Sábio Silêncio – Parte 9

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    Diário

    13 de Janeiro – 1920 – Tarde

    Aproveitei que Chaplin estava próximo e visivelmente
    descontraído, para abordá-lo com mais informalidade. Eu queria registrar uma
    entrevista com aquele gênio, mas não sabia se conseguiria manter a atenção dele
    por mais que alguns minutos, então eu tive que ser bastante objetivo. Chamei
    sua atenção e, para minha surpresa, ele já me conduziu pelo braço para dentro
    da casa. Ele era tímido, mas extremamente atencioso, quando percebia que estava
    falando com alguém minimamente interessado em seu trabalho, não em se
    aproveitar de sua fama para outros interesses. Notei que ele tinha paranoia com
    relação a oportunistas (principalmente do sexo feminino), algo que ele deixou
    transparecer em algumas das conversas que presenciei ao longo daquele dia. Passamos
    pela elegante escadaria curva de corrimão negro e sentamos num belo sofá ao
    lado de uma aconchegante lareira, descansando os pés no confortável apoiador.
    Apoiando a cabeça no braço direito, que se estendia pela parte de cima do sofá,
    sentado sobre a perna esquerda cruzada, Chaplin parecia uma criança, o que
    contrastava com a roupa formal que estava vestindo. Sem ele perceber, liguei o
    gravador e comecei a conversa:

    – Você imaginou que chegaria tão longe, Charlie? – ele sorria
    e já meneava uma negativa com a cabeça, antes mesmo de eu terminar a sentença.

    – Eu estou até agora esperando a herança da minha tia-avó,
    sonhando com a riqueza e a glória que ela pretensamente irá me trazer. –
    percebendo que não captei a piada, ele continuou em tom mais sério. – Quando o
    empresário de Fred Karno me mostrou um telegrama dos donos da New York Motion
    Picture Company, eu me enganei achando que eram alguns advogados me procurando
    por conta da minha tia-avó Elizabeth Wiggins, que achei que tivesse morrido e
    me deixado uma boa herança. Aquilo iria me salvar naquele momento. Na verdade,
    acabou me salvando, pois eles estavam me chamando para trabalhar para a
    Keystone, substituindo Ford Sterling. Sennett já havia falado comigo quando eu
    me apresentava nos teatros, mas nunca iria imaginar que um dia acabaria trabalhando pra ele. Em uma semana estava passando fome, na outra estava
    recebendo 150 dólares. Incrível, não?

    – Mas você se imaginava fazendo sucesso nos filmes, ou visualizava
    apenas os palcos?

    – Eu tinha certeza que a exposição nos filmes iria ajudar
    minha carreira nos palcos. Tentei durante um período, antes de ser contratado
    pela Keystone, comprar os direitos de todos os esquetes de Karno, para filmá-los.
    Eu não via potencial nenhum na Keystone, pelo material que eu assistia. Era uma
    comédia muito simplista, repetitiva, gravada com rapidez, sem o polimento que
    eu considerava essencial. No entanto, eles eram ótimos na publicidade dos seus
    produtos. Algo que acabei me tornando. Talvez, com alguns meses lá, poderia
    voltar para o Vaudeville como um nome conhecido mundialmente. Essa era minha
    ambição quando assinei o contrato. Hoje existem pessoas que trabalham imitando
    o que faço, como Billy West.

    – E você não se irrita com ele ganhar dinheiro copiando você?

    – Ele imita o “vagabundo”, não Chaplin. Se ele me imitasse,
    ficaria muito irritado. O “vagabundo” não é meu, mas do mundo. Por mais que eu
    me esforce muito para que ele se apaixone por mim (risos), ele é do povo. E o
    West faz um ótimo trabalho, ou fazia, pois acho que ele está buscando agora
    novos caminhos em seus projetos. E, além do mais, ganhar dinheiro com Arte é
    sempre válido. Eu nunca impediria isso. Eu mesmo iniciei fortemente
    influenciado pelo francês Max Linder, de quem tive a honra de ser colega durante
    minha passagem pelos Estúdios Essanay, uns três anos atrás.

    Senti que sua atenção começava a se desviar para a conversa
    que Fairbanks estava conduzindo do lado de fora da casa, então disparei a
    última pergunta:

    – Como você teve a ideia pro “vagabundo”?

    Ele se ajeitou no sofá. Dava pra ver a responsabilidade que
    ele sentia por esse personagem. Aquela criança havia se transformado
    subitamente em um empresário:

    – Foi bem no início, em um dos filmes que fiz com Mabel
    Normand. Eu comecei mal no meu primeiro trabalho pra Keystone. Pensei que não
    teria outra chance, até que ela me indicou para esse filme dela. Eu entrei na
    última hora e fiz o que o diretor mandou. Sennett me disse para colocar alguma
    maquiagem e fazer o melhor que eu pudesse. Eu tinha odiado minha caracterização
    no anterior, então eu busquei equilibrar contradições (risos), com sapatos
    enormes contrastando com um chapéu pequeno. Calças largas demais, contrastando
    com um colete bem apertado. O bigode iria me fazer parecer um pouco mais velho,
    mas não caricato demais. Quando me olhei no espelho vestido como o “vagabundo”,
    foi como se eu já conhecesse aquela pessoa, foi realmente mágico. A recepção
    nas gravações foi tão calorosa, que Sennett acabou me colocando pra aparecer em
    quase todas as cenas. Na semana seguinte, filmamos “Corrida de Automóveis para
    Meninos” e o resto você já sabe (risos). Peço sua licença para me reencontrar
    com a luz do sol, antes que ele se despeça de nós.

    E ele se levantou com mesura, deixando sentado no sofá um
    jovem muito sortudo. Se aquela noite fosse 10% como aquela breve conversa,
    seria fantástico…

    Continua…


    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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