Rocky – Um Lutador


Rocky – Um Lutador (1976)
Rocky é muito mais que lutas coreografadas em um ringue.
Trata-se do sonho de Sylvester Stallone transmitido aos quatro cantos do mundo, sua
história refletida em cada pessoa que assiste. Rocky somos todos nós. O público
que assiste e pensa tratar-se de uma apologia da violência gratuita ou um
incentivo para que todos comecem a cultivar excessivamente o próprio corpo e se
interessar por boxe, não poderia estar mais enganado com relação às intenções de seu criador.
O jovem ator tinha em sua mente, desde o princípio, toda a saga desse pobre
sujeito que nunca havia conquistado nada em sua vida. Inculto e complexado, ele
trabalhava como cobrador para um agiota local e, mesmo sem muita técnica, lutava boxe por uns
trocados. A sua atitude tranquila no dia a dia comprova que a opção de lutar
não era uma pretensão genuína, mas sim uma fuga de uma vida real ordinária.
Durante alguns minutos, ele tornava-se importante e poderoso, mesmo em ringues
pouco iluminados e para uma plateia de bêbados e frustrados. Seu coração
encontrava consolo na timidez doentia de uma atendente de pet shop, que
por alguns momentos lhe dava atenção, agindo quase como uma psicóloga, sem
preocupar-se com suas origens. Sua grande oportunidade aparece quando o campeão
de boxe, refinado e irônico decide dar oportunidade a um lutador regional de
disputar seu título, em comemoração ao bicentenário dos Estados Unidos. Por
puro acaso, ajudado por sua descendência italiana e apelido curioso: “O
Garanhão Italiano”, o jovem é o escolhido para o evento. Seria ele capaz de
aguentar um round inteiro contra o campeão mundial? As estatísticas
mais esperançosas afirmavam que ele não suportaria sequer dois rounds. Daquele
momento em diante, iniciava sua batalha interior, muito mais violenta que a
exterior nos ringues, onde ele teria que provar a si mesmo que seria capaz de
ficar de pé, apanhando duramente, mas mantendo-se consciente até o final. Ele
sabe que não tem o talento necessário, que não possui estrutura física e mental
para acompanhar as estratégias do oponente, porém, sua dignidade irá guiá-lo até
o soar do gongo final. Não importa o resultado. Caso consiga se manter de pé ao final, saberá que sua vida vale alguma coisa,
que é alguém. Ao final da luta, não interessava se havia se sagrado
vencedor, empatado ou perdido, pois a maior vitória ele já havia conquistado: a
confiança em si mesmo e o amor da mulher de sua vida.

Com esse roteiro simples e genial em mãos, o jovem bateu de
porta em porta procurando um estúdio que se arriscasse em promover o produto de
um novato. Os produtores Robert Chartoff e Irwin Winkler adoraram a ideia e já
imaginaram no papel principal alguns astros de renome, como James Caan e Robert
Redford, porém o jovem disse que só venderia o roteiro se o deixassem
protagonizá-lo. O acordo foi feito mediante a obrigação de manter os custos de
produção abaixo da média. Logo, juntaram-se ao elenco Talia Shire (Adrian),
Carl Weathers (Apollo), Burt Young (Paulie) e Burgess Meredith (Mickey),
formando assim um núcleo perfeito onde a camaradagem era uma constante, o que
possibilitou a realização de várias continuações. Com o auxílio de uma trilha
sonora perfeita de Bill Conti e uma direção competente de John G. Avildsen, O filme foi um sucesso popular sem precedentes, com plateias que
se emocionavam com o romance dos protagonistas e vibravam com a luta final,
como se estivessem assistindo um desafio profissional no Madison Square Garden.
A realidade é que a verba incrivelmente reduzida ajudou na criação de várias
cenas que entraram para a história, como o treino do protagonista e sua
simbólica escalada final na escadaria do Museu de Arte da Filadélfia. A
analogia é clara, o treino só finaliza quando o personagem consegue chegar ao
topo, sem se cansar. Quase uma subida aos céus, antes de descer ao inferno da
luta.
O filme que nenhum estúdio queria, sagrou-se o campeão do
Oscar de melhor produção do ano. Stallone tornou-se um sobrenome facilmente
reconhecível no mundo todo e havia recebido permissão para a realização de uma
continuação, agora acumulando as funções de ator, roteirista e diretor. Muitos
afirmam que não existem méritos nas continuações da saga, porém discordo
veementemente. O que existe é uma tentativa deliberada de críticos
pseudointelectuais de menosprezar qualquer coisa que seja popular demais. Rocky
não é popularesco, simplista, ele apenas possui uma maneira de transmitir sua
mensagem de forma direta e eficaz, de fácil entendimento. O fascínio popular do
personagem vai além dos filmes, suas músicas tocam até hoje, seu tema virou
sinônimo do esporte.

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