“Mea Culpa” é o
filme nacional que deveria (junto com tantos outros batalhadores, sem
incentivo) representar a real cara de nosso cinema, aquele que não nasceu em
“berço de ouro”…

Ah, o clamor ensurdecedor da justiça. A supremacia daqueles que
batalham, tendo nada recebido de forma fácil. O maior prêmio, aquele que não se
coloca em nenhuma estante, a consciência do dever cumprido. Este é o caminho
tortuoso daqueles que vencem pelo genuíno talento, ainda que ultrapassem
obstáculos diários em uma sociedade que não prioriza a Arte. Como fiquei
orgulhoso ao testemunhar a massa humana que lotava o Cine Cândido Mendes, no
último dia 21 de Maio (2013), para a exibição do filme “Mea Culpa”, do cineasta
Julio Lellis. Muitos nem puderam entrar na sessão, outros se acotovelavam no
chão da sala de exibição. Nenhuma outra produção no “Festival Brasil de
Cinema Internacional” chamou tanto público (tanto é que as fotos
utilizadas na divulgação do sucesso do evento foram retiradas da noite de
exibição do filme a que me refiro), causou tamanha comoção prévia e posterior.
Mérito da equipe da “Sinos Filmes”, do excelente roteiro de André
Damin, da bela fotografia de Pedro Maia, do elenco dedicado (Lucia Paiva,
Mariana Terra, Silvia Stutz, Daniel Del Sarto, Elke Maravilha, Cristina
Prochaska, entre outros), do figurino de Renata Kanitz, de uma trilha sonora
inteligente (de Breno Pessurno) e uma direção que consegue trabalhar com a
sensibilidade necessária o difícil tema abordado.

Baseado em fatos, a trama inicia quando a matriarca de uma
família sofre um pequeno acidente que a faz relembrar um grande trauma que
mudou a sua vida e de suas filhas. Ela recorre então a uma jovem psicóloga, que
acaba envolvida de forma singular na história. Sem estragar a experiência
daqueles que não assistiram, posso dizer que a discussão que a obra suscita
após o poderoso desfecho, reverbera profundo em muitas de nossas verdades
absolutas. O quanto perdemos de nós, quando evitamos enxergar o óbvio? Existe
redenção, mesmo após o mais abrasivo crime cometido? Estamos preparados para
perdoar, inclusive a nós mesmos? O roteiro tem potencial emocional, mas acerta
ao evitar a pieguice ou o melodrama manipulativo. Até mesmo a utilização doflashback,
que é um arriscado campo minado, foi inserido de forma a evoluir a narrativa (não
explicá-la, como usualmente é feito). Uma poesia dura (excelente inclusão de
frases da Nélida Piñon, estabelecendo o tom de cada ato), que envolve o
espectador nos primeiros dois atos, surpreendendo-o em seu desfecho. A trilha
sonora utilizando inserções doleitmotiv(canção infantil “Nesta
Rua”) nos momentos certos, sem nunca buscar emoções fáceis. E sendo
coerente ao aspecto minimalista do enfoque da trama, uma duração objetiva,
trabalhando o roteiro sem desnecessárias extensões (barrigas).

A produção foi feita sem nenhum patrocínio, não será
indicada pela protagonista da novela, mas é melhor que todos as últimas
produções da “Globo Filmes” de mãos dadas. O cinéfilo brasileiro
precisa conhecer esse filme (e tantos outros ótimos, que também não recebem a
justa atenção), para valorizar a batalha daqueles artistas que não se rendem às
limitações de uma nação culturalmente medíocre, que ao invés de lhes estender a
mão e protegê-los, ignora-os. Bravo!

RECOMENDAMOS



Viva você também este sonho...

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui