quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Nos Embalos do Rei do Rock - "Amor à Toda Velocidade"


Em uma entrevista recente, Ann-Margret, quando perguntada sobre seu relacionamento com Elvis, silencia respeitosamente e se emociona, o apresentador não disfarça sua surpresa, a mulher que foi desejada por todos à época, mesmo após tantos anos do falecimento do amigo, não consegue tocar em seu nome sem lacrimejar. Lucidamente, ela acusa todos que se aproveitaram dele e que não tentaram ajudar no período de crise, quando sua saúde já estava debilitada, especialmente os jornalistas da área que não o elogiavam em vida por inveja. Apesar das tentativas do entrevistador, ela se recusa a comentar detalhes de seu caso amoroso, na época em que ele estava oficialmente comprometido com Priscilla, afirmando que seria incapaz de trair a confiança dele. Dá para imaginar o nível de cumplicidade que existia nos sets de filmagem de "Amor à Toda Velocidade", a química do casal transborda na tela, a paixão era real e intensa, os dois se entendiam plenamente, já que viviam a mesma realidade do show business. E muitos fãs acreditam que se Elvis tivesse ficado com Ann-Margret, ele estaria vivo até hoje. 


Amor à Toda Velocidade (Viva Las Vegas – 1964)
Em Las Vegas, um piloto de corrida (Elvis Presley) quer participar do 1º Grande Prêmio da cidade, mas perde o dinheiro que usaria para comprar um motor. Ele então passa a trabalhar como garçom e se envolve com uma professora de natação (Ann-Margret), que se sente incomodada pela obsessão que ele tem por corridas, pois teme que algo aconteça.

Ann-Margret era dinamite nas telas quando cantava e dançava, levantava a moral dos soldados em shows durante a guerra, uma bela garota com personalidade forte na época auge do machismo, ela acabou ficando nos bastidores com fama de "mulher fácil". Quando conheceu Elvis nos estúdios de gravação da MGM, apresentada cordialmente pelo veterano diretor George Sidney, já envoltos pela máquina de marketing da empresa, ela se surpreendeu com a gentileza do rapaz, que a enxergava com muito respeito e a tratava com ternura. Aos olhos dele, ela podia deixar de se preocupar com a imagem de musa sexy e voltar a agir como a jovem imigrante sueca cheia de sonhos, os dois não levavam muito à sério os estereótipos criados sobre eles, brincavam constantemente, compartilhavam o amor pela música, o relacionamento amoroso se manteve por todo o ano, a amizade, até o falecimento do cantor.

É a melhor bilheteria na carreira cinematográfica de Elvis e muitos afirmam que este é o melhor filme que ele fez, eu não concordo, mas entendo os motivos, o diretor, responsável por obras-primas como "O Barco das Ilusões", "Scaramouche", "Os Três Mosqueteiros", "Marujos do Amor", "Melodia Imortal", entre outros, era especialista em musicais elegantes, o que garantiu um ritmo verdadeiramente único na produção, a trama não apresenta qualquer barriga, todos os momentos funcionam, as músicas se encaixam perfeitamente nas cenas, o resultado diverte sem subestimar a inteligência do público. A alta qualidade era perceptível em todos os setores. A produção refinada foi de Jack Cummings, de "Sete Noivas Para Sete Irmãos". O roteiro foi escrito por Sally Benson, responsável pelo excelente "Agora Seremos Felizes", com Judy Garland. A direção de fotografia ficou sob responsabilidade de Joseph F. Biroc, que trabalharia anos depois em "Inferno na Torre". A trilha-sonora manteve o alto nível, com destaque para "What'd I Say", composta por Ray Charles, "C'mon Everybody" (Joy Byers) e a linda balada "Today, Tomorrow and Forever" (Giant-Baum-Kaye), com direito ainda a uma interpretação marcante do rei do rock no clássico italiano "Santa Lucia". A canção-tema, "Viva Las Vegas" (Pomus-Shuman), apesar de frenética, acaba pecando pela artificialidade, típico tratamento genérico e pasteurizado que acabou diluindo a espontaneidade do cantor em sua segunda fase em Hollywood.

Um aspecto que poucos lembram é que a montagem da sequência de corrida de carros no desfecho, com generosa utilização da câmera em primeira pessoa no volante, foi celebrada pelos críticos à época como a melhor do tipo até o momento. Apenas "Bullitt", com Steve McQueen, conseguiria superar o feito, quatro anos depois. 

A Seguir: Carrossel de Emoções (Roustabout)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

"Lady Bird: A Hora de Voar", de Greta Gerwig


Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird – 2017)
Serei objetivo, já que nada soa orgânico neste filme. É perfumaria feminista indie das mais bregas, roteiro calculadamente pensado para atingir as expectativas emocionais da garotada que abraça da forma mais rasa o importante movimento como cafona modismo, diluindo tudo em palavras de ordem tolas e que cabem nas camisetas vendidas a preços altos, defendidas por meninas altamente inseguras e rapazes que escondem a sexualidade real num frágil disfarce social oportunista de nobre ativista pela causa, em suma, todos ambicionando atenção, aplausos da massa de manobra, ou, na hipótese mais baixa, lucro financeiro aproveitando o zeitgeist atual na indústria.

Analisando a obra sem o peso do gigantesco (e nada espontâneo) hype, constato que os diálogos são simplórios, ou apelam de maneira pouco criativa para clichês já desgastados. Greta Gerwig, enquanto diretora inexperiente, consegue iniciar com uma montagem brilhante mostrando o vazio dos rituais, mas se perde ainda no primeiro ato, pecando pela pouca sutileza com que lida com as cenas, o ritmo não engata nunca, porque o desenvolvimento dos personagens é morno, caricaturas que poderiam ser melhor utilizadas em tramas essencialmente despretensiosas. O cinema já encontrou diversas formas de retratar contos de amadurecimento, mas raras vezes ousou tão pouco. A protagonista Christine, vivida por Saoirse Ronan, prefere ser chamada de “menina pássaro”, a típica adolescente irritante que se considera vítima das circunstâncias e que acredita que ter personalidade é chocar outrem. 

A construção do relacionamento entre ela e sua mãe (Laurie Metcalf), elemento que poderia elevar a qualidade do material, acaba se resumindo a discussões sobre tolices, com a jovem birrenta, mimada e maníaco-depressiva desfilando grosseria e recebendo sermões homéricos, só que sem a inteligência refinada de um John Hughes, que compreendia como poucos as angústias naturais deste período da vida. Em revisão, os problemas se intensificam, as escolhas narrativas se mostram ainda mais frágeis, incoerentes e dramaticamente pueris.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Ciclo de Adaptações de Quadrinhos - "Vampirella" e "O Monstro do Pântano"


Vampirella (1996)
Ah, doce Vampirella, uma das musas mais queridas da minha pré-adolescência, vivida no filme pela belíssima Talisa Soto, a Gal Gadot da década de 90, que eu já admirava como a Bond Girl de "007 - Permissão Para Matar", a Doña Julia de "Don Juan DeMarco" e a princesa ninja Kitana, de "Mortal Kombat". No roteiro, a primeira pessoa que ela salva é um jovem nerd de óculos que a leva para seu quarto cheio de cartazes de filmes na parede, com direito até a beijo na boca de despedida, sim, inegável, rolou uma forte identificação que me fez fazer vista grossa para todos os problemas desta produção de irrisório orçamento e muitos (d)efeitos especiais. Outro detalhe bacana que vale destacar é a ponta de luxo do carismático diretor John Landis, de "Um Lobisomem Americano em Londres", como um dos astronautas que encontram a jovem anti-heroína seminua em Marte. Houve uma tentativa da indústria de lançar a personagem no cinema na década de setenta, mas foi somente em meados da década de noventa, com ajuda do produtor Roger Corman, que "Vampirella" finalmente estreou na tela pequena, aproveitando o boom do mercado de home video. Levando em conta que a direção ficou sob responsabilidade do incompetente Jim Wynorski, de bombas como "Sorceress" e "Deathstalker 2", até que o produto final não é tão desastroso, cumpre bem sua função, auxiliado pela presença marcante de Roger Daltrey, vocalista da banda "The Who", exageradíssimo como o vilão Vlad. 


Recomendação literária: A editora Mythos lançou a melhor fase da personagem criada por Forrest J. Ackerman e Trina Robbins no belo encadernado de luxo, capa dura: "Vampirella - Grandes Clássicos". Histórias trabalhadas por Archie Goodwin, T. Casey Brennan, Budd Lewis e Steve Englehart, desenhadas no afrodisíaco traço de José González. 

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O Monstro do Pântano (Swamp Thing - 1982)
Fora o fato de que a Adrienne Barbeau no filme está a cara da cantora Karen Carpenter, pouca coisa chamou minha atenção nesta revisão para o texto, eu lembrava que esta obra dirigida por Wes Craven era ruim, mas a experiência desta vez superou os limites do tédio. É impressionante imaginar que este mesmo profissional iria realizar dois anos depois a obra-prima do terror: "A Hora do Pesadelo". Quem não conhece o personagem nos quadrinhos e vai buscar direto na fonte do cinema, vai tomar raiva e acreditar que o conceito é tonto, tolo e risível, muito longe da realidade filosoficamente profunda trabalhada especialmente no longo arco escrito por Alan Moore. A trama básica segue com relativa fidelidade a origem do monstro, o cientista Alec Holland (Ray Wise) fica preso em uma armadilha explosiva em seu laboratório, quando tentam roubar sua fórmula. O seu corpo flamejante cai no pântano e renasce como uma criatura híbrida. Vale destacar que a subtrama romântica com viés de "A Bela e a Fera" foi criação do roteiro, algo que seria depois utilizado com excelência no arco dos quadrinhos já citado. O vilão Arcane, vivido pelo veterano Louis Jordan, pagando as contas do mês, traz charme, mas não o suficiente para que não nos incomodemos com a representação física do protagonista verde, provavelmente o cosplay mais horroroso da história do cinema trash, consegue ser pior que o clássico da Troma: "O Vingador Tóxico". Veja como curiosidade, caso tenha duas horas para desperdiçar. 


Recomendação literária: A editora Panini lançou a magnífica "Saga do Monstro do Pântano", escrita por Alan Moore, em seis encadernados. É material adulto de altíssima qualidade, imprescindível na coleção de todo fã de quadrinhos. 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Ciclo de Adaptações de Quadrinhos - "Flash Gordon" e "Tex e o Senhor dos Abismos"


Flash Gordon (1980)
"Flash, eu te amo! Mas nós só temos 14 horas para salvar o planeta Terra!" (Dale Arden, vivida por Melody Anderson)

Durante muitos anos a trilha sonora do Queen era o único elemento que me fazia rever a obra dirigida por Mike Hodges, que apesar de nunca ter alcançado o mesmo nível de qualidade, foi o responsável pela pérola policial "Carter - O Vingador", de 1971. Quando criança, eu não tive contato com o personagem, logo, o meu investimento emocional no filme à época foi raso, o estilo exagerado, kitsch, causava estranheza. Hoje, mais que um guilty pleasure, o título se tornou referência de como um fracasso monumental pode ser mais relevante em longo prazo que um sucesso comportado. O culpado foi George Lucas, o sucesso de "Star Wars" tornou viável outras tentativas espaciais, inclusive "Flash Gordon", personagem que o próprio Lucas tentou trabalhar anos antes, mas teve seu pedido recusado pelo produtor Dino De Laurentiis. Ironia do destino, o italiano apostou na ideia outrora rejeitada, motivado pelo sucesso do revide criativo do jovem que ele havia menosprezado. Sendo coerente com o tom debochado do roteiro de Lorenzo Semple Jr., responsável pelos textos da série sessentista do Batman, substituindo a pegada mais pretensiosa sci-fi do roteirista/diretor Nicolas Roeg, afastado após recusar transformar tudo em pastiche, eles escalaram para o papel principal, após receberem um "não" do Kurt Russell (até ele achou o conceito um pouco exagerado demais), o jovem inexperiente Sam J. Jones, tremendo canastrão que os executivos viram em um programa de namoro na televisão. Um dos maiores atores de sua geração, Max von Sydow, carregando nos ombros o projeto como o vilão Imperador Ming, o único no elenco que verdadeiramente apreciava o herói das tiras de jornal e que, principalmente, desejava estar no projeto. Você sente em sua entrega esta paixão pelo material. Revisto para este texto, o filme se mantém problemático em diversos pontos, mas, ainda assim, fascinante, encantador. 


Recomendação literária: "Flash Gordon no Planeta Mongo", lançado pela editora Pixel, com as páginas dominicais de 1934 a 1937, criadas por Alex Raymond e Don Moore. 
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Tex e o Senhor dos Abismos (Tex e il signore degli abissi - 1985)
O diretor italiano Duccio Tessari, do competente "Uma Pistola Para Ringo" e da curiosa versão de "A Marca de Zorro", com Alain Delon, comanda o roteiro escrito a três mãos, com o auxílio de Marcello Coscia e Gianfranco Clerici, responsável pelo excelente "O Estranho Segredo do Bosque dos Sonhos", de Lucio Fulci. A opção de ambientar a aventura no terreno do sobrenatural, com sacerdotes malignos que caberiam como luva numa aventura do bárbaro Conan, não foi muito bem aceita pelos fãs, apesar de existirem histórias do personagem com esta temática, não é o caminho mais lógico, especialmente em seu primeiro momento (e único) na tela grande. Eu cresci lendo os gibis do Tex, assim como aqueles livros de bolso de faroeste que eram comprados nas bancas de jornal com o troco da merenda da escola, o elemento que me atraía no personagem era sua conduta íntegra inabalável, os valores que defendia com firmeza, porém, sem perder a ternura, uma espécie de "Superman" do Velho Oeste e sem superpoderes. O filme não faz justiça ao legado dos quadrinhos, a produção é de baixíssimo orçamento, originalmente havia sido pensado como o piloto para uma série de televisão, mas existem acertos consideráveis. Giuliano Gemma está impecável como o protagonista, ele entrega a bravura nas atitudes e no semblante esculpido a cinzel, a sua figura impõe presença silenciosamente. O rancheiro Kit Carson, de William Berger, fisicamente idêntico ao original, caracterização que respeita a essência do personagem, até seus rompantes de pessimismo estão intactos. O índio Jack Tigre, vivido por Carlo Mucari, visualmente diferente, mas carismático, não prejudica o resultado. A ideia consciente de manter os enquadramentos estáticos nas cenas, sem firulas de câmera, para tentar emular ao máximo o senso de movimento das páginas dos quadrinhos, além de facilitar para a equipe, traz realmente uma aura diferente às sequências, especialmente naquelas que envolvem tiroteios ou perseguições a cavalo. É um faroeste crepuscular, o público italiano já não estava mais tão interessado no gênero, mas merece maior reconhecimento. Vale destacar a presença do criador Gian Luigi Bonelli, vivendo o índio que aparece no prelúdio e no epílogo. 




Recomendação literária: A minha história favorita de Tex Willer é "O Vale do Terror", desenhada pelo mestre Magnus, com argumento de Claudio Nizzi, lançada pela editora Mythos na coleção "Edição Gigante em Cores". Se você quer entender o fascínio do personagem, leia esta obra-prima. E se gostar, procure depois "El Muerto", minha segunda aventura favorita da lendária criação de Gian Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

"Três Anúncios Para Um Crime", de Martin McDonagh


Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri – 2017)
É difícil evitar perceber que o trabalho do roteirista/diretor Martin McDonagh neste projeto é altamente pretensioso, talvez sintoma de insegurança artística, como se ele quisesse exibir a todo momento sua capacidade de desconcertar o espectador com a quebra de todas as expectativas, algo que acaba prejudicando o ritmo, especialmente no segundo ato.

A trama base e as atuações são impecáveis, mas é tão aparente o desespero por aplausos acadêmicos, que a experiência acaba exaurindo toda naturalidade que as cenas poderiam despertar. A opção por soluções cômicas frequentes, por vezes soa como bem-vindo alívio, mas durante boa parte do tempo soa simplesmente irritante. Se o texto consegue emocionar profundamente em sequências como a da leitura de uma importante carta, ou em lindos trechos em que a protagonista, vivida pela excelente Frances McDormand, consegue sutilmente revelar traços de humanidade cativantes, usualmente escondidos por trás de seu semblante de dor e mágoa, o todo dança desajeitadamente na linha tênue entre a organicidade fascinante e a exposição artificial, a simplicidade neste caso poderia ter potencializado os méritos de "Três Anúncios Para Um Crime". É o típico filme pensado calculadamente para agradar nas premiações, estratégia que já provou ser fadada a glórias com curto prazo de validade.

Mildred (McDormand), uma mãe nada convencional que decide se vingar do cruel estupro e assassinato de sua filha adolescente, instigando a revisão do crime abandonado sem solução de forma bastante visual, com o auxílio de mensagens em três outdoors, premissa que conduz à discussões preciosas sobre o comportamento da sociedade diante da violência. Quando se banaliza o tempo de "rir" e o tempo de "chorar", tudo se perde, o coletivo se torna parte do problema. A metalinguagem trabalhada na cena do policial que debocha sobre a motivação de quase todos os filmes ser a morte de uma jovem, assim como a ideia reforçada no desfecho de que a omissão é, de fato, o real crime a ser confrontado, pontos que agregam ao conceito da insatisfação com o sistema. Não importa quem cometeu o crime, mas, sim, a passividade brutal dos habitantes da pequena cidade, seres sem empatia, que, ao invés de aplaudirem a atitude da mulher, demonstram revolta por sua força de espírito ter abalado a ilusória paz de seus dias.

A coragem dela, sem que os próprios afetados percebam inicialmente, está operando modificações estruturais consideráveis, a resistência da leoa ferida faz com que todos, até mesmo o mais patético e intelectualmente limitado indivíduo, busquem ser melhores. Esta essência poderosa compensa todos os problemas da obra, a mensagem de que a mais bonita redenção não é a catarse do revide, pode ser apenas a silenciosa mudança de atitude diante do abismo.