sexta-feira, 20 de outubro de 2017

"Milano Odia: La Polizia non Può Sparare", de Umberto Lenzi


Milano Odia: La Polizia non Può Sparare (1974)
Umberto Lenzi é conhecido pelos cinéfilos mais dedicados por seus trabalhos no terror, mas, apesar de ser meu gênero de formação, confesso que não gosto de seus filmes mais populares do ciclo canibal italiano, como “Canibal Ferox”, “Cidade Maldita”, ou “Vivos Serão Devorados”. Ele demonstrou muito mais talento ao experimentar com os gialli “A Lâmina de Aço” e “Sete Orquídeas Manchadas de Sangue”, ou no faroeste spaghetti “Uma Pistola Para Cem Caixões”. E sua obra-prima é “Milano Odia: La Polizia non Può Sparare”, clássico poliziotteschi que considero superior à sua obra-irmã mais celebrada “Roma a Mano Armata”, também dirigida por Lenzi e lançada dois anos depois. O roteiro é do craque Ernesto Gastaldi, que no ano anterior havia escrito o inesquecível “Meu Nome é Ninguém”, de Tonino Valerii, trabalhando a ideia de Sergio Leone, e anos depois ajudaria Sergio Martino no ótimo giallo “Torso”. 

O cubano Tomás Milián, de “O Dia da Desforra”, em seu melhor momento, vive um bandido medíocre e inseguro que encontra na possibilidade do sequestro de uma jovem filha da alta sociedade a chance de se provar competente. E, para piorar, a sua intenção é clara desde o início, ele quer pegar a grana do resgate e matar a garota. Não é apenas pelo dinheiro, a guerra dele é pessoal contra o sistema que, em sua mente distorcida, elege os sortudos e os azarados. Para ele, a classe policial é fraca, facilmente corruptível, limitada a seguir a lei. Sádico, até mesmo os comparsas questionam este posicionamento radical, com a consciência de que eles mesmos podem se tornar alvos de sua ira. Ele só não esperava encontrar em seu caminho o inspetor mais linha dura da cidade, vivido por Henry Silva e seu rosto lapidado a cinzel, alguém que descobre que a única forma de vencer no caso é se tornando mais louco que o bandido, logo, abandonando as amarras legais. 

O tom é pesado, o nível de violência é alto, o roteiro não faz concessões, seguindo a linha de “Desejo de Matar”, de Michael Winner, lançado no mesmo ano. E vale ressaltar a espetacular trilha sonora do mestre Ennio Morricone. Grande obra que merece maior reconhecimento. 

Rebobinando o VHS - "Gymkata - O Jogo da Morte"


Ideia estapafúrdia semelhante, apenas em “Born to Fight”, filme tailandês de 2004, vale salientar, muito mais divertido que esta bomba que hoje resgato no texto. O diretor Robert Clouse, responsável por “Operação Dragão”, pouco antes de entregar o melhor momento de Cynthia Rothrock, a pérola “China O’Brien”, desafia os limites do bom senso em “Gymkata”.


Gymkata - O Jogo da Morte (Gymkata - 1985)
A missão suicida: enfrentar ninjas exóticos, escapar de flechas mortais e defender o mundo ocidental em um torneio similar às provas das clássicas Olimpíadas do Faustão, chamado “O Jogo”, em um vilarejo no fictício reino do Parmistão. O herói da fita: um campeão de ginástica olímpica, Kurt Thomas, que nunca mais atuou, passa por um treinamento intensivo de artes marciais que consiste em subir uma escada plantando bananeira, habilidade que o permite se tornar um agente secreto norte-americano. Por sorte, ele encontra muitas barras fixas nas ruelas, além de um incrível cavalo com alças disfarçado no meio da praça da cidade, elemento imprescindível na cena de ação mais hilária do roteiro. O nobre objetivo: utilizar o prêmio, a realização de um desejo do vencedor pelo rei, para instalar um sistema de satélites de defesa no país. Nada faz sentido, a diversão é garantida. 

Vale destacar a presença do lutador Richard Norton, presença marcante em várias pérolas C da época, vivendo o guerreiro do rei, apaixonado pela princesa, a gatinha filipina Tetchie Agbayani. Quando ela demonstra estar mais interessada no Diego Hypólito karateca, ele se revolta e passa a objetivar assassinar o rapaz o mais rápido possível. Mas quando o filme parece estar fadado à obviedade narrativa, o terceiro ato surpreende com toques de terror, o herói precisa atravessar uma vila fantasma dominada por seres bizarros, como um homem com um segundo rosto na nuca, cena que me apavorava na infância. Claro, tudo orquestrado como humor involuntário, “Gymkata” não esconde se tratar de uma despretensiosa paródia do gênero. 

O filme era exibido com frequência na Bandeirantes durante a década de noventa, mas a capa do VHS é inesquecível, ainda que poucos tivessem coragem de pagar para ver. 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

"A Rainha do Mar", de Mervyn LeRoy


A Rainha do Mar (Million Dollar Mermaid – 1952)
Esther Williams tinha um carisma impressionante, capaz de segurar sozinha a responsabilidade de lucrar com filmes em que o ponto alto se resumia a braçadas na piscina, algo jamais repetido na história do cinema musical. O seu sorriso caloroso derretendo os corações masculinos, o corpo escultural lapidado de nadadora profissional. O seu melhor trabalho, “A Rainha do Mar”, acaba de ser resgatado em DVD pela distribuidora “Studio Classic”, oportunidade de ouro para que a nova geração se encante com a sereia mais espetacular do cinema.

Dirigido por Mervyn LeRoy, o roteiro é livremente inspirado na vida da australiana Annette Kellerman, pioneira artista que tentou atravessar o canal da Mancha a nado e escandalizou o mundo em 1907 ao ser detida por atentado ao pudor na praia, por causa de seu maiô de peça única. Hoje, 110 anos depois, com Trump na presidência dos Estados Unidos, Bolsonaro ganhando espaço no Brasil e adultos tentando fechar museus, liderados pelas “pessoas de bem” que enxergam o reflexo de sua maldade na arte, vale destacar que a tecnologia pode ter evoluído muito, mas a sociedade, em grande parte, segue chafurdando na lama da estupidez. Williams já havia protagonizado a refilmagem de “A Filha de Netuno”, outrora veículo de Kellerman, logo, as histórias das duas se misturaram no inconsciente coletivo do público da época. Victor Mature não faz feio como o empresário inconsequente e apaixonado, mas quem emociona é Walter Pidgeon, vivendo o pai da jovem, inicialmente preocupado com suas escolhas profissionais, ele percebe rapidamente que nenhuma força no mundo iria impedir a filha de conquistar seus objetivos. Se nem a poliomielite foi capaz de destruir seus sonhos, o medo natural dando lugar ao desejo por explorar suas limitações físicas, seria questão de tempo para que a felicidade injetasse significado maior à sua vida.

As coreografias aquáticas intensamente criativas de Busby Berkeley, balé que ainda hoje se mostra eficiente, emolduradas pela fotografia onírica de George J. Folsey, garantem entretenimento de altíssimo nível. 






* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Studio Classic", com opção de dublagem em português.

"O Bar", de Álex de la Iglesia


O Bar (El Bar – 2017)
Quem não conhece a obra do diretor espanhol Álex de la Iglesia, precisa urgentemente ver “Balada do Amor e do Ódio”, “A Comunidade” e “O Dia da Besta”. O seu novo projeto, “O Bar”, traz sua inimitável verve irônica com toques generosos de terror, uma identidade autoral facilmente reconhecível logo nos primeiros minutos desta fantástica alegoria. Estranhos tipos que se cruzam em um bar, caricaturas de diferentes classes sociais, idades e posicionamentos políticos, impedidos de sair pelo medo que sentem do desconhecido, motivados pelo ódio que extravasam ao primeiro sinal de perigo. 

A união diante da ameaça, bela utopia, dá lugar ao egoísmo extremo. O elemento externo, o ceifador que elimina rapidamente qualquer um que ouse deixar o local, existe como necessidade narrativa para suscitar discussões valiosas, especialmente nos tempos atuais, em que dignitários irresponsavelmente celebram o confronto, construindo muros ao invés de pontes. Os personagens, em questão de minutos, passam a desconfiar de tudo e todos, facilmente expondo preconceitos arraigados e alimentados por compreensões rasas de manchetes sensacionalistas, a simples convivência se torna o maior desafio. A barba grande do jovem hipster é motivo para que todos acreditem que ele é um terrorista. O mendigo que, no cotidiano, já era tratado como peça irrelevante no cenário, passa a ser visto como opção única para o sacrifício, ele não merece estar vivo. E, inteligentemente, o roteiro vai desenvolvendo os personagens no segundo ato, subvertendo estereótipos, conduzindo os sobreviventes ao esgoto, escuridão e excremento, forçados a abandonar ego e ilusões sociais. 

A razão para o caos pouco importa, espertamente não há esforço no sentido de explicar o que acontece fora daquele microcosmo, o foco é a interação das vítimas do fenômeno, basta analisar a nossa realidade diária para perceber que o ser humano não precisa de motivos para apedrejar, segregar e odiar, está em sua natureza. Se você prestar atenção na simbologia do desfecho, vai entender que o bar, as pessoas que estavam dentro dele, não qualquer força sobrenatural ou vírus apocalípticos, representavam perigo real para a sociedade. A negação da empatia, a rapidez no julgamento sem embasamento, a cultura de uma vida de aparência, a lucidez sendo subjugada pelo pensamento extremista, o desinteresse pelo aprimoramento intelectual constante. O vilão é o reflexo no espelho. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Faces do Medo - "O Mistério de Candyman"


O Mistério de Candyman (Candyman - 1992)
Quando aluguei esta fita VHS na época de seu lançamento, achei que se tratava de mais um terror engraçadinho, não sabia de sua conexão com Clive Barker, mestre por trás de “Hellraiser” e do subestimado “Raça das Trevas”. É a adaptação do conto “O Proibido”, da obra “Livros de Sangue – 5”, um interessante trabalho sobre o tema das lendas urbanas, mas inferior ao roteiro cinematográfico. Só fui rever o filme recentemente, mas nunca esqueci o impacto daquela noite. A sua trama se manteve gravada em minha mente, as abelhas na boca, os reais cenários decrépitos do conjunto habitacional Cabrini-Green, a imponente figura de Tony Todd e o sangrento gancho enferrujado no lugar de sua mão.

O tom de ameaça constante alcançado pelo diretor Bernard Rose engrandece as convenções típicas de um slasher, ajudado por uma trilha sonora incrivelmente imersiva de Philip Glass e pela entrega competente da bela Virginia Madsen, que vive uma antropóloga que está escrevendo uma tese sobre lendas urbanas, seduzida pela história de Candyman, o assassino da periferia de Chicago, que aparece nas costas de qualquer pessoa que repita seu nome cinco vezes encarando o espelho. A crítica social apurada é mérito do filme, o personagem no livro é loiro e atua na Inglaterra, o conceito de utilizar o medo de se estar inserido em uma sociedade racista e as cicatrizes psicológicas da escravidão como pano de fundo agrega camadas de interpretação muito mais instigantes, transformando o que seria um monstro convencional em um anti-herói enigmático de origem trágica.

Analisado no contexto pobre do gênero na década de noventa, “O Mistério de Candyman” se destaca como pérola do terror adulto de raro valor que merece ser redescoberta pela nova geração.