Elegância na Sala de Cinema

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    Assistir um filme no cinema hoje é como visitar a área de
    símios em um zoológico. Eles ficam pulando nas grades, aparentam desinteresse e
    nunca se sabe quando algum irá atirar em você um montinho de estrume. Ao invés das
    grades, confortáveis poltronas reclináveis, que aparentam eletrocutar caso o
    espectador se mantenha sentado por alguns minutos em sequência. O desinteresse
    é latente, pois as luzes dos celulares se acendem nos momentos mais importantes
    do filme. Levando em consideração a maneira como jovens e adultos se comportam,
    e pela quantidade de lixo que deixam em sua passagem (ainda que cestas de lixo
    sejam facilmente perceptíveis), temos que agradecer por não pisarmos em estrume
    enquanto procuramos nossas poltronas no escuro.

    ***

    O que leva alguém a checar suas
    mensagensinboxnoFacebook, exatamente no clímax do filme que
    pagaram (caro) para assistir? Não dá para suportar duas horas
    seminternet?

    ***

    A cada sessão, mais me asseguro de que aqueles pobres
    coitados estão naquele ambiente por obrigação da empresa em que trabalham.
    Somente isso explica o aparente ódio que sentem pelo simples ato de assistir as
    imagens que são projetadas à frente. As cabeças quase nunca estão mirando a
    grande tela, entretidas em conversas paralelas ou constantes checagens no
    celular. E o pior: no exato segundo em que o filme termina (ou quando ele
    parece que terminou), eles se levantam correndo, como se nenhuma emoção
    tivessem investido naquelas horas. Como o cinema é uma Arte de pura emoção,
    eles só podem ter entrado por engano.

    ***

    Se você é umAvatarde quase 3 metros de altura,
    sente-se com um mínimo de consideração pelo miserável azarado que se sentou na
    poltrona atrás de você. Quer se orgulhar de seu gigantismo, jogue basquete,
    pois lá esta condição irá lhe ser muito útil. Aquele que não consegue se
    colocar na “pele” do outro, sentando-se como um rei em seu trono, sabendo que
    está bloqueando a visão de alguém, dificilmente irá ter a sensibilidade
    necessária para usufruir plenamente daquela experiência.

    ***

    Caso queira levar seu filho pequeno para uma sessão com
    temática adulta, assegure-se de que educou bem a criança. A responsabilidade,
    por incrível que pareça para você, é toda sua.

    ***

    Adolescentes que entram em grupo me apavoram sobremaneira.
    Eles vão tropeçando em suas línguas, enquanto internamente rezo para que
    subitamente descubram que estão na sala errada. Quando se aproximam, fico
    analisando o ambiente, procurando uma rota de fuga. Já me despeço da
    expectativa de que terei alguma mínima imersão naquele entretenimento,
    lamentando o valor que paguei no ingresso. Penso apenas nos pais daqueles
    ogros, na vergonha que eu sentiria se estivesse no lugar de quem os recebe em
    casa ao final do dia. Será que é tão difícil entender que sala de cinema não é
    um simulador de parque de diversões ou um estádio de futebol?

    ***

    A cena está atingindo seu ponto mais emocionante, meus olhos
    começam a ficar marejados e aquela bela trilha sonora retorna em toda sua
    glória… E uma adolescente berra (repito: berra) alguma palavra que simboliza
    uma piada interna entre seus coleguinhas, que começam a gargalhar em uníssono.
    Uma maldita piada interna. Esta acéfala sabia que ninguém dentro daquela sala
    iria rir daquela piada, mas isso não a impediu de destruir implacavelmente a
    imersão emocional de todos. Nenhuma reclamação posterior traria de volta o
    sentimento daquele momento. Alguns esboçam reação e pedem silêncio, mas a
    adolescente ainda se acha no direito de mandar todo mundo calar a boca e pedir
    para deixarem de ser chatos. E sua galerinha infernal ainda incentiva sua
    ignorância, vaiando (repito: vaiando) o restante dos espectadores. O que me
    desanima é pensar que aquele comportamento deve ser comum para eles em vários
    ambientes, como na escola e até dentro de casa.

    ***

    Com o acesso dos jovens ao cinema (ilegal)
    viastreamingedownload, tinha a esperança de que estes
    deselegantes abandonassem a sala de cinema, deixando-a para aqueles que
    realmente estão interessados e respeitam a Arte. Infelizmente, parece que o
    elemento motivador é exatamente o desafio infantil de atrapalharem a diversão
    alheia, aliado à certeza de que não haverá reprimenda alguma. Mais ou menos
    como em suas casas.

    ***

    O que leva alguém a se sentar na poltrona errada, quando o
    número dela consta no bilhete? Não me refiro ao engano perdoável, mas ao ato de
    má fé. A pessoa compra uma poltrona em um local “x”, mas ao entrar na sala,
    descobre que sua localização não lhe agrada. E para agravar ainda mais a
    situação, quando é descoberta em seu erro, ela se acha no direito de reclamar e
    tentar humilhar você na frente dos outros, ressaltando sua “arrogância”: “O
    cinema não é seu, sabia?”, “Você comprou o cinema, é?”. Aquele exemplar de
    espermatozoide desperdiçado não consegue entender que você pagou por aquela
    poltrona. E quer escutar o pior? Os adultos são os que cometem esta incrível
    deselegância. Provavelmente, os pais daqueles jovens citados anteriormente.

    ***

    Um fenômeno sintomático: pergunte aos espectadores, seus
    colegas de sala, ao final da sessão, qual era o tema do filme que acabaram de
    assistir. Você irá perceber que, mais da metade, sequer estava pensando no
    filme enquanto o assistia. Era apenas um “passatempo”, um local confortável,
    escurinho e com ar-condicionado, para poderem checar seus e-mails em paz.


    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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