“A Pele Que Habito”, de Pedro Almodóvar

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A Pele Que Habito (La Piel que Habito – 2011)

O filme já se inicia evidenciando a “gaiola” em que o personagem (Elena Anaya) vive. Na primeira vez que o vimos, a câmera flerta com a imagem desfocada dele, antes mesmo do nome de Almodóvar aparecer, enquanto negras grades aparecem em foco. Um detalhe que não dura sequer quatro segundos em cena, porém de extrema importância, denotando assim o esmero técnico da produção. Ainda nos primeiros minutos da obra, a câmera nos apresenta sutilmente o livro que ele recebe, e que aparecerá lendo em outros momentos, como forma de tornar-se a “mulher” idealizada por seu criador.

A escritora escolhida: Alice Munro, famosa pela forma como aborda as ambiguidades
humanas, unindo com eficiência o “lugar comum” e o “fantástico”, mas sempre com leveza. Mais adiante na trama, veremos que o personagem também lê sobre o trabalho de Louise Bourgeouis, famosa artista plástica, que o inspira a realizar artesanais esculturas ao longo do filme e o salva de seu destino trágico, como descrito pelo próprio diretor nos créditos finais. Detalhes que não subestimam a inteligência do público, muito pelo contrário, dependem da cultura geral daquele que o assiste.

Aos três minutos, Almodóvar já estabelece o essencial que precisamos saber sobre o personagem: vive aprisionado, interior e exteriormente, sob o olhar atento de alguém, a
câmera na parede do quarto, que parece querer “modelá-lo” a seu bel prazer. Ainda nas cenas iniciais, o personagem procura algo em seu guarda-roupa e podemos ver vários vestidos rasgados, denotando algum tipo de revolta. Claro que o público, que começa a ver “desarmado”, percebe esse “truque” apenas ao revisitar a obra, mas esse exemplo mostra como a sétima arte é rica em minúcias, quando existe um cineasta competente no comando.

Quando o personagem vivido por Antonio Banderas adentra sua mansão, ocorre algo imperceptível aos olhos do cinéfilo menos atento: ele se encaminha para o quarto da vítima, mas rapidamente rejeita tal escolha, analogamente uma rejeição à sua condição natural, e segue para o quarto ao lado, onde continua a espioná-lo pela câmera. Outro exemplo de que nada é por acaso em obras de qualidade: a câmera segue a mão de Banderas, que pega um controle remoto num criado-mudo. O momento dura frações de segundo, mas ao lado do controle encontra-se um livro coerente à abordagem do diretor: “O Gene Egoísta” de Richard Dawkins, que apresenta uma teoria que explica a evolução das espécies na perspectiva do gene e não do organismo, renovando o Darwinismo,
que vê os genes como simples veículos através dos quais os organismos se reproduzem.

Pouco tempo depois, o protagonista busca terminar com seu tormento, porém é salvo na última hora por seu criador. A câmera então focaliza em fortes arranhões no busto, como numa tentativa de extirpar com sangue aqueles símbolos femininos de seu corpo. Após a agressão sofrida nas mãos do homem vestido de tigre, seu criador chega a cogitar matá-lo, mas no último instante atira apenas no criminoso e corre para abraçar sua criação. Este evento é o divisor de águas na relação dos dois. Aos seus olhos, não existe mais “Vicente”, mas sim a resistente pele que ele habitava: “Vera”.

Almodóvar deixa implícito que o personagem de Banderas era um homossexual vivendo uma vida de aparências, com esposa e filha, pois se entrega ao amor com sua criação, enquanto “Vicente” prova-se um heterossexual, que apenas aceita o relacionamento amoroso com ele, como forma de engendrar uma possível fuga. Ele evita em todos os momentos consumar a relação, mostrando-se nitidamente desconfortável. Almodóvar demonstra sua genialidade ao construir esses dois personagens: o homossexual Robert (Banderas), com todas as características masculinas, enquanto o heterossexual Vicente (Jan Cornet/Elena Anaya), com um emprego visto pela sociedade como típico de mulheres.

Na visão do cineasta, assumidamente homossexual, nossa identidade sexual é ditada geneticamente, independente da “pele” que habitamos. A última fala da obra cristaliza todo o leitmotiv trabalhado, quando o protagonista consegue fugir de sua “gaiola” exterior e interior, ao reencontrar sua mãe e afirmar a ela e a si mesmo: “Eu sou Vicente”.

Estes são apenas alguns dos muitos detalhes a serem analisados neste filme, que melhora a cada revisão. Esta interpretação é apenas uma das várias possíveis, o que evidencia o brilhantismo de Pedro Almodóvar.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

1 COMENTÁRIO

  1. Almodóvar é um diretor que já assisti à quase todos os filmes. “A Pele que habito”, na minha muito humilde opinião, é um filme superestimado. Não vejo as pessoas falarem de “Abraços partidos”, ou “Tudo sobre minha mãe”, que são consideravelmente melhores.

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