John Candy

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    Eu estou em mais uma daquelas madrugadas insones, passeando
    pelositeda minha antiga escola primária, nostalgicamente procurando
    nas fotos atuais, aquelas paredes em que me recostava na hora do recreio. Elas
    continuam lá, mas não são as mesmas. Lutando para conter as lágrimas, fecho os
    olhos e visualizo os corredores que vão além de onde as fotos mostram. O
    silêncio glorioso da madrugada permite que eu viaje para aquele local, chegando
    a sentir os aromas e o frio na barriga que sempre precedia o toque do sinal, a
    rápida arrumação dos livros na mochila e a volta para casa. Imprescindível era
    no caminho, passar pelo jornaleiro que havia a poucos metros da escola e pela
    locadora de vídeos. Havia dias em que a escola era apenas um pretexto para que
    eu pudesse visitar a locadora e passar um bom tempo, lendo e relendo as
    contracapas das fitas, sentindo-me adulto por estar escolhendo quais filmes
    iria locar. Baita responsabilidade.

    O símbolo que representa para mim essa fase é John Candy.
    Houve um mês em que fiz um festival caseiro apenas com seus filmes. Eu já o
    adorava desde quando assisti “Splash – Uma Sereia em minha Vida” aos cinco
    anos. Por mais que o Tom Hanks, na época nem imaginava que ele se tornaria um
    grande nome em Hollywood, transbordasse simpatia e a Daryl Hannah fosse o meu
    ingênuo “sonho de consumo”, até assistir “O Silêncio dos Inocentes” e gamar na
    Jodie Foster, era aquele gordinho simpático que me fazia assistir várias vezes.
    Aos cinco anos eu não sabia discernir a razão, mas algo no ator me fazia
    acreditar que ele era um parente próximo, um amigo. Qualidade cada vez mais
    rara nos artistas fabricados de hoje em dia.

    Não havia internet e o acesso às informações sobre os artistas
    de cinema internacionais eram escassas. Eu me lembro de telefonar para o meu
    avô para ver se conseguia tirar dúvidas a respeito de um ator dos anos cinquenta,
    torcendo para que sua memória me ajudasse. Dentre as poucas revistas temáticas
    da época, me recordo com carinho da minha favorita: “Video News”, que chegou a
    fazer uma reportagem sobre Candy, à época do lançamento de “Quem vê Cara, não
    vê Coração”. Eram poucas informações, fazendo com que ao final da leitura,
    aquele homem ainda fosse um estranho para mim. Filmes como “Aluga-se para o
    Verão”, ou como é chamado hoje: “Temporada de Verão”, e “S.O.S. – Tem um Louco
    solto no Espaço” me falavam mais a respeito dele do que qualquer reportagem.
    Ele não parecia atuar, era como se entre uma fala e outra, piscasse para o
    público, como quem diz: “Vamos! Entre na brincadeira!”

    “Antes só do que Mal Acompanhado” é um dos primeiros filmes
    em que me lembro de ter chorado, o primeiro foi “Ben-Hur”, assistindo na
    televisão aquele final ao som de “Everytime you go Away”. Não sabia quem era
    John Hughes, nem conseguia entender o brilhantismo de sua direção, apenas
    respondia naturalmente ao olhar do personagem de Candy, que refletia
    perfeitamente toda a sua tristeza e saudade, por não poder abraçar sua esposa,
    como seu amigo, vivido por Steve Martin, fazia naquele momento. Terminava o
    filme com o melancólico sorriso dele, a música aumentava de volume e eu me
    debulhava em lágrimas, mesmo tendo passado o filme inteiro gargalhando.
    Acredito que aquele misto de emoções foi o que fez eu me apaixonar pela Sétima
    Arte. Com “Jamaica Abaixo de Zero” eu já era um pré-adolescente, feliz por
    reencontrar aquele velho amigo. A bela história me cativou e as lágrimas
    rolaram mais uma vez, porém as escondia, pois já era um rapazinho. Como é bom
    assistir o filme hoje em dia, sem as tolices da aborrecência, procurando
    desesperado resgatar a pureza da infância.

    Sua morte em 1994, vítima de um ataque do coração, me abalou
    bastante, somente a de Christopher Reeve, vários anos depois, teria o mesmo
    impacto em mim. Apenas com a ascensão da internet é que pude ter contato com a
    sua história de vida, descobrindo feliz que aquela imagem que eu tinha dele era
    fiel à realidade. John Candy era considerado por seus colegas uma pessoa amável
    e genuinamente bondosa. Nunca tinha algo de ruim a dizer sobre ninguém.
    Atencioso com os fãs e bem humorado, chegou a deixar de aceitar papéis em
    filmes apenas para indicar amigos, como aconteceu em “Querida, Encolhi as
    Crianças” e “Os Caça-Fantasmas”, onde acreditava que Rick Moranis seria mais
    qualificado como intérprete.

    A manhã chega, sinto-a atravessar as persianas de minha
    janela, estou terminando de digitar esse texto, com lágrimas já secas no rosto.
    Esta hora, quinze anos atrás, eu estaria me arrumando para ir à escola, aquela
    escola que estava revisitando nosite. Olho ao redor e vejo que meu quarto
    está diferente, não vejo mais minha mochila no chão perto da cama. A parede
    está aqui, posso senti-la, mas não é a mesma, ou talvez seja apenas minha mão
    que aumentou. Olho para minha coleção de DVDs na estante e vejo um amigo a me
    sorrir, convidando-me a voltar no tempo. Acho que irei aceitar seu convite…

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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