quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Palestra "O Cinema por Octavio Caruso" e exibição do curta "Se" no Cine Joia (Copacabana - RJ)


Que momento lindo, verdadeiramente inesquecível, o evento foi um sucesso! O dia 20 de setembro de 2017 ficará guardado para sempre em minha memória. Agradeço a cada pessoa que me emocionou com sua presença. Abaixo, algumas fotos desta noite especial.


Tereza Filardy, Eduardo Doria, Teresa Cristina e Mônica Foroni, elenco do curta "Se".


Com Zaira Zambelli, minha primeira professora de teatro (em 2002).
Com Julio Lellis, que me dirigiu no longa "Histórias Íntimas".



sexta-feira, 15 de setembro de 2017

"It: A Coisa", de Andrés Muschietti


It: A Coisa (It - 2017)
O ano está excelente para o horror, “It: A Coisa” é mais um título que não tem prazo de validade curto, merece constar nas listas de melhores adaptações das obras de Stephen King, mérito do diretor argentino Andrés Muschietti, responsável pelo arrepiante cartão de visita chamado “Mamá”, de 2008, curta que em apenas três minutos conseguiu atrair a atenção dos produtores da indústria norte-americana, que o escalaram para comandar também a versão em longa-metragem lançada cinco anos depois. A primeira adaptação do livro foi uma minissérie em dois episódios bastante fraca, que alternava entre o núcleo infantil e suas contrapartes adultas e só se salvava pela presença irretocável de Tim Curry, vivendo o palhaço Pennywise.

A decisão de focar toda esta primeira parte em apenas um período temporal foi muito inteligente. Agora a responsabilidade não precisa pesar tanto nos ombros de Bill Skarsgård, o grupo de crianças é encantador, o clube dos perdedores, cada uma representando uma característica que socialmente é vista como obstáculo, o gago, o asmático, o gordinho, o magricela de óculos, em suma, indivíduos que enfrentam diariamente a estupidez do bullying escolar. E o roteiro de Gary Dauberman, Chase Palmer e Cary Fukunaga consegue retratar este aspecto com tremenda sensibilidade, verdadeiramente emocionando, como no momento em que a menina bonita encontra o caderno do gordinho sem assinaturas e decide demonstrar carinho. Estes pequenos gestos, situações simples, vão construindo arcos narrativos sólidos, conduzindo o público a se importar, de fato, com o bem-estar deles. A reconstrução de época, o resgate da nostalgia da geração dos anos oitenta, não soa artificial como em “Stranger Things”, ou “Super 8”, que se preocupavam demais com a estética, o figurino, mas falhavam em captar a essência libertária e o senso de humor despretensioso. Muschietti evidencia as referências, Molly Ringwald é citada, toda a aura de ameaça representada pelo palhaço reverbera os ataques oníricos de Freddy Krueger, a camaradagem orgânica que se estabelece entre as crianças remete à “Patrulha B.R.A.T.”, “Conta Comigo”, “Os Goonies”, fruto de uma geração que cresceu escutando músicas infantis que enalteciam o poder da amizade e a importância de lutar pela honra. O que as crianças escutam hoje?

A “coisa” representa o medo em duas fases distintas na vida em que a insegurança parece tomar o controle, quando a criança percebe estar amadurecendo e quando o adulto encara a proximidade da finitude, elemento que engrandece o livro e que é inteligentemente retratado no filme, com a computação gráfica possibilitando a pluralidade de versões que ele pode assumir na mente de cada vítima. O monstro se alimenta da insegurança, o seu objetivo é fazer nascer no espírito puro o medo, ele se mostra presente nos momentos em que o indivíduo se mostra existencialmente fragilizado diante do desconhecido, logo, ao encontrar crianças marcadas a ferro e fogo pela exposição diária à estupidez de seres sem empatia, psicopatas em estado embrionário, o agente do mal encara pela primeira vez a resistência. A forma como o roteiro trabalha as sequências de horror não é altamente original, nem precisaria ser, exatamente por tratar do medo como instinto primitivo, ele se apoia em convenções como jump scares e efeitos sonoros alarmantes, com instigante utilização das sombras, mérito da fotografia de Chung Chung-hoon, a execução é impecável. 

"Loja do Doido", de John Paddy Carstairs


Loja do Doido (Trouble in Store - 1953)
Norman Wisdom, Norman Sapiência, sobrenome perfeito para a comédia, especialmente considerando que o tipo que o tornou famoso é um tremendo pateta, espécie de Jerry Lewis britânico que nunca chegou a ser muito conhecido no Brasil, apesar de ter salvado a indústria de seu país durante a década de cinquenta.

O garimpo na internet me possibilitou entrar em contato com suas obras, que não foram lançadas por aqui nem em VHS. Ele fez mais de quinze filmes, foi citado por Charles Chaplin como seu “palhaço favorito”, mas a qualidade das obras varia muito, o seu melhor momento está registrado em “Loja do Doido”, a sua premiada estreia, em que recebeu o BAFTA de revelação mais promissora do ano, um exagero, grande parte do mérito da obra está na criatividade visual da direção, gags como a do carro e da bicicleta logo no início. A voz aguda dele em situações de desespero, a gargalhada contagiante e a personalidade ingênua são características muito similares às que facilmente identificamos no tipo que Lewis já defendia nas produções da Paramount com Dean Martin, mas é possível que Frank Tashlin tenha se inspirado neste filme para trabalhar o conceito de “Errado pra Cachorro”, realizado dez anos depois e protagonizado por Lewis, também ambientado em uma loja de departamentos.

A trama é simples, Norman, que trabalha no almoxarifado, conhece o novo chefe e já comete uma tremenda gafe, o que faz com que seja despedido. Ele então passeia pela loja, tomando laranjada num saloon estilizado do velho oeste, ajudando indiretamente nos furtos de uma idosa (a respeitada Margaret Rutherford) bastante ousada, declarando desajeitadamente seu amor de forma musical para uma jovem atendente, até que consegue seu emprego de volta, o que abre diversas possibilidades cômicas, pastelão de alto nível, como a ótima sequência em que tenta provar sua competência como vitrinista. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

"Na Mira do Atirador", de Doug Liman


Na Mira do Atirador (The Wall - 2017)
Com esta pérola ambientada em 2007, na fase crepuscular da guerra do Iraque, Doug Liman prova que é um dos mais competentes cineastas em atividade, construindo tensão utilizando espaço cênico reduzido, a parede em ruínas que serve como proteção, apenas dois atores e um terceiro personagem que se comunica por rádio. E considerando que o soldado vivido por John Cena é abatido logo nos primeiros minutos, o roteiro de Dwain Worrell tem o desafio de prender nossa atenção por oitenta minutos, sem apelar uma única vez para recursos convencionais como flashbacks ou trilha sonora emotiva, apoiando toda a carga dramática nos ombros de Aaron Taylor-Johnson, excelente ao transmitir, entre uma teatral exibição de bravata patriótica e outra, a fragilidade inerente à motivação de sua presença naquele inferno.

Como todo bom filme de guerra, o interesse maior está em evidenciar quão estúpida e sem sentido é aquela realidade. Apesar do péssimo título em português, simplificação que, como sempre afirmo, ressalta o baixo nível educacional do brasileiro, a mensagem poderosa reside na metáfora da parede que separa o soldado norte-americano e o atirador de elite iraquiano (voz de Laith Nakli), a incapacidade de um compreender o outro, os olhares turvos pelo véu de manipulação doentia e gananciosa que os posicionou naquela situação. “Irônico, a mesma parede que seu país veio destruir, agora você tenta a todo custo evitar que caia. Esta parede em que você se esconde já foi uma escola. ” O diálogo sintetiza a riqueza crítica do texto, algo pouco usual em obras do gênero, quase sempre movidas pela construção de cenas de ação progressivamente mais empolgantes. Em “Na Mira do Atirador”, o estímulo intelectual é mais contundente que qualquer explosão.

A voz tranquila do caçador que demonstra conhecer mais sobre a cultura norte-americana do que aquele que teoricamente está lá para defender a pátria, a opção consciente por tomadas longas que intensificam a sensação de frustração crescente da vítima, a fotografia bruta de Roman Vasyanov emulando o torpor causado pela exposição ao sol ardente do deserto, elementos que engrandecem o resultado.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sobre o caso da exposição no Santander Cultural

Um pouco de lucidez, uma reflexão simples: O ato de censurar arte é sintoma de um sistema desprezível composto por indivíduos claramente desequilibrados emocionalmente, movidos pelo instinto baixo de traçar uma linha imaginária na areia e defender que algo não deve ser considerado relevante (questão de opinião que deve ser respeitada) e, por conseguinte, não merece existir (algo indefensável). Nem mesmo o argumento moralista utilizado desta feita é novidade, a Alemanha nazista e sua exposição "Arte Degenerada" já segregava pintores como Picasso e Matisse na década de 30. Ray Bradbury mostrava em seu "Fahrenheit 451" uma sociedade distópica em que todos os livros eram queimados, obra adaptada para o cinema por François Truffaut em 1966. O tempo passou, mas os seres humanos seguem chafurdando na lama da estupidez. É vergonhoso que este tipo de coisa ainda suscite discussões em 2017.