Holy Motors: Todos Tememos Terminar no Ferro-Velho

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    A obra inicia com uma plateia que dorme, apoiando-se uns aos
    outros, em uma sala de cinema. O diretor Leos Carax caminha (“Le
    Dormeur” – adormecido) em um sonho lúcido, disposto a convidar seu público a
    acompanhá-lo, retirando-os do conformismo, da comodidade. Ao seu lado
    na cama, um cão, reforçando a representação pictórica do sonhador. Ele
    atravessa um portal e adentra na sala de cinema, pela saída de emergência. Uma
    criança dá seus atrapalhados primeiros passos atravessando o corredor, representando
    o despertar da vida, seguida de um cão negro, hellhound, que no folclore guarda
    os portões da morte. Uma vida inteira dedicada a um ideal, algo que o perturba
    e invade seus sonhos. No fundo se trata de uma busca por si mesmo, desafiando a
    mortalidade diariamente, temendo o inevitável, representado no incrível
    desfecho, referenciado no título do texto. Esse início apresenta de forma surrealista,
    o dedo que se transforma em chave, a força motriz do projeto: uma tentativa de
    um diretor apaixonado por seu ofício, de desfazer em duas horas naqueles que o
    assistem, o péssimo costume de se receber da indústria tudo mastigado. Um
    processo que afeta intelectualmente não somente os receptores, como também as
    mentes criativas por trás dos projetos, que acabam se escravizando e limitando
    tremendamente suas potencialidades.

    Somos apresentados então ao protagonista Alex Oscar, nome
    verdadeiro do diretor e anagrama de seu nome artístico, uma incógnita em
    constante mutação, um ator. Sendo transportado pela vida em um luxuoso camarim
    sobre quatro rodas, ele atravessa um longo dia de trabalho, cumprindo vários
    compromissos. Cada evento simboliza um gênero cinematográfico, flertando
    inclusive com as ferramentas que compõem esta arte, como a computação gráfica, simbolizada
    pela utilização da captação de movimentos e a ilusão que cria. Vamos percebendo
    aos poucos que este homem não possui uma identidade. Como Sísifo, está fadado a
    nunca alcançar o cume de sua existência, seu lar, evidenciado pela escolha
    musical que toca na rádio: “… voltar para casa”. Entre um personagem e outro,
    assiste a vida, o caminho à frente na estrada percorrida pela limousine, por
    uma tela de televisão, demonstrando desesperança com a humanidade, algo que se
    tornará evidente em um diálogo posterior. Em dado momento, após representar um
    idoso moribundo, despede-se de sua parceira de cena, agradecendo-a pela troca
    perfeita que ocorre quando dois artistas se entregam de corpo e alma,
    investindo toda sua emoção e técnica, visando entreter desconhecidos. Uma cena
    pequena e com poucas falas, mas que considero uma das mais belas homenagens às
    artes cênicas, captando com perfeição a essência desta vocação.

    Abraçando o terror, revive o personagem “Merde” (de
    “Tokyo!”, de 2008) na primeira sequência genial e que requer um pouco de
    atenção. A trilha apresenta o tema do monstro Godzilla, enquanto o ser
    bizarro de olho vazado e unhas pútridas atravessa um cemitério onde se pode ler
    nas lápides ao invés de nomes: “visite meu website”, em diversas línguas,
    seguido por domínios espirituosos como: tobeornottobe.com (“ser ou
    não ser”, o clássico existencialismo de Hamlet). Eva Mendes vive uma modelo que
    posa para um fotógrafo entre as lápides. O homem repete vidrado: “beleza”.
    Quando percebe “Merde”, esquece a modelo e começa a tirar fotos dele,
    ambicionando uni-los como “bela e fera”. Agindo como Quasimodo, “Merde” carrega
    sua Esmeralda nas costas, adentrando o esgoto e comportando-se como Erik, o
    “Fantasma da Ópera” de Gaston Leroux, com sua Christine. Escondendo a beleza
    dela com tecido, despe-se, nu frontal, e recosta sua cabeça em seu colo,
    jogando pétalas de rosas em seu próprio corpo. A imagem nos remete claramente à
    Pietá de Michelangelo.

    Mais adiante (logo após uma cena em que ele supostamente tem
    sua identidade trocada com a de um homem que foi assassinar/vale salientar que
    todos aqueles que representam conflitos físicos são interpretados pelo próprio
    Denis Lavant, como que simbolizando a gradativa aniquilação do “superego” e a
    supremacia do “id”) ocorre o mais importante diálogo da obra, aquele que
    expressa de forma clara sua crítica à indústria, entre o ator e um enigmático
    homem que se materializa no automóvel. O homem afirma que todos estão
    reclamando do evidente cansaço do ator: “Alguns não estão mais acreditando no
    que estão vendo”. Ele então responde: “Sinto falta das câmeras. Elas eram mais
    pesadas que nós, depois elas ficaram menores que nossas cabeças, mas hoje nem
    dá para vê-las mais. Eu também acho difícil acreditar em tudo isto”. O homem
    complementa afirmando que bandidos não precisam perceber as câmeras de
    segurança, para acreditarem que elas estão lá para flagrá-los no ato criminoso.
    O homem confronta em seu argumento a crença do diretor, representado pelo ator,
    nostalgicamente preso em uma realidade que não existe mais, questionando-o
    sobre a razão que o faz persistir no trabalho, mesmo desmotivado com este
    admirável mundo novo. O ator responde: “Aquilo que me instigou a iniciar nele,
    a beleza inerente à atuação”. Beleza esta que é subjetiva e necessita de
    pessoas interessadas, capazes, em percebê-la, valorizá-la. Sem um público
    qualitativo, criterioso, o soar da salva de palmas representará apenas a
    consequência sonora e mecânica do choque entre duas mãos.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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