Kung-Fu Fighting: “Arrebentando em Nova Iorque” e “O Dragão Chinês”

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Introdução

Bruce Lee foi o causador do fenômeno que levou o gênero para o ocidente no início da década de setenta, porém, as artes marciais no cinema vão muito além do pequeno dragão. Seu prematuro falecimento e o desespero por abastecer o interesse de fãs do mundo inteiro, levou a indústria oriental a buscar um substituto. O carisma inigualável de Lee tentou ser emulado por nomes “originais” como “Bruce Liu”, “Bruce Le” e “Bruce Leung”, mas os astros que conseguiram despontar para o mercado internacional eram os que apresentavam algum diferencial. Jackie Chan, Sonny Chiba, Bolo Yeung, Jim Kelly, Sammo Hung, Donnie Yen, Chang Cheh (diretor), Michelle Yeoh, Jet Li, Chuck Norris, Angela Mao, Lau Kar-leung (diretor), Jean-Claude Van Damme, Cynthia Rothrock, Steven Seagal, Jason Statham e Tony Jaa, são alguns que estarão presentes neste especial, onde irei listar meus filmes favoritos, sem ordem de preferência, nesse gênero ainda muito subestimado.

Tudo começou com as Óperas de Pequim, o tradicional teatro chinês que combinava acrobacia, dança e mímica. O cinema de artes marciais foi constituído em seu início por vários artistas de teatro, desempregados após o enfraquecimento do interesse do público, por volta das décadas de quarenta e cinquenta. A jovem indústria cinematográfica de Hong
Kong acolhia esses profissionais e emulava em suas produções o uso vibrante das cores, inclusive nas maquiagens, e o tom operístico dos dramas. Antes de Bruce Lee, o grande herói chinês era Wong Fei Hung, personagem real na história do país, homenageado em várias obras, como o clássico “The Drunken Master”, com Jackie Chan, vivido por Kwan Tak Hing em uma longa série de filmes.

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Arrebentando em Nova Iorque (Hong Faan Kui – 1995)

Jackie interpreta Keung, um policial de Hong Kong que viaja à NY para ajudar seu tio num mercado do Bronx. Lá descobre que o tio vai se casar e vender o mercado para uma bela moça chamada Elaine (Anita Mui). Assim que a jovem compra o mercado, uma gangue
invade a loja e rouba alguns produtos. Sentindo-se responsável, Keung fica por ali para ajudá-la. De repente, ele se vê envolvido num grande roubo de diamantes.

Inicialmente vendido equivocadamente como um substituto de Bruce Lee (em filmes como “New Fist of Fury”), Jackie Chan somente conseguiu atrair a atenção do público, quando percebeu que seu talento residia em ser radicalmente oposto ao mitológico pequeno dragão. Enquanto Lee recebia um soco e, com olhar ameaçador, lambia seu próprio sangue, Chan denunciava a dor que sentia em caretas engraçadas. Esta atitude não fazia dele um oponente menos desafiador, mas o humanizava. Apaixonado pela arte de Buster Keaton e Charles Chaplin, ele buscava repetir em cena as acrobacias de seus ídolos. Combinando lutas muito bem coreografadas, um senso de humor cativante e peripécias extremamente perigosas, suas produções são inimitáveis.

O melhor trabalho para apresentá-lo aos não-iniciados é “Arrebentando em Nova Iorque”, o
projeto que o transformou em um astro internacional. Todos os elementos funcionam, desde a ação que vai progressivamente aumentando em escala, passando pelo senso de humor (impagável o momento onde Chan conhece a nova namorada de seu tio), até as incríveis acrobacias (especialmente aquelas que envolvem um hovercraft no centro da cidade). O protagonista já não é mais aquele garoto da década de setenta, mas ainda mantinha o porte atlético que não demandava a assistência de dublês ou “truques” (seus filmes pós-“A Hora do Rush” padecem deste mal necessário). A utilização tradicional dos
acidentes e erros, em uma divertida montagem nos créditos finais potencializa ainda mais a beleza desta arte. Existe algo mais belo que um artista desafiar a morte repetidas vezes, quebrando-se todo no processo, apenas para concluir uma cena? Com certeza é mais apaixonante que admirar um galã americano sair de seu trailer com ar-condicionado, respingar água em seu rosto e completar uma cena de ação em chroma-key.

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O Dragão Chinês (Tang Shan da Xiong – 1971)

Cheng (Bruce Lee) encontra trabalho em uma fábrica de gelo, porém, este é um negócio que serve de fachada para uma terrível atividade secreta, o tráfico de drogas. Após vários
trabalhadores serem mortos ao descobrirem a verdade, o enfurecido Cheng coloca de lado a sua promessa de nunca mais usar seus punhos, enfrentando o patrão e seus capangas.

Este foi o primeiro filme de Bruce Lee que eu vi, em minha fase exploratória pré-adolescente, após ler muito sobre ele. A trama ajudou muito na criação da catarse que ocorre no terceiro ato, pois passei o tempo todo torcendo para que ele desferisse um
soco. Respeitando a promessa de que nunca seria consumido pela violência, o protagonista é repetidamente alvo de deboche, demonstrando em seu rosto a raiva se acumulando. Como espectador, estava querendo ver aquela lenda em ação. Você sente aquela energia contida nos punhos dele, enquanto todo tipo de desgraça ocorre ao redor, envolvendo todos por quem nutre carinho. Quando ele então é levado ao seu limite, prova para o mundo sua incrível habilidade. Após o melancólico final, eu estava pronto para conhecer todos os seus filmes, boquiaberto com o que havia acabado de assistir.

“O Dragão Chinês” é o mais fraco dos filmes que fez para a “Golden Harvest”, mas acredito
que seja a melhor introdução para aqueles que buscam entender o mito que envolve o astro.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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