Os Melhores Filmes do Ano – 2013

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1 – A Caça (Jagten), de Thomas Vinterberg

Escolhendo revisitar o tema de seu primeiro filme: “Festa de Família”, mas sem a estética crua, Vinterberg abraça o potencial emocional de um protagonista cuja inocência nos é apresentada de início. A bela fotografia de Charlotte Bruus Christensen auxilia ao emoldurar o cair das folhas de outono (inclusive como metáfora, simbolizando o crepúsculo
de um homem oprimido), sendo complementada pela excelente interpretação de Mads
Mikkelsen, que foge de sua zona de conforto, oferecendo um retrato humano e passional.O diretor nunca apela para o óbvio, enaltecendo mártires e pintando com tintas fortes os vilões, pois prefere mostrar todos como seres humanos falíveis e propensos a escolhas erradas. O leitmotiv da confiança é explorado até o brilhante desfecho, onde o roteiro ainda inclui uma poderosa crítica social e religiosa. O simples benefício da dúvida já seria o suficiente para auxiliar no processo angustiante em que o protagonista se vê vitimado, mas
a mensagem que o filme aborda é cruel em sua veracidade: a sociedade (desde o início dos tempos) sempre está propensa ao apedrejamento coletivo, algo que requer menos argumentação que a árdua tarefa de tentar enxergar a flor no lodo…

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2 – Amor (Amour), de Michael Haneke

O ato de desaparecer, minguar sereno em direção ao grande desconhecido, sentindo cada vez mais pesada a luz cálida do amanhecer, por sabê-la representar a incontestável evidência de que mais uma noite terminou. Como se preparar para exercitar este desapego pessoal? Aquela complexa máquina que sempre agia em harmonia com seus desejos, quando menos se espera, começa a desaprender dia após dia um antigo hábito. A inefável sensação de impotência perante as coisas mais simples, como afugentar um pombo que
adentra por uma janela, torna as noites cada vez mais bucólicas. Até o momento em que você não distingue mais a noite do dia, o real do imaginário, sobrando apenas o amor. Quando não se distingue mais o amor da indiferença, Haneke direciona seus personagens para uma conclusão inesquecível, o supremo ato de quem verdadeiramente ama: desapegar…

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3 – Gravidade (Gravity), de Alfonso Cuarón

Alfonso Cuarón é um dos melhores diretores da atualidade, conseguindo criar uma trama minimalista em um projeto de gênero e essencialmente industrial, unindo ousadia técnica (mérito da fotografia de Emmanuel Lubezki e dos efeitos especiais de Timothy Webber) com grande senso de ritmo. Uma das poucas obras atuais que são feitas imprescindivelmente para a experiência na sala de cinema, já que sua dimensão e a consequente imersão no cenário são prejudicadas em uma tela pequena. O roteiro acerta ao deixar claro que o protagonista é o vazio do espaço sideral (assim como o deserto em “O Deserto dos Tártaros”, de Zurlini), ainda que Sandra Bullock entregue uma interpretação verossímil, provavelmente a melhor de sua carreira. O suspense faz grudar nossos olhos na tela, mas é o subtexto de solidão e sacrifício que se manterá na lembrança, dias após a sessão…

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4 – Django Livre (Django Unchained), de Quentin Tarantino

Tarantino é um apaixonado pela arte. Como todo apaixonado, ele acumula em sua memória afetiva cinematográfica, inúmeras referências de diversos gêneros e épocas. Seus filmes resultam da união jazzística de várias emoções que marcaram sua infância e juventude, sem interesse pela opinião dos profissionais que analisam friamente. Esta é a
melhor forma de entender o trabalho do diretor e analisá-lo: afinar seu clarinete e buscar acompanhá-lo em sua divertida blowing session, valendo-se apenas de seu instinto. O estofo cultural (não somente cinematográfico) que o diretor utiliza em suas referências, desde a utilização da lenda alemã “O Anel dos Nibelungos” (de onde se retira o nome da jovem vivida por Kerry Washington) até quando cita a pouco comentada ascendência negra do escritor Alexandre Dumas (de “O Conde de Monte Cristo”), como ferramenta de discurso de um personagem ao combater o racismo de outro, demonstram um zelo raro em seu ofício…

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5 – Antes da Meia-Noite (Before Midnight), de Richard Linklater

A opção de emoldurá-los na Grécia, com suas ruínas e histórico teatral, não poderia ser mais ideologicamente coerente. Enquanto os dois primeiros lidavam com o jogo de flerte e o romantismo idealizado da juventude, neste ocorre o choque de realidade tão poucas vezes abordado pela indústria (mais interessada em acordes de violino que incitem lágrimas), com os personagens propondo uma discussão racional e anti-romântica sobre o desgaste emocional nas relações humanas. O que o público recebe é tão corajoso, que me
remeteu a alguns trabalhos no tema realizados por Ingmar Bergman. Aqueles diálogos divertidos, onde um tentava sutilmente impressionar o outro, são substituídos por uma argumentação séria e profunda (extremamente bem escrita). O tempo, elemento essencial nos filmes anteriores, continua atuando contra os personagens, porém (numa inversão sensacional) desta vez dando-lhes total liberdade. Você se surpreende em dados momentos, por perceber que aquele relacionamento cinematográfico que você sonhava que ocorresse após o fade out, acabou se tornando um realista espelho de nossas fragilidades. Como um conto de fadas que se torna assustadoramente real…

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6 – Os Suspeitos (Prisoners), de Denis Villeneuve

O diretor escolhe deixar bastante claro nos primeiros três minutos, o leitmotiv (a eficiência de sua execução é mérito do roteiro preciso de Aaron Guzikowski) que irá reger a exploração moral dos personagens que são colocados no limite. Todos, de certa forma, são prisioneiros (poderiam ter mantido o título original) de um código de conduta que será colocado à prova. Iniciando com a oração do Pai Nosso emoldurando o abate de um cervo,
seguido pela utilização da canção gospel “Put your hand in the hand” na trilha sonora e finalizando ao apresentar a personagem da mãe e da filha, através do vidro embaçado do carro, focando no crucifixo que se balança no retrovisor. Estamos diante de uma fábula que instiga profundos questionamentos morais, ainda que exista ação suficiente nele para entreter os menos interessados. Existe um pouco de “Sobre Meninos e Lobos” e muito de “Seven”, mas a longa duração pode entediar aqueles que irão assistir pensando se tratar de um “primo elegante” de “Busca Implacável”. O filme vai além do que as estruturas
limitantes do gênero costumam suportar. Quão longe nós seríamos capazes de ir,
contra nossas crenças?…

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7 – O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho

Sem o interesse simplório de buscar chocar o público, o roteiro (escrito pelo diretor) aborda os contrastes sociais e humanos em núcleos de personagens muito bem definidos, com o inteligente suporte do som (mérito de Pablo Lamar, num conceito já estabelecido no primeiro plano-sequência em um parque), ferramenta normalmente subutilizada em nosso
cinema. Outro problema comum que não encontramos no projeto é o desnível nas atuações. Todos (protagonistas e coadjuvantes, mas vale ressaltar a competência de Irandhir Santos e Gustavo Jahn) na mesma sintonia, como se utilizassem o mesmo método, facilitando assim a imersão do público, que acredita em cada frase dita. A estrutura de divisão em três atos não fragmenta, mas, sim, enriquece o discurso de Kleber, conduzindo para um desfecho que satisfaz e respeita o investimento emocional e racional do espectador…

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8 – Blue Jasmine, de Woody Allen

Desde Hannah e Suas Irmãs, Woody Allen não compunha uma personagem feminina com tamanha paixão pelos detalhes, sem abraçar a sempre confortável caricatura de extremos. Completamente antenado com o mundo de hoje, o roteiro estabelece uma jovial e mordaz sátira social abordando distinção de classes em um panorama pós-crise econômica. Allen abdica conscientemente de algumas de suas características narrativas, como sua entrega ao sentimentalismo, em prol de uma construção de diálogos mais corajosos, que não
poupam seus personagens em nenhum momento. A generosidade com suas criações
nunca foi o forte do diretor, mas o sadismo ideológico dessa vez se assemelha em vários momentos à forma como o escritor Tennessee Williams escolhia abordar suas tramas. Existe algo de R.W. Fassbinder, na forma como ele dedilha a tragédia da protagonista. Ele brinca com as nossas percepções no momento em que começamos a nos convencer de como o seu personagem irá agir, o que nos leva a automaticamente exercer um julgamento moral. O roteiro então nos acerta um murro “com luva de pelica”, ao nos fazer perceber que somos tão (ou mais) vulneráveis quanto o potencial alvo de nossas pedras. Afinal, testemunhamos as várias “Jasmines” que existem em nossa sociedade, aspirando apenas o “ter” (agregar valor à futilidade), vivendo de uma ilusão lânguida que corrompe as melhores virtudes humanas…

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9 – Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d’Adèle), de Abdellatif Kechiche

Diferente de Emma, que é uma artista independente que se nutre da liberdade para a realização de seu trabalho, Adèle é uma simples menina tímida e reprimida por uma sociedade machista, com objetivos de vida inofensivos e que não necessitam do elemento da ousadia. O atrito sexual desses dois polos tão díspares resulta em uma fascinante explosão de cumplicidade, com corpos que se exploram vorazmente, analisada pela câmera voyeur com interesse antropológico. E o relacionamento transcorre de maneira realística, sem se esquivar dos problemas que ocorrem em qualquer relação de intimidade, evitando
um erro cometido em vários projetos de temática similar, onde promovem a celebração do amor homossexual como algo melhor (uma vertente do que Spike Lee faz com relação aos negros, por exemplo, lutando pela exaltação da diferença ao invés da homogeneização). Inserindo na discussão o conceito existencialista de Jean-Paul Sartre, o objetivo principal dessa excelente obra fica claro: apontar a hipocrisia que leva o público a se chocar com as cenas de amor, enquanto se mostram indiferentes à brutal estupidez da homofobia…

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10 – Invocação do Mal (The Conjuring), de James Wan

Com uma classificação etária que afirma ser um produto amedrontador demais para os adolescentes, mesmo sem nenhum elemento de horror explícito, os produtores ganharam um presente. Não existe melhor chamariz para um adolescente, que querer impedi-lo de assistir algo. O mais interessante é que não se trata de pura jogada de marketing, já que o resultado final é realmente tenso na imersão que provoca. O diretor executa sua arte à moda antiga, mas com convicção poucas vezes igualada nos similares recentes. Sem
apelar para o “gore” excessivo, ele cria cenas que arrepiam os pelos na nuca do cinéfilo acostumado com o gênero. A fotografia de John R. Leonetti induz você a encarar a escuridão de um ambiente pelo tempo suficiente de, mesmo sabendo o que está por vir, desejar não estar com os olhos abertos para ver. Numa época em que o terror está nas mãos incompetentes de industriais que abusam de CGI e com pouca criatividade, esse projeto satisfaz pela simplicidade em sua condução…

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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