A importância da elegância na sala de cinema

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Ver um filme no cinema hoje é como visitar a área de símios em um zoológico. Eles ficam pulando nas grades, aparentam desinteresse e nunca se sabe quando algum irá atirar em você um montinho de estrume. Ao invés das grades, confortáveis poltronas reclináveis, que aparentam eletrocutar caso o espectador se mantenha sentado por alguns minutos em sequência. O desinteresse é latente, pois as luzes dos celulares se acendem nos momentos mais importantes do filme. Levando em consideração a maneira como jovens e adultos se comportam, e pela quantidade de lixo que deixam em sua passagem (ainda que cestas de lixo sejam facilmente perceptíveis), temos que agradecer por não pisarmos em estrume
enquanto procuramos nossas poltronas no escuro.

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O que leva alguém a checar suas mensagens inbox no Facebook, exatamente no clímax do filme que pagaram (caro) para assistir? Não dá para suportar duas horas sem internet?

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A cada sessão, mais me asseguro de que aqueles pobres coitados estão naquele ambiente por obrigação da empresa em que trabalham. Somente isso explica o aparente ódio que sentem pelo simples ato de ver as imagens que são projetadas à frente. As cabeças quase nunca estão mirando a grande tela, entretidas em conversas paralelas ou constantes checagens no celular. E o pior: no exato segundo em que o filme termina (ou quando ele
parece que terminou), eles se levantam correndo, como se nenhuma emoção tivessem investido naquelas horas. Como o cinema é uma Arte de pura emoção, eles só podem ter entrado por engano.

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Se você é um Avatar de quase 3 metros de altura, sente-se com um mínimo de consideração pelo miserável azarado que se sentou na poltrona atrás de você. Quer se orgulhar de seu gigantismo, jogue basquete, pois lá esta condição será muito útil. Aquele que não consegue se colocar na pele do outro, sentando-se como um rei em seu trono, sabendo que está bloqueando a visão de alguém, dificilmente irá ter a sensibilidade
necessária para usufruir plenamente daquela experiência.

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Caso queira levar seu filho pequeno para uma sessão com temática adulta, assegure-se de que educou bem a criança. A responsabilidade, por incrível que pareça para você, é toda sua.

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Adolescentes que entram em grupo me apavoram sobremaneira. Eles vão tropeçando em suas línguas, enquanto internamente rezo para que subitamente descubram que estão na sala errada. Quando se aproximam, fico analisando o ambiente, procurando uma rota de fuga. Já me despeço da expectativa de que terei alguma mínima imersão naquele entretenimento, lamentando o valor que paguei no ingresso. Penso apenas nos pais daqueles ogros, na vergonha que eu sentiria se estivesse no lugar de quem os recebe em
casa ao final do dia. Será que é tão difícil entender que sala de cinema não é um simulador de parque de diversões ou um estádio de futebol?

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A cena está atingindo seu ponto mais emocionante, meus olhos começam a ficar marejados e aquela bela trilha sonora retorna em toda sua glória… E uma adolescente berra (repito: berra) alguma palavra que simboliza uma piada interna entre seus coleguinhas, que começam a gargalhar em uníssono. Uma maldita piada interna. Esta acéfala sabia que ninguém dentro daquela sala iria rir daquela piada, mas isso não a impediu de destruir implacavelmente a imersão emocional de todos. Nenhuma reclamação posterior traria de volta o sentimento daquele momento.

Alguns esboçam reação e pedem silêncio, mas a adolescente ainda se acha no direito de mandar todo mundo calar a boca e pedir para deixarem de ser chatos. E sua galerinha infernal ainda incentiva sua ignorância, vaiando (repito: vaiando) o restante dos espectadores. O que me desanima é pensar que aquele comportamento deve ser comum para eles em vários ambientes, como na escola e até dentro de casa.

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Com o acesso dos jovens ao cinema via streaming e download, tinha a esperança de que estes deselegantes abandonassem a sala de cinema, deixando-a para aqueles que
realmente estão interessados e respeitam a arte. Infelizmente, parece que o elemento motivador é exatamente o desafio infantil de atrapalharem a diversão alheia, aliado à certeza de que não haverá reprimenda alguma. Mais ou menos como em suas casas.

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O que leva alguém a se sentar na poltrona errada, quando o número dela consta no bilhete? Não me refiro ao engano perdoável, mas ao ato de má fé. A pessoa compra uma poltrona em um local x, mas ao entrar na sala, descobre que sua localização não agrada. E para agravar ainda mais a situação, quando é descoberta em seu erro, ela se acha no direito de reclamar e tentar humilhar você na frente dos outros, ressaltando sua “arrogância”: “O cinema não é seu, sabia?”, “Você comprou o cinema, é?”. Aquele exemplar de espermatozoide desperdiçado não consegue entender que você pagou por aquela poltrona. E quer escutar o pior? Os adultos são os que cometem esta incrível deselegância. Provavelmente, os pais daqueles jovens citados anteriormente.

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Um fenômeno sintomático: pergunte aos espectadores, seus colegas de sala, ao final da sessão, qual era o tema do filme que acabaram de ver. Você irá perceber que, mais da metade, sequer estava pensando no filme enquanto o assistia. Era apenas um passatempo, um local confortável, escurinho e com ar-condicionado, para poderem checar seus e-mails em paz.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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