Amor e Lágrimas – “O Balão Branco”

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    O Balão Branco (Badkonake Sefid – 1995)

    Esse é, sem dúvida, um dos filmes mais interessantes da
    década de noventa. Uma verdadeira aula de direção do iraniano Jafar Panahi, que
    consegue nos manter completamente tensos ao contar uma história incrivelmente
    simples. Tudo começa quando a pequena Razieh, vivida pela adorável Aida
    Mohammadkhani, se interessa em comprar um peixinho colorido gordo e bonito que
    viu em uma loja, pois já estava cansada dos peixes magros que tinha aos montes
    em um pequeno lago em sua casa. Sua mãe inicialmente se recusa a fornecer o
    dinheiro para satisfazer seu desejo, porém, após muitas lamúrias e a promessa
    de dar um balão branco a seu irmão, a menina consegue a tão desejada cédula. Só
    que o caminho até a loja se provará uma intensa aventura.

    A decisão de situar a trama em tempo real, durante os
    oitenta minutos restantes para o ano novo, acrescenta um nível de tensão
    crescente. Em pouco tempo, nós realmente nos envolvemos com as agruras da
    menina e nos angustiamos a cada novo obstáculo que se apresenta. O diretor
    demonstra um incrível senso de ritmo, inserindo com inteligência cenas de sutil
    humor, como uma, logo no início, onde vemos a mãe andando por uma conturbada
    rua e pedindo a um vendedor de balões que a informe sobre algo, no que o mesmo
    lhe sinaliza duas direções diferentes, ou quando um jovem soldado tenta fazer
    amizade com a menina, que de início se amedronta. Nesses pequenos momentos,
    Panahi nos apresenta o cenário e seus componentes, que, de início, passam como
    meros figurantes, porém, cada qual em sua própria e fascinante aventura. Ao
    longo do caminho, todos se mostram extremamente funcionais na narrativa. A
    câmera inicialmente foca Razieh e seu irmão, porém, ao final acabará se atendo
    ao jovem vendedor de balões afegão, que, assim como todos no filme, possui
    enorme importância. A câmera poderia se desviar dos protagonistas e seguir
    qualquer personagem, todos garantiriam ótimas histórias.

    Nas mãos de qualquer diretor menos competente, poderia ter
    se tornado uma obra redundante, um insuportável tédio, porém “O Balão Branco”
    nos entretém e nos remete à nossa própria infância. Uma cena em particular
    sempre me comove, quando a menina reclama com o vendedor do peixe, dizendo que
    ele não é robusto como o que ela havia visto na primeira vez, no que o vendedor
    pede que ela o olhe de outro ângulo para vê-lo maior. Ela deixa de olhar por
    cima do vaso e, com um cativante sorriso no rosto, passa a admirar o belo e
    robusto peixe que agora nadava à sua frente, aumentado pela ilusão do vidro.
    Simples e tocante cena que evoca a pura ingenuidade da criança, em um mundo
    dominado pela indiferença dos adultos. Um ser disposto a encarar a vida pela
    ótica da fantasia, superando os obstáculos de uma fase tida, erroneamente, por
    muitos, como puramente divertida.

    Algumas opções do diretor são tão sutis que demonstram o
    zelo de um verdadeiro cineasta autoral. Como quando o pai da menina se irrita
    com o seu pequeno irmão, por ter lhe trazido sabão em vez de shampoo, enquanto
    tomava banho. Mais tarde, o jovem aparece com uma marca de agressão no rosto,
    porém, o roteiro de Abbas Kiarostami não explicita em nenhum momento a causa.
    Ao não subestimar a inteligência do público, o diretor mostra, na prática e sem
    nenhuma pretensão, o que muitos cineastas pretensiosos apenas teorizam.

    Se você não assistiu essa pequena obra-prima iraniana, não
    perca tempo e se encante com a beleza pura, simples e tocante que se encerra
    nos expressivos olhos da pequena Razieh.


    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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