segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Rebobinando o VHS - "Inocência Ultrajada" (1974)

Link para os textos anteriores do especial que resgata a nostalgia dos tempos do VHS:
http://www.devotudoaocinema.com.br/p/rebobinando-o-vhs.html


Essa pérola produzida para a televisão norte-americana sequer foi lançada em VHS oficialmente por aqui, apenas em fitas piratas, sem legendas. Ela chegou a ser exibida com cortes nas madrugadas televisivas brasileiras, mas não me recordo de ter visto alguma exibição. O meu primeiro contato com a obra foi através da novelização literária, encontrada em um de meus garimpos nos sebos, com o título original: “Nascida Inocente”, escrita por Berhardt J. Hurwood, baseada no roteiro de Gerald Di Pego. 


Inocência Ultrajada (Born Innocent - 1974)
Feito na esteira do sucesso mundial de “O Exorcista”, um veículo ousado para a pequena Linda Blair firmar seu nome na indústria, “Inocência Ultrajada” aborda um tema espinhoso, os abusos sofridos pela garota em um reformatório. Ela tinha apenas quatorze anos quando filmou a sequência forte de estupro no banheiro, algo que jamais seria cogitado nos dias de hoje. Sem nudez, todo o sofrimento transmitido em seu rosto, uma declaração de coragem rara, especialmente quando a postura mais confortável seria ela abraçar a fama e optar por papéis bonitinhos em filmes inofensivos. Em “A Garota Viciada”, no ano seguinte, ela interpretou uma menina viciada em álcool. É uma pena pensar que a sua carreira foi destruída no final da década de setenta, ao aparecer nas manchetes em um escândalo com drogas. Ela, que tinha talento para ser uma das maiores atrizes de sua época, foi esquecida por Hollywood e se manteve trabalhando em projetos fracos, sem relevância.

Analise a cena do primeiro banho de sua personagem, logo após a chegada na instituição, o choro convulsivo, a angústia contida que explode ao encarar a frieza do local. Christine (Blair) é fruto da parentalidade irresponsável, os pais, vividos por Kim Hunter e Richard Jaeckel, alternam a agressão física com a pressão psicológica, vivem brigando na frente dela, um cenário caótico que a impele a fugir. A crítica é direcionada ao sistema que, em teoria, serve para ressocializar os jovens, mas, na prática, apenas termina de destruir o indivíduo. Ela chegou inocente, compreensivelmente perturbada, com o olhar de criança, um detalhe que a atriz evidencia brilhantemente na sua gradual transformação, porém, sob o manto das figuras de autoridade no local, ela foi seviciada de todas as formas. O único elemento humano que a mantém sã é o irmão mais velho, vivido por Mitch Vogel. Quando ele a atrai na intenção de facilitar a aproximação do policial que vai conduzir a jovem de volta para o reformatório, as correntes emocionais se rompem, a sociedade consegue finalmente criar um monstro irrecuperável.

O filme conquistou a maior audiência televisiva no ano. E, como pude constatar na revisão, ele se mantém eficiente, com uma linda trilha sonora composta por Fred Karlin, injustamente pouco lembrado, responsável por uma das melhores baladas cantadas por Karen Carpenter: “For All We Know”, escrita para o filme “As Mil Faces do Amor”, de 1970. 

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