos anos seguintes em uma fórmula duvidosa: filmagens rápidas, baixo custo e muitas canções.

A Seguir: Amor à Toda Velocidade (Viva Las Vegas)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Ladrões de Sabonete" e "Volere Volare", de Maurizio Nichetti


Ladrões de Sabonete, de Maurizio Nichetti (Ladri di Saponette - 1989)
Maurizio Nichetti é uma espécie de Woody Allen italiano, menos talentoso, menos carismático, mas que compensa na ousadia temática. “Ladrões de Sabonete”, em revisão, funciona melhor na teoria, o esperto jogo em diferentes níveis narrativos homenageando o neorrealismo e criticando duramente a forma como o cinema se tornou subproduto televisivo.

A execução poderia ser menos truncada, o ritmo melhora consideravelmente no terceiro ato, quando os personagens das duas mídias começam a interagir ludicamente. Nos segmentos em que acompanhamos a família diante do aparelho de televisão, dedicando pouca atenção ao filme que está sendo transmitido, o humor atinge seu ponto alto, aquelas pessoas claramente enxergam arte como simples distração imediatista, o texto trabalhado pelos atores na tela pequena tem o mesmo valor dos jingles dos produtos que são vendidos nos intervalos comerciais. Trazendo para a realidade brasileira, é por este motivo que as telenovelas, em essência, serão sempre entretenimento raso, apesar dos valorosos esforços das equipes criativas. 

Nichetti vive o protagonista do drama e, nos segmentos ambientados nos estúdios da emissora, vive ele mesmo, um diretor decepcionado com o pouco caso dos executivos com seu projeto, “Ladrões de Sabonete”, referência ao clássico “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica. A trama do filme dentro do filme é propositalmente irrelevante, a graça está na forma como a montagem interrompe o investimento emocional do espectador em cenas importantes com a inserção frequente da publicidade em cores vibrantes. Quando a confusão invade o reino da fantasia, emulando “A Rosa Púrpura do Cairo”, que Woody Allen havia lançado quatro anos antes, modificando a obra, o diretor revoltado decide resolver a questão na marra, garantindo alguns bons momentos. Mas, de modo geral, o exercício de estilo acaba chamando mais atenção que o conteúdo. O roteirista/diretor entregaria seu melhor trabalho dois anos depois.


Volere Volare, de Maurizio Nichetti e Guido Manuli (1991)
Eu tenho a vívida lembrança de ter conhecido essa pérola numa exibição televisiva noturna no início dos anos noventa, creio que na Bandeirantes, mas o que me interessava na ocasião era a frequente nudez feminina e a ideia incrível de inserir técnicas de desenho animado neste contexto. Somente pude apreciar melhor a obra em revisão, alugada em VHS anos depois. E agora, na sessão para a preparação deste texto, já conhecendo a filmografia de Nichetti, constato que representa o equilíbrio perfeito entre estilo e conteúdo, o grande problema de seus filmes.

A ideia nasceu após o sucesso mundial de “Uma Cilada para Roger Rabbit”, a trama é insanamente pouco convencional, ele interpreta um tímido sonoplasta de desenhos animados, enquanto o irmão, seu sócio, prefere se encarregar das dublagens de produções eróticas, convocando mulheres maravilhosas para o trabalho que é realizado no melhor estilo “método de atuação de Lee Strasberg”. Angela Finocchiaro vive uma prostituta exótica que se encarrega de satisfazer teatralmente seus clientes, cada um mais doido que o outro, uma artista do sexo, na literal definição do termo. A gradual transformação do sonoplasta em um cartoon, recurso que garante cenas hilárias, simboliza o medo dele diante da possibilidade de contato sensual com o sexo oposto, conceito que cai como luva no tom absurdo do roteiro. Ao contrário de sua amiga ambiciosa, que prioriza clientes ricos, Martina (Finocchiaro) encara seu trabalho como uma missão socialmente relevante, já que permite que loucos extravasem nela sua psicopatia, em variados níveis de periculosidade, de forma inofensiva para a sociedade, elemento que a humaniza sobremaneira.

É fascinante a opção por fazer do tradicional final feliz um abraço sem concessões no surreal, com a divertida entrega dela às possibilidades do sexo com o cartoon, ao invés do caminho óbvio narrativo da solução para o bizarro problema. Uma comédia que jamais seria lançada nos dias de hoje, um sopro de ar fresco em um gênero usualmente escravo da repetição.