Cine Noir – Um Lance no Escuro

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    Link para os textos do especial:
    http://www.devotudoaocinema.com.br/2014/08/cine-noir-amar-foi-minha-ruina.html
     
    Um Lance no Escuro (Night Moves – 1975)
    O detetive particular Harry Moseby é contratado por uma
    atriz decadente de Hollywood, vivida por Janet Ward, para investigar o
    desaparecimento de sua filha, que teria fugido para a Flórida. Ele vai atrás da
    moça para tentar trazê-la de volta, e acaba descobrindo uma série de histórias
    mal explicadas.

    Alguns podem se lembrar do filme pelos excelentes diálogos do roteiro de Alan
    Sharp, como a esperta utilização do assassinato de Kennedy como argumento em
    uma discussão, ou a definição dada pelo protagonista para as obras do diretor
    francês Eric Rohmer: “Seus filmes são como assistir a tinta secando na parede”,
    enquanto outros nunca irão se esquecer da sensualidade de uma ninfeta Melanie
    Griffith, mas o maior mérito do filme, possivelmente o melhor na carreira de
    Arthur Penn, foi ajudar a revitalizar o Noir em sua essência mais
    desconcertante, com uma trama tão confusa quanto a do clássico “À Beira do
    Abismo”, apresentando um detetive, vivido impecavelmente por Gene Hackman, que
    se mostra incapaz de compreender o escopo da sórdida armadilha em que está se metendo.

    O ator, que possui a qualidade de transmitir uma fragilidade facilmente
    identificável, deixa transparecer gradativamente em sua postura corporal a dor
    que acomete seu personagem. Ele decide se tornar um detetive para evitar
    analisar a si próprio, evitar se encarar no espelho, passando então a
    investigar detalhes da vida dos outros, compensando profissionalmente a triste
    constatação de ser miseravelmente culpado pelas mazelas em sua vida, como a
    traição de sua esposa, vivida por Susan Clark. A angústia do gênero encaixou
    perfeitamente nos anseios do público desiludido americano pós-Watergate, uma
    crueza que é captada pela lente da fotografia realisticamente brutal de Bruce
    Surtees, responsável por Dirty Harry e Lenny, realizando milagres com o baixo orçamento.

    A metáfora visual que define o filme, a última cena, brilhantemente finaliza o
    arco narrativo do personagem, que, assim como nós, aceita estar totalmente
    desorientado. Essa é a beleza das tramas dos melhores Noir, inserir o
    protagonista em um cenário tão corrupto e lamacento, desprovido de virtudes,
    que a possibilidade da morte acaba se tornando a mais acalentadora, exatamente
    por trazer com ela a liberdade.

    * O filme está sendo lançado, em versão restaurada, pela distribuidora Versátil,
    com um making of de nove minutos. 

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    Octavio Caruso
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