quinta-feira, 20 de julho de 2017

TOP - Curtas que vão te fazer refletir sobre a vida

Estes cinco curtas estão disponíveis na internet, uma experiência que soma 96 minutos de puro brilhantismo e simplicidade devastadora. Eu recomendo que repitam o ritual que costumo fazer, vendo eles sem pausas e na ordem proposta pelo texto. É terapêutico, lava a alma e emocionalmente desfragmenta o sistema interno, uma massagem poderosa no cérebro. Tenha certeza, você sairá modificado (a) desta sessão.


O Balão Vermelho (Le Ballon Rouge – 1956)
Um menino e seu balão vermelho caminhando pelo bairro, vivenciando situações engraçadas, comuns e agressivas. O filme do francês Albert Lamorisse é um sonho que remete à infância, a bonita capacidade de a criança amar sem preconceito, a amizade que nasce entre dois elementos solitários. Ao resgatar o balão em um ato de coragem, o menino sente que se torna responsável por aquele frágil companheiro. Uma amizade que minimizava o medo diário ao confrontar o desconhecido, do mundo novo de regras que não entende, até a tangível perseguição dos cruéis garotos da vizinhança. O desfecho emocionante que aborda a compreensão da finitude é engrandecido pela elegante utilização da mágica, do transcendental, como forma de lidar com o triste evento. O amor é a única resposta.


Powers of Ten (1977)
Simples, breve e poderoso em sua catarse. A câmera registra um romântico piquenique em uma praça, que ganha contornos filosóficos ao ter seu campo visual ampliado em dez vezes a cada dez segundos, evidenciando como superestimamos nossa importância no tabuleiro do jogo da vida. O toque de genialidade, após nos conduzir para os confins da galáxia, está em fazer o caminho de volta, promovendo o reencontro com o casal e ampliando então em nível celular, molecular, a exploração pelo universo que reside no próprio indivíduo. Como afirma a narração: “Eventualmente tudo se conecta”.


Ilha das Flores (1989)
Jorge Furtado se tornaria mais conhecido pelo grande público ao dirigir “O Homem Que Copiava”, mas ele já havia impressionado a crítica mundial com esta obra-prima que consegue, com ousadia, bom humor e generosa utilização de metáforas, mostrar como a economia gera relações desiguais, acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora no lixão da Ilha das Flores. Temos o telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, mas somos realmente seres inteligentes? Um documentário fundamental.


Meshes of The Afternoon (1943)
Surreal pesadelo que dificilmente será esquecido, sem diálogos (e, em sua primeira versão, sem música), idealizado pelo casal Maya Deren e Alexander Hammid, uma obra que pode ser compreendida de diversas formas, até como libelo feminista (a utilização da flor representando pureza, a faca de cozinha como símbolo da machista visão da mulher como dona de casa), mas creio que a melhor maneira de absorver este experimento visual é não tentar analisar de forma lógica as cenas, apenas admirar a expressão artística dos criadores.


La Jetée (1962)
É possível que a maioria conheça “Os Doze Macacos”, de Terry Gilliam, roteiro livremente inspirado neste fabuloso curta de Chris Marker. Um sobrevivente da Terceira Guerra Mundial que vive como prisioneiro nos subterrâneos de uma Paris destruída, guardando lembranças de uma infância feliz na superfície, até que cientistas o escolhem para realizar uma experiência de viagem no tempo. O importante não é tanto a trama, mas a maneira como ela é trabalhada esteticamente, com a utilização de imagens estáticas exibidas em sequência. A memória não é, de fato, registrada em nossa mente como fotos? Quando você pensa em sua infância, imagens brotam soltas, a sua mente se esforça para preencher as lacunas. O desfecho vai te arrepiar. “Nada distingue as recordações dos outros momentos: não até mais tarde, quando são reconhecidos por suas cicatrizes. ”

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Momentos inesquecíveis da minha infância com "Planeta dos Macacos"


Quando me perguntam sobre minha paixão por filmes na infância e adolescência, não consigo evitar lembrar de um caso marcante envolvendo a franquia “Planeta dos Macacos”. Eu estava na escola ginasial, nos primeiros anos da televisão a cabo no Brasil. Minha família ainda não havia feito assinatura, não era algo financeiramente acessível, então aquele mundo novo era totalmente desconhecido, alguns colegas sortudos na sala de aula comentavam sobre a programação, um sonho, canais com filmes transmitidos vinte e quatro horas por dia e sem intervalos comerciais! Eu estava vidrado em “Planeta dos Macacos”, já tinha visto trechos do primeiro filme, mas, pela primeira vez, estava realmente estudando o tema como um apaixonado. O primeiro e o segundo eram fáceis de achar nas locadoras de vídeo, mas eu encontrava poucas informações sobre as sequências. Sem internet, havia uma névoa espessa de rumores, lembranças equivocadas, um dono de locadora que visitei no garimpo chegou a afirmar que havia apenas um terceiro filme, apesar de eu explicar que havia lido em uma revista Cinemin, matéria de Saulo Adami, os títulos do quarto e do quinto. A angústia me atormentava, a revisão frequente dos dois primeiros ajudava a suportar, ao mesmo tempo que aumentava a curiosidade sobre a continuação da história.

Na escola eu era o esquisito dos filmes antigos, então, depois de um tempo, ninguém estranhava muito quando me via na hora do recreio folheando revistas de cinema, ou tentando puxar papo sobre o assunto. Em uma manhã, enquanto aguardava na sala pela entrada do primeiro professor do dia, escutei um colega, Marcio, comentando sobre “Planeta dos Macacos”. Eu gelei, agradecendo aos céus por não ter inventado alguma desculpa para ter ficado em casa absorvendo meus livros, quadrinhos e filmes, meu real aprendizado útil. Tomei coragem, venci a introversão que sempre me dominava, entrei furtivamente no papo. Sem muitos rodeios, com medo de ser interrompido pelo início da aula, perguntei sobre os misteriosos três filmes que habitavam meus sonhos há meses. O colega, sem entender a urgência da minha questão, afirmou ser fã da série e, para meu desespero, revelou ter em casa todos eles gravados em VHS. Eu tenho a firme crença de que minha pressão baixou, empalideci imediatamente, o tesouro estava tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe. O colega não era muito próximo, eu não era um aluno popular, como todo nerd, eu passava a maior parte do tempo livre perambulando sozinho pela escola. A missão: fortalecer a amizade com ele o mais rápido possível. O obstáculo: o pouco tempo hábil entre uma aula e outra.


Eu devo ter passado a imagem de um psicopata, tentei resumir minha paixão pela série em poucos minutos, focando na necessidade que sentia de ver aqueles três últimos filmes. O colega, provavelmente feliz por ter alguém com quem conversar sobre o assunto, garantiu que me emprestaria as fitas, gravadas de exibições na televisão a cabo, para que pudéssemos enriquecer o papo. Minha vida mudou naquele momento. A felicidade transbordava em meu olhar, até as matérias mais chatas se tornaram suportáveis, minha mente criava possibilidades, cenas formadas com base nas poucas informações que o colega me passou. Ele chegou a avisar que o quarto, “A Conquista do Planeta dos Macacos”, por algum erro na transmissão do canal, estava dublado e com legendas em espanhol. Nada me importava, eles poderiam estar dublados em grego! O dia passou rápido e leve, eu fui dormir feliz, aguardando ansiosamente a manhã seguinte. E lá estava eu, adentrando firme o salão principal da escola e me unindo aos colegas na fila para cantar o Hino Nacional com emoção renovada. Marcio estava atrasado. Entramos na sala, o mundo se movimentava ao meu redor, mas meus olhos estavam fixados na porta de entrada, aguardando o portador das fitas sagradas. Horas se passaram, nada, ele não compareceu naquele dia. A frustração foi forte, mas, com certeza, ele estaria lá na manhã seguinte. Nada foi fácil na vida deste escriba, eu já estava acostumado a esperar.

A escola passou a simbolizar apenas uma coisa: “Planeta dos Macacos”. Eu saía de casa todas as manhãs com um único objetivo. No dia seguinte ele estava lá na fila. Corri até ele, sorriso no rosto, perguntei sobre as fitas já olhando para a mochila dele. Marcio havia esquecido em casa. Juro, meus olhos lacrimejaram, a minha vontade era dar meia volta e sair correndo da escola. Eu teria que suportar cinco horas de tédio com a consciência de que ainda não veria os filmes, e o pior, com o medo crescente de que o colega não estava disposto realmente a emprestar as fitas. Tentei evitar abordar o tema em excesso, com receio de que minha ansiedade colocasse em risco o empreendimento. Mas perguntei algumas vezes ao longo do dia se ele iria conseguir levar as fitas na manhã seguinte. “Claro que sim, pode deixar, já vou chegar em casa e colocar na mochila, para não esquecer”. A esperança subjugou o medo. Chegando em casa, revi os dois primeiros para me preparar psicologicamente para a experiência. Bom, resumindo, a semana passou e o colega, ignorando o peso dramático do seu ato, simplesmente não levou as fitas. Após alguns dias, eu já nem perguntava mais, as horas voltaram a ser comuns, copiar textos da lousa, apontar os lápis, desejar a atenção da menina bonita que sempre me ignorava, a rotina triste e sem brilho.


Não me recordo exatamente quanto tempo demorou, creio que mais de duas semanas, mas, enfim, quando eu já não tinha mais esperança, o Marcio veio na minha direção na fila, já abrindo a mochila. Em minha mente, o momento foi registrado em câmera lenta. Para ele, um dia qualquer, com certeza ele não fazia noção da importância que seu gesto teve em minha vida. Mas, espere um pouco, ele tirou apenas uma fita da mochila, estojo simples, com o nome do filme anotado no adesivo: “A Fuga do Planeta dos Macacos”. “Eu te trago os outros depois, eles estão na mesma fita, nesta aqui tem o terceiro filme e mais dois outros”. O filme estava em velocidade EP, o que prejudicava a qualidade de imagem e possibilitava algo em torno de seis horas de gravação. Ok, o universo respondia dizendo que a busca não seria fácil, a paciência forja o guerreiro. Guardei a fita na mochila entre um livro e outro, para evitar que qualquer abalo pudesse causar danos. Após tanto tempo, poder ver o filme era algo que causava arrepios, amei cada minuto, chorei no final. Dois dias depois o colega levava para a escola a segunda fita. Até aprendi espanhol, de tantas vezes que vi o quarto filme com as legendas na língua, o equívoco da emissora foi benéfico. Até o quinto filme, obviamente inferior, parecia um épico de proporções cósmicas aos olhos de quem já havia cansado de imaginar aquele desfecho.

Quando devolvi as fitas, a sensação era de que havia amadurecido cinco anos em alguns meses. O conteúdo filosófico alimentou minha inspiração. E quando percebo que hoje estes filmes estão disponíveis facilmente em vários formatos, sorrio internamente, não trocaria por nada aquelas mágicas manhãs de expectativa e sonho, que agora eternizo neste texto.

domingo, 16 de julho de 2017

Faces do Medo - "Martin", de George Romero


Martin (1977)
Injustamente pouco conhecida pelo público geral, considero a mais inteligente utilização do tema, amalgamando em sua essência todos os elementos do mítico personagem do vampiro.

Há a clara crítica aos preceitos religiosos, na figura do primo mais velho do jovem, mas existe um aspecto que poucos percebem, evidenciado na cena do ataque inicial no vagão do trem. Um livro, mostrado em destaque um par de vezes: “Beyond Freedom and Dignity”, “Para Além da Liberdade e Dignidade”, do filósofo B.F. Skinner, título inspirado nos trabalhos de Nietzsche e Freud, um estudo sobre como a chamada liberdade tradicional é limitada, propondo então uma definição que fugisse do senso comum de condições que impediriam os sujeitos de conhecer os inúmeros determinantes envolvidos no controle dos comportamentos chamados de livres e dignos, um trabalho que define os anseios do protagonista, vivido por John Amplas, que bebe o sangue de suas vítimas e afirma ter oitenta e quatro anos, apesar de sua aparência jovial. Ele não possui presas pontudas e debocha da figura caricatural do vampiro, como na cena em que assusta o primo mais velho, vestido como o conde da Transilvânia. Com a utilização de flashbacks, inserindo o jovem na realidade que ele defende, o roteiro deixa a dúvida sobre a sanidade mental do personagem, alguém que busca, mais que tudo, se encaixar na sociedade.

O tratamento intenso e realista potencializa a tragédia do jovem, com o roteiro inteligentemente evitando qualquer personagem que represente um referencial moral, subvertendo até a figura do padre católico, vivido pelo próprio diretor. Obra-prima de George Romero, perfeita do início à última frase dita, já nos créditos finais. 

sábado, 15 de julho de 2017

Faces do Medo - "A Ilha das Almas Selvagens", de Erle C. Kenton


A Ilha das Almas Selvagens (Island of Lost Souls - 1932)
Lançado no mesmo ano do polêmico “Freaks”, de Tod Browning, também se beneficiando do crepúsculo da era mais ousada de Hollywood, antes da censura do Código Hays, esta primeira versão de “A Ilha do Dr. Moreau”, de H.G. Wells, entrega um dos desfechos mais brutais da história do gênero, apesar da vítima, o amoral doutor vivido pelo sempre competente Charles Laughton, merecer cada segundo do pesadelo que enfrenta, cercado por todos aqueles que escravizou e utilizou como cobaias de seus experimentos em sua ilha, misturando genes de humanos e feras, conceito bizarro que ainda não perdeu impacto, o filme segue eficiente em revisão.

Uma subtrama, em especial, seria impossível com a censura, a tentativa macabra de facilitar a relação sexual entre o marinheiro Edward (Richard Arlen) e a enigmática mulher-pantera Lota (Kathleen Burke), com o doutor brincando de Deus ao manipular suas versões distorcidas de Adão e Eva, uma sequência perturbadora, já que o rapaz ignora a natureza animalesca da bela seminua que o deseja, com seus movimentos corporais emulando o comportamento de um felino. Bela Lugosi como o líder das feras, o responsável por mantê-las obedientes ao controle do doutor pela tortura, um papel que é potencializado na fotografia soturna de um mestre que trabalhou em “Aurora”, de Murnau”, e que anos depois faria parceria com Chaplin em “O Grande Ditador” e “Luzes da Ribalta”: Karl Struss, quase sempre aproximando ameaçadoramente na câmera o rosto peludo, maquiagem de Wally Westmore, um recurso visual pensado para a tela grande.

O grande mérito da obra está na atmosfera arrepiante que consegue estabelecer logo nos primeiros minutos. Apesar da versão de 1977, dirigida por Dan Taylor, ser mais conhecida pelo grande público, o clássico de Erle C. Kenton segue sendo minha versão favorita da obra. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil" na caixa "Obras-Primas do Terror - Vol. 6", que conta também com: "A Sociedade dos Amigos do Diabo", "A Mansão Macabra", "A Sétima Vítima", "Internato Derradeiro" e "A Máscara do Horror". 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

"Monika e o Desejo", de Ingmar Bergman


Monika e o Desejo (Sommaren med Monika - 1953)
A simplicidade é o último grau de sofisticação, como já dizia Leonardo Da Vinci, exatamente por este motivo discordo do senso comum que insere Ingmar Bergman no panteão dos diretores de “filmes cabeça”. É um conceito equivocado que incita apenas o desprezo daqueles que, compreensivelmente, consideram um termo arrogante, primo próximo da terrível frase: “este filme não é para todos”. O diretor sueco apenas não se permitia subestimar a inteligência do público, algo cada vez mais raro. Com pouco tempo de duração, os seus roteiros diziam muito, convidando o apreciador a refletir sobre os temas durante e, principalmente, após a sessão.

“Monika e o Desejo” causou muita polêmica na época por tratar da sexualidade de adolescentes e a gravidez antes do casamento, a nudez da bela Monika (Harriet Andersson) representando o elemento libertário, inconsequente e erótico, que contamina o pacato Harry (Lars Ekborg). O jovem casal, cansado da rotina diária de seus inglórios trabalhos, decide largar tudo e se aventurar pelo mundo fugindo de barco para uma ilha, até que, em pouco tempo, as responsabilidades do mundo adulto e a cobrança da sociedade invadem brutalmente o sonho idílico. A utilização genial da quebra da quarta parede, como quando Monika convida o espectador a julgar sua atitude, aceitando que a utopia da vida sem limites é ingênua e pode ser fragilmente dominada pelo desejo, cena profundamente triste em essência, já que, ao trair a confiança do namorado, a personagem decreta morte em vida, o total desprezo por sua própria imagem no espelho. A paixão que nasceu como válvula de escape não consegue sobreviver à bonança, a estabilidade faz vir à tona o real caráter, que havia se escondido no desespero por ar daquele ser que existencialmente se afogava. 

Em seu momento de reflexão, ao final, Harry, abandonado e segurando no colo o inocente fruto da relação intempestiva, o resultado físico de sua irresponsabilidade, resgata em sua mente doces momentos perdidos no tempo, o corpo nu de Monika banhado pelo sol, o afago recebido. Bergman demonstra que, apesar de tudo, ainda é possível encontrar beleza até no erro cometido.