“O Exorcista”, um dos melhores filmes de terror de todos os tempos

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O Exorcista (The Exorcist – 1973)

Lembro que li o livro de William Peter Blatty antes de ver o filme, por volta dos meus nove anos de idade. Numa das minhas primeiras visitas a uma bienal do livro (tipo de excursão promovida pela escola onde se contava nos dedos de uma mão o número de alunos interessados em ir), encontrei-o e me recordo que sua capa me chamou muito a atenção. Eram vários olhos enigmáticos, como num caleidoscópio. Como desde muito novo sempre adorei a literatura de horror, “devorei-o” em menos de uma semana. De lá para cá, já reli a obra três vezes, mas sempre me lembrarei de como ela tirou meu sono da primeira vez.

Como estudava em colégio de freiras, adorava passear pelos corredores carregando o “livro ruim” (como as ingênuas freiras chamavam-no, na tentativa de me impedir a leitura) e perceber a comoção que uma simples literatura de qualidade poderia promover naquele lugar. Dentre todos os livros de horror que já li, “O Exorcista” foi, sem dúvida, o mais
apavorante. Não somente pelo tema (que só funcionaria racionalmente com aqueles
que temem o diabo, por conseguinte, acreditam no Deus católico/evangélico), mas
a construção de clima e suspense era algo inigualável. O escritor conseguiu fazer os ateus sentirem medo do diabo.

Ver aquelas páginas transpostas para a tela da televisão em uma sessão da madrugada foi uma experiência inesquecível. A operação que tive de realizar para vê-lo foi digna de um espião britânico, enfrentando a provação de assisti-lo sozinho até o final no breu total. Na
época, estava acostumado com obras de terror que tinham uma aura bem humorada,
como “A Hora do Espanto” e “A Volta dos Mortos Vivos”, mas nada me preparava para aquela experiência séria e adulta, promovida pelo diretor William Friedkin. Aos dez anos, senti como se tivesse entrado escondido em um lugar proibido, vendo coisas que eu não deveria ver.

O grande trunfo deste filme, comparando-o com obras similares modernas, era o comprometimento do diretor com a seriedade (a mesma verossimilitude que inspirou Richard Donner a nos fazer acreditar em “Superman”). A equipe lidou com a história como se estivessem filmando um documentário, transbordando realidade. Foi o próprio escritor que sugeriu a presença de Friedkin na direção, pois conhecia sua postura direta e realista ao transmitir suas ideias. Assim foi com sua obra policial: “Operação França” (The French
Connection – 1971), que de tão real, se permitiu um final nada comum, porém, completamente sintonizado com sua época.

A imagem que fica gravada na retina para sempre é a da jovem Reagan (Linda Blair), porém “O Exorcista” é muito mais do que apenas uma criança possuída pelo demônio. Existe toda uma gama de personagens bem construídos, como o relutante padre Damien Karras (Jason Miller), que descobre estar perdendo sua fé, enquanto assiste o lento e penoso calvário de sua mãe, vendo na jovem sua última chance de redenção. O detetive Kinderman (Lee J. Cobb), um cinéfilo inveterado, que de início parece só se interessar em trabalhar no caso porque a mãe da jovem é uma atriz de relativo sucesso. A mãe é vivida por Ellen Burstyn, numa de suas melhores interpretações. Como se esquecer do problemático diretor Burke Dennings (Jack MacGowran) e do imponente Lancaster Merrin (Max Von Sydow), o padre que dedicou sua vida inteira a procurar seu imortal oponente nos lugares mais inóspitos do mundo, mas surpreso descobre que irá travar sua batalha final no confinamento de um pequeno quarto.

Houve outros exemplares interessantes na mesma época, mas ainda considero “O Exorcista” o melhor filme de terror de todos os tempos. Mesmo não acreditando mais em demônios e possessões, a lembrança de Linda Blair presa numa cama proferindo maldições naquela voz gutural ainda me causa um arrepio na espinha.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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