Sábio Silêncio – Parte 7

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    Griffith aguardou sua face retornar à cor normal, para
    gargalhar de meu quase desfalecimento em sua frente. Eu lentamente procurava
    disfarçar o pavor sentido minutos antes, enquanto levava ao rosto meu lenço
    azul-escuro e secava a água que meu corpo expulsava, provavelmente de raiva por
    minha desastrada atitude. O diretor, que aparentava estar alcoolizado, falou em
    tom jocoso:

    – Rapaz, eu irei me encontrar com Charlie amanhã, pois
    precisamos assinar alguns papéis. A Mary falou que você é um admirador dele,
    quer me acompanhar até lá? – a primeira coisa que pensei foi na sagacidade
    daquela mulher.

    – Claro, Sr. Griffith, será uma honra.

    – Então temos um encontro amanhã por volta do meio-dia,
    aqui neste mesmo lugar. Meu motorista irá levá-lo até o nosso encontro no
    escritório. Agora tenho que lhe avisar de algo muito importante: o Charlie não
    aprecia de forma alguma os tons frios: verde, azul, entende? Para causar uma
    boa impressão, vá vestido de vermelho. Compreendeu? – Eu afirmei com
    segurança enquanto apertava a mão dele, que me deixou e seguiu em direção ao
    outro lado do salão.

    ***

    images1 - Sábio Silêncio - Parte 7

    Eu não conseguia acreditar na minha sorte, iria encontrar-me
    comCharlesChaplinno escritório da “United Artists” (estúdio
    que havia sido fundado no ano anterior, por D.W. Griffith, Charles Chaplin,
    Mary Pickford e Douglas Fairbanks). Na realidade acabei descobrindo que o
    tal escritório não era exatamente como imaginava. As reuniões entre os membros
    do estúdio eram realizadas normalmente na “Pickfair”, luxuosa residência (cinquenta
    e seis acres) de Douglas Fairbanks e Mary Pickford na Califórnia. Ser convidado
    para a mansão do casal era um certificado vitalício de aceitação social em
    Hollywood. Os acontecimentos não estavam seguindo meu plano, que consistia em
    iniciar como figurante em uma produção de Harold Lloyd, fazendo-me perceber
    mais uma vez que a vida segue seu curso e a providência trabalha de forma
    misteriosa.

    ***

    No dia seguinte eu aguardava na frente doLincoln
    Theatre, calçando um sapato vinho com paletó e calça no melhor tom de vermelho
    que consegui encontrar. O automóvel estacionou à minha frente no horário marcado
    e eu me senti aliviado por ser comandado por um motorista silencioso, pois
    conseguiria deixar minha mente trabalhando enquanto admirava a paisagem. Ao
    descobrir o destino, eu me lembrei de todas as histórias contadas sobre
    aquele mítico local, ponto de encontro de grandes personalidades comoAlbert
    Einstein,Franklin Roosevelt,Greta Garbo,H.G. Wells,Arthur
    Conan Doylee tantos outros. Será que me convidariam para ficar e
    apreciar o jantar? Será que naquele dia haveria alguma festa? Será que aquele
    chamado não havia sido o inconsequente ato de um bêbado e nem deixariam eu entrar na residência? Todos os tipos de questionamentos passavam em minha mente
    enquanto o automóvel seguia seu caminho em um início de tarde ensolarado.

    ***

    Havia chegado o momento, a porta do automóvel aberta e
    aguardando minha passagem. Griffith recepcionou-me com um largo sorriso, escondido
    na sombra que seu chapéu fornecia.

    – Fez boa viagem? A Mary me falou bastante sobre você,
    inclusive que pretende iniciar uma companhia teatral. – Eu admirava cada vez
    mais a inteligência daquela mulher. Ela realmente manipulava com extrema
    perícia os homens. Não seria o tipo de pessoa que gostaria de ter como inimiga.
    Ela havia criado todo um enredo, que não somente facilitaria minha entrada na
    sociedade, como também me colocava em uma posição de destaque como empreendedor.
    Genial! Eu esperava ter a possibilidade de agradecê-la um dia.

    – Fiz ótima viagem. Realmente estou com esta ideia fixa de
    investir no ramo artístico, teatro e cinema. Admiro o trabalho dos gênios desta
    arte, como você e Chaplin… – visivelmente incomodado com a minha rasgação de
    seda, o homem interrompeu meu tremendo improviso com um gesto de mão indicando
    uma quadra de tênis alguns metros adiante.

    – Por falar no baixinho, parece que ainda está praticando
    tênis com Dougie. Venha comigo, irei apresentá-lo… – meus olhos afetados
    pela luz do sol lutavam para acreditar na imagem que se apresentava à minha frente: Charles Chaplin e Douglas Fairbanks disputavam animadamente uma partida
    de tênis, assistidos de perto por Mary Pickford, que parecia torcer contra seu
    marido, causando gargalhadas no eterno vagabundo.

    Pausando a partida, Charlie veio na direção de Griffith com
    olhar zombeteiro, enquanto Fairbanks não conseguia conter o riso ao admirar
    aquele garoto e seu vermelho vibrante. Eu estava tão nervoso que sequer percebi que
    era alvo de uma brincadeira dos amigos. Charlie abraçou Griffith e, olhando de
    lado para mim, exclamou debochadamente:

    – Querido professor, você não fez isto de novo. Deixe-me
    adivinhar: Chaplin adora vermelho, certo? – e virando-se para mim, com sua
    raquete branca servindo para coçar as costas, a história viva do cinema se
    apresentou sorridente:

    – Por favor, perdoe meu amigo. Prazer em conhecê-lo.
    Charles Chaplin.

    Continua…

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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