“O Mestre”, de Paul Thomas Anderson

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O Mestre (The Master – 2012)

Paul Thomas Anderson requisita de seu público, algo mais que sua atenção por algumas horas. Assistir “O Mestre” sem prévio conhecimento, mesmo que básico, sobre o tema que o influenciou, prejudica a experiência. O personagem, vivido brilhantemente por Philip Seymour Hoffman, é inspirado no controverso escritor L. Ron Hubbard, criador de boas obras de ficção científica, como “Campo de Batalha: Terra”, mas lembrado sempre
pelo seu legado mais questionável: a cientologia, uma crença que envolve o conceito de reencarnação, hipnose e, extraoficialmente, trambicagem, seus seguidores acreditam em vidas passadas de até sessenta trilhões de anos, inclusive assinam contratos válidos para até um bilhão de anos de serviço. No roteiro original, o nome da esposa do personagem era Mary Sue, o mesmo da esposa de Hubbard, mas acabou sendo trocado para Peggy. Algumas passagens do roteiro causaram a ira do praticante da cientologia: Tom Cruise, amigo do diretor, com quem realizou: “Magnólia”, como a frase proferida pelo
filho do carismático líder, enquanto escutava o pai em seus sermões: “ele vai inventando, improvisando, todo o seu discurso”.

Todo o elenco entrega atuações inspiradas e precisas. Amy Adams talvez seja a que menos se destaca, porém faz o mais difícil: ser o esteio emocional de um mentiroso profissional, sem aparentar submissão, que seria o mais óbvio. Como o roteiro é trabalhado em sutilezas, naquilo que não é dito, sua reação à chegada do personagem de Joaquin Phoenix, um inconsequente em um ninho de previsíveis, se alterna entre a necessidade de apoiar seu marido e o medo ao perceber que aquele homem pode ter despertado no líder algo mais que amizade. Qualquer atriz não tão competente reduziria a personagem a um arremedo de estereótipos.

Phoenix, em uma atuação impecável, vive um homem das cavernas, agarrado aos instintos mais primitivos do ser humano. Conseguimos ler o que se passa em sua mente, por trás de cada risada debochada e fora de hora, conseguimos prever o que o move em cada ação intempestiva. Excessivamente sexualizado, vide a cena com a mulher de areia e o teste Roschach, serve como contraponto ao mestre (Hoffman), que inibe seus impulsos sexuais, conduzindo à cena mais impactante, com Amy Adams. Alcoólatra, ele carrega em seu corpo o peso de suas decisões, numa caracterização assustadora, a tristeza por ter deixado a única menina que amou. Talvez a tristeza maior tenha sido ele reconhecer internamente a existência de tal sentimento. O mestre então busca dessensibiliza-lo com o processo de testes que o levarão a integrar “A Causa”. O aspecto mais interessante na caracterização do mestre, talvez seja a forma como ele reage “dentro e fora” de seu personagem. Quando confrontado por elementos exteriores, a polícia, por exemplo, ele se mantém no controle, assustadoramente calmo e resiliente. Quando confrontado por pessoas envolvidas em sua seita, ele se mostra incapaz de formular qualquer tipo de argumento.

O que pode afastar boa parte do público é o desinteresse de Anderson em mastigar o desfecho, entregando resoluções que podem soar inconclusivas. O foco está no personagem de Phoenix, o que pode frustrar aqueles que buscavam aprofundamento na relação entre o mestre e sua crença. O filme não aponta o dedo em deboche, apenas mostra uma realidade, cada vez mais comum, inclusive no Brasil, que, de tão extremista e absurda, não precisaria de qualquer crítica. Bastaria o bom senso.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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