“Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola

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Apocalypse Now (1979)

Joseph Conrad iniciou seu estudo sobre Kurtz em “O Coração das Trevas” e Francis Ford Coppola arrematou com sangue em seu “Apocalypse Now”. A experiência de ter lido “O Coração das Trevas” (Heart of Darkness – 1902, editado em três partes no ano de 1899) ainda adolescente, com todos os questionamentos existenciais típicos da época, foi mentalmente acachapante. Era como se o abismo de Nietzsche houvesse olhado dentro
da minha alma e revirado tudo no processo. Somente quando reli a obra, já mais velho, pude realmente captar sua essência.

O Kurtz que antes eu considerava um monstro digno dos piores filmes de terror, agora me soava humano. Cheguei até mesmo a compreender sua jornada, cada vez mais distante da sociedade, prisioneiro cada vez mais de seus próprios delírios de grandeza. A obra onírica
do polonês Joseph Conrad fascina por seu poder de sugestão, nada é explícito. Ao virar da página, o leitor impotente como em um sonho, percebe que a narração de Marlow sobre sua viagem ao Congo e sua busca por Kurtz, torna-se mais enigmática ao passar do tempo. Quando enfim o sol se põe e o manto da escuridão envolve a noite, sua história aprofunda-se como em um pesadelo.

Com “Apocalypse Now”, o diretor Francis Ford Coppola fez uma incrível releitura do clássico livro, mantendo alguns nomes e eventos, mas modificando a sua ambientação. A adaptação do roteiro de John Milius para o desfecho me soou mais eficiente que o do livro. A personalidade de Kurtz é o que me leva a reler (e rever) a obra diversas vezes. Um homem comum, um artista que caça marfim ou um coronel, que se isola no âmago da selva, Congo ou Vietnã, e que progressivamente desata seus laços com a sociedade, abraçando cada vez mais forte a escuridão, seu lado bestial.

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Inteligente e de sensibilidade apurada, em pouco tempo consegue a admiração do povo indígena que o vê como um ser superior. Ele se torna um homem-deus (o übermensch descrito por Nietzsche em “Assim Falou Zarathustra”), cujo temor não se limita apenas aos povoados próximos, atravessando oceanos e tornando-se um mito. Sua presença física só nos é apresentada ao final, mas a sua influência se faz presente em todos os momentos, assim como a “Rebecca” de Hitchcock, ou a “Laura” de Otto Preminger, guardadas as
devidas proporções.

Marlon Brando estava fora de forma na época, desleixo que o acompanharia até o fim da vida, o que fez com que Coppola modificasse um elemento importante do livro, mostrando-o apenas de relance, sempre envolto em sombras. E vale destacar o trabalho fundamental do diretor de fotografia, o mestre italiano Vittorio Storaro, que abusa de simbolismos visuais, captando a essência daquele cenário, como se “enxergado” pelos olhos doentios de Kurtz. Sinceramente acredito que este obstáculo foi uma bênção, pois não somente ajudou na construção de clima, como também provou ser uma forma coerente de expressar o distúrbio psicológico do personagem, sem a necessidade de muitos diálogos.

A sequência mais famosa, a invasão do esquadrão de helicópteros norte-americanos, bombardeando (psicológica e literalmente) a vila vietnamita ao som da “Cavalgada das Valquírias”, de Wagner, ferramenta teatralizada que o personagem de Robert Duvall, o sargento Kilgore, utiliza nas missões, ativa no espectador sensorialmente o mesmo estímulo primitivo que move os soldados em cena, a glorificação (em tom crítico) da guerra. A ideia de que é necessário um artifício externo para que o indivíduo seja capaz de negar sua humanidade e abraçar a selvageria.

Eu recomendo a todos que leiam o livro antes de ver o filme, como em uma “sessão dupla”, para intensificar o impacto da experiência.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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