“Até o Fim”, de J.C. Chandor

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    Até o Fim (All is Lost – 2013)

    É espantosa a precisão de J.C. Chandor, responsável pelo roteiro e direção, ao narrar essa batalha do homem contra as forças da natureza. Tendo passado por uma experiência quase fatal na adolescência, quando conseguiu se desprender das ferragens de seu carro, após uma forte colisão, ele constrói nesse filme uma fascinante parábola sobre a fragilidade da mortalidade, sobre a beleza triste de um homem que lamenta sua própria morte. Seu trabalho anterior, o excelente “Margin Call – O Dia Antes do Fim”, já demonstrava a força autoral do cineasta, mas nada indicava que ele seria audacioso a ponto de, em seu segundo projeto, desconstruir a estrutura de um subgênero e abordá-lo de forma nova. Inicialmente, temos uma introdução convencional narrada pelo protagonista, mas ainda nos primeiros minutos percebemos que estamos pisando em um terreno novo.

    Ponto essencial de ruptura: Não precisamos nos conectar emocionalmente com o personagem. O roteiro não perde tempo em flashbacks idílicos, sequer introduz dicas consideráveis sobre a vida do homem de quem não sabemos o nome (Robert Redford). A Virginia Jean que dá nome ao barco pode ser sua esposa, sua mãe, sua filha ou ninguém em especial, não importa. O anel em seu dedo pode ser uma aliança, como também pode não simbolizar coisa alguma. Com exceção da narração no início, que pode ser direcionada a alguém ou à sua própria consciência, o filme praticamente é todo estruturado em silêncio. Cada espectador irá criar sua própria história sobre o homem e suas motivações.

    É lindo que, até mesmo o tom espiritualista que o coloca como metáfora do encontro humano com sua própria finitude, não seja estimulado por nenhuma manipulação imagética (como nas obras de Terrence Malick), mas nasça espontaneamente nas análises daqueles que possuam internamente essa disposição. Aprendemos a admirar sua incrível resiliência perante provações cada vez mais estafantes, tecnicamente emolduradas pela eficiente trilha sonora de Alex Ebert, com o diretor exibindo competência ao aproveitar-se da clássica estrutura do suspense, alternando entre a angustiante antecipação (mérito para a atuação de Redford, que convence de perigos que não estamos necessariamente testemunhando) e a eventual resolução, com breves momentos lúdicos esporádicos para recuperarmos o fôlego. É um erro “ler” o filme com os olhos da razão, buscando verossimilitude nas atitudes do personagem ou perdendo tempo tentando decifrar seu histórico. Assim como o recente “As Aventuras de Pi”, trata-se de uma grande alegoria travestida de conto de sobrevivência.

    Não existe o elemento da outridade, clichê em qualquer obra similar. Até mesmo Ernest Hemingway presenteou o seu Santiago com um espadarte que lhe serviu de confidente silencioso. O homem que acompanhamos não interage ou interdepende de ninguém. Ele apenas existe a partir do outro, nesse caso, o espectador. No horizonte se insinua cada vez mais ameaçadora uma devastadora tempestade, que aniquilaria facilmente o barco mais resistente, um destino inevitável, como a morte. O barco de nosso Sísifo fica cada vez mais desgastado, após cada obstáculo superado, mas existe alguma força inexplicável que, contra todas as probabilidades, mantém o homem acreditando que aquele “corpo” irá resistir. Numa analogia ao “O Velho e o Mar”, o homem é o peixe, restando ao final apenas a alma. Apenas?

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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