quarta-feira, 20 de agosto de 2014

"As Coisas da Vida", de Claude Sautet


As Coisas da Vida (Les Choses de La Vie – 1970)
Pierre (Michel Piccoli), um bem-sucedido engenheiro, sofre um acidente de carro e, ferido mortalmente, relembra seu passado e as pequenas coisas que fazem a alegria da vida.


Nesse delicado filme, que foi o primeiro da parceria entre o diretor e a bela austríaca Romy Schneider, fica claro o contraste de estilos entre o olhar refinadamente inteligente de Claude Sautet, que atraía público e agradava os críticos, e o cinema experimental, por vezes hermético, que era realizado na época pelos colegas franceses da Nouvelle Vague. A estrutura que move a trama, flashback dentro de flashback, trabalha em favor da narrativa, potencializando o impacto sensorial sem parecer existir apenas como um pedante exibicionismo. As lembranças do protagonista moribundo, que passeiam desde a ternura pela ex-mulher e seu filho até os idílicos encontros com uma nova namorada mais jovem, estão integradas à sua passividade física no tempo real, tendo sua duração sincronizada ao período de sua inconsciência.

O diretor nos leva a interpretar as motivações dos personagens no ato de observar eles em silêncio, estando mais interessado em registrar, por exemplo, um sorriso casual, do que o gracejo que o causou. Adentramos na privacidade daqueles estranhos imperturbáveis à ação do tempo, naqueles breves momentos que, em outros filmes, a câmera já teria se desviado ou teria sido desligada. A linda trilha sonora de Philippe Sarde emoldura os momentos de melancolia do protagonista, como na cena em que experimenta o amargor do arrependimento durante uma viagem noturna de carro. Pierre (Piccoli) ainda não se acostumou com a ausência de sua ex-mulher (Lea Massari), sentindo saudade daquela convivência em sua zona de conforto, então escreve impulsivamente uma fria carta de rompimento para a apaixonada jovem namorada (Schneider), mas se arrepende tarde demais. O acidente o imobiliza, incapacitando-o de exteriorizar suas emoções, impedindo-o de fazer o que desejou mais que tudo em sua vida: o simples rasgar de um pedaço de papel. 

* O filme, inédito no mercado brasileiro, está sendo lançado pela distribuidora Versátil.
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. Eu amei este filme , e gostei mais de relembra lo e vê lo novamente

    ResponderExcluir