Sétima Arte em Cenas – “À Queima-Roupa”

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    Link para os textos do especial:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/7-arte-em-cenas.html

    À Queima-Roupa (Point Blank – 1967)

    Após um assalto, Walker é baleado e deixado para morrer por
    seu amigo Reese e por sua própria esposa, que é amante de Reese. Eles ficam
    ainda com a parte do golpe que cabia a Walker, US$ 93.000. Meses depois, Walker
    decide se vingar e recuperar o seu dinheiro.

    É interessante contextualizar de forma resumida o filme em
    sua época, para entendermos melhor sua importância. Os estúdios de cinema já
    estavam perdendo terreno para a comodidade do entretenimento televisivo desde a
    década de cinquenta, fazendo com que eles apostassem cada vez mais em
    espetáculos grandiosos coloridos, épicos bíblicos e musicais. Já em meados da
    década de sessenta, esse recurso começou a dar mostras de desgaste, com o
    fracasso de “Cleópatra” sendo o símbolo da queda desse império. O mercado americano
    então se abriu para jovens cineastas dispostos a correrem riscos, antenados com
    os produtos que vinham do exterior, com obras tematicamente mais ousadas e
    estruturalmente libertárias, como os trabalhos de Godard e Antonioni. E 1967
    foi um ano decisivo nessa transformação, com “À Queima-Roupa” sendo um dos
    símbolos maiores dessa mudança radical de atitude.

    O diretor inglês John Boorman bebeu generosamente da fonte
    da Nouvelle Vague para compor sua trama, adaptada livremente de “The Hunter”,
    escrita por Richard Stark (pseudônimo de Donald Westlake). O escritor havia
    imaginado Jack Palance como a opção perfeita para viver o protagonista, mas
    teceu muitos elogios à atuação de Lee Marvin. Como o estúdio não estava
    interessado em realizar uma série de filmes, por contrato os produtores não
    poderiam utilizar o nome do personagem principal do livro, então “Parker” virou
    “Walker”. O livro é bastante simples, típica literatura pulp de segundo escalão,
    mas a adaptação tornou-se uma obra-prima em seu gênero, mérito do estilo com
    que Boorman abordou a sisífica narrativa, reinventando o Noir e revelando uma
    camada de interpretação onde podemos acreditar que estamos assistindo os passos
    de um fantasma em um conto de vingança, abusando do uso expressionista das
    cores e de uma montagem elíptica, criando cenas incríveis como a que citarei no
    próximo parágrafo.

    Essa cena totalmente antinatural, que dura pouco mais de um
    minuto, serve para mostrar a onipresença desse fantasma, como ele caminha em uma
    espécie de dimensão paralela, imperturbável e focado em seu objetivo. Ele já
    possui a informação que procurava e sua caçada já está em andamento. A montagem
    transforma uma linha de roteiro, uma simples caminhada dele até o apartamento,
    em algo épico. Ele é mostrado andando em um longo corredor, com o som dos seus
    passos tendo importância essencial, como um metrônomo psicológico não-diegético
    que persiste enquanto são mostradas tomadas do cotidiano apático de sua traidora
    esposa, como um tratamento de pele que é multiplicado por espelhos. Walker não
    é apenas um homem em busca de vingança, ele se torna uma entidade, algo quase
    sobrenatural. Nesse momento, a trilha sonora de Johnny Mandel começa a ser
    escutada, como se acompanhasse jazzisticamente o ritmo dos passos, que se
    tornam parte da música, escutados até mesmo quando o personagem é mostrado
    dirigindo seu automóvel. Os passos dão lugar a uma sinfonia de tiros, quando
    ele finalmente atinge seu objetivo, seguidos então pelo completo silêncio. O
    protagonista é mostrado como alguém tão perigoso dentro da narrativa, que consegue,
    metaforicamente, até mesmo controlar a linguagem da obra em que está inserido.

    *O filme está sendo lançado em DVD, numa versão restaurada, pela distribuidora “Versátil”.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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