“Falcão – O Campeão dos Campeões”, de Menahem Golan, na LOOKE

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Falcão – O Campeão dos Campeões (Over The Top – 1987)

Lincoln Falcão (Sylvester Stallone) é um caminhoneiro que tenta reconstruir sua vida após a morte da esposa (Susan Blakely). Ele busca se reaproximar do filho de 12 anos, Michael (David Mendenhall), de quem se afastou anos atrás. O garoto não dá muita atenção ao pai, até que Falcão se inscreve em um campeonato nacional de queda de braço, realizado em Las Vegas, e o leva junto na estrada. Mas, o rico e insensível avô (Robert Loggia) do garoto manda seus capangas para acabar com o relacionamento do pai e do filho e exige que o menino seja levado de volta.

Esta pérola do cinema de ação dos anos 80 é usualmente tratada com deboche, mas, em revisão, o projeto do estúdio Cannon se mostra muito eficiente. O roteiro, escrito por Sylvester Stallone e Stirling Silliphant (de “No Calor da Noite”, “Os Dois Mundos de Charly”, “O Destino de Poseidon” e “Inferno na Torre”), consegue operar um pequeno milagre, tornar interessante e emocionalmente relevante uma trama que culmina num torneio de queda de braço. O segredo é apostar no relacionamento conflituoso entre pai e filho, emulando o viés lacrimoso do clássico “O Campeão” (1931 e 1979), com o carisma de Stallone facilitando tremendamente o investimento emocional do público.

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A mensagem da obra é certeira, o mundo que o avô idealiza para o menino representa o terreno da burocracia, dominado pela esperteza, frieza, que transforma homens em máquinas, radicalmente diferente do que o pai pode fornecer, em suma, a essência do sonho americano, a busca instintiva pela superação pessoal, a luta árdua, o valor da autodeterminação no processo de amadurecimento. Lincoln pode dar as ferramentas que o filho precisa para se tornar um homem com brio, mas, para isto, o rapaz precisa abandonar o mimo excessivo, o conforto que não foi conquistado por merecimento.

A trilha sonora é fantástica, as sequências de ação são impactantes, mas o coração da obra está no núcleo familiar. É o que emocionava a garotada na época, o motivo que me fazia rever várias vezes na mesma semana. Eu lembro como se fosse hoje, mas foi no final de 1990 (eu tinha sete anos). Uma quarta-feira (no dia anterior havia passado “Falcão” na “Sessão da Tarde”) nublada em que tive muita dificuldade para levantar da cama, colocar meu uniforme, mochila e ir para a escola. Nunca fui popular na classe, o que invariavelmente era um convite à delinquência infantil por parte de alguns colegas. Mas naquele dia eu estava preparado! Até um boné (que nunca cheguei de fato a usar em outra ocasião) eu havia levado.

Após aqueles dez minutos iniciais de provocações do tipo: “magrelo, quatro-olhos, narigudo”, respirei fundo (em minha mente tocava toda a trilha sonora do filme visto no dia anterior) e desafiei o chefe da matilha (sempre era o mesmo, que hoje deve estar atrás das grades) para uma queda de braço, que obviamente se daria ao final das aulas daquele dia, por volta da hora do almoço. Como Will Kane em seu “High Noon” ou Jerry Mitchell em “Te Pego Lá Fora”, mal conseguia me concentrar no que os professores diziam, pois estava completamente apavorado.

Sentado na segunda fileira, olhava para trás e percebia o olhar ameaçador do meu oponente, que assim como Bob Hurley ansiava me humilhar perante toda a classe (especificamente uns dois ou três que notavam minha presença, pois para a maioria aquela era apenas mais uma quarta-feira). O alarme soou e levantei-me corajoso, já com o boné na cabeça e tendo minha confiança progressivamente elevada, já que a menina que eu gostava demonstrava alguma preocupação com o que iria ocorrer em instantes.

A disputa foi justa, como se houvesse sido realizada na Rua Paulo (de Ferenc Molnar), com direito a torcida e batuques nas mesas. Olhamo-nos olhos nos olhos, instintivamente virei meu boné (o que inspirou certa agitação na minha humilde, mas corajosa torcida) e com “Meet me Half Way” tocando alto em minha mente, senti uma forte dor no braço, enquanto o dorso da minha mão rumava ao toque mortal da gelada madeira da mesa. Eu percebi então que meu oponente não tinha visto o filme, pois não percebeu o meu truque.

Assim como o Stallone havia me ensinado, pressionei os seus dedos o máximo que consegui, girando minha mão por cima da dele, levando o seu pulso a curvar-se para trás. Com uma força que até hoje não sei de onde tirei, venci o combate. Durante algum tempo fiquei livre das provocações e pude curtir meus momentos de herói da semana.

O “magrinho quatro-olhos” havia conquistado uma bela vitória, graças ao Lincoln Falcão, a magia do cinema e a inspiração que dele nasce.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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