Razzle Dazzle – “Dirty Dancing”

    0

    Links para os textos do especial:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/criticas_14.html

    Dirty Dancing – Ritmo Quente (Dirty Dancing – 1987)

    É curioso perceber que a crítica especializada foi bastante
    hostil com o filme em sua estreia, o saudoso Roger Ebert chegou a dar cotação
    mínima, elogiando apenas a criatividade do título. O fato é que, passados 27
    anos, ele ainda garante altos índices de audiência em suas frequentes
    exibições, fazendo parte do universo pop, com suas cenas sendo representadas em
    festas de casamento ao redor do mundo. Existe algo de especial nele que atrai
    pessoas de todas as classes sociais, algum elemento que faz com que o público
    se interesse em repetir diversas vezes a mesma experiência. Esse fator mágico
    que evidencia a negação do cinema como equação matemática, onde o conceito subjetivo
    de perfeição pode comportar uma soma de defeitos.

    O diretor Emile Ardolino, que só alcançaria o gosto do público
    novamente cinco anos depois, com a comédia de Whoopi Goldberg: “Mudança de
    Hábito”, era especialista em documentários sobre o mundo da dança, tendo lutado
    para provar à roteirista Eleanor Bergstein que, mesmo sem um projeto de ficção
    no currículo, seria capaz de dirigir aquela obra, inspirada em eventos reais
    ocorridos na juventude da escritora. A coreografia, essencial por ser parte da
    narrativa em um musical, foi elaborada por Kenny Ortega, discípulo de Gene
    Kelly. A opção por dançarinos que soubessem atuar foi crucial no resultado
    final, fazendo com que nenhum momento soasse forçado, artificial. Por trás da trama aparentemente simples e usual nos chamados
    “chick flicks”, uma adolescente sempre colocada pra escanteio e que encontra
    sua voz ao lado de um rapaz mais velho, existe um subtexto que poucos discutem.
    Quando se analisa mais profundamente, costuma ser abordada a questão óbvia do
    feminismo, mas quase nunca é citada a referência ao livro “A Nascente”, de Ayn
    Rand. Uma cena muito rápida, onde o arrogante garçom que engravida a dançarina
    (Cynthia Rhodes), que considerava uma classe inferior, se recusa a ajudar, entregando
    o livro para Baby (Jennifer Grey), como sugestão de leitura, afirmando que “algumas
    pessoas importam, outras não”.

    O livro celebra o Objetivismo, os esforços de gênios
    criativos que conduzem suas vidas focadas completamente nos seus objetivos
    profissionais. A necessidade de precisar recusar ceder a qualquer impulso que tire
    o indivíduo de sua trilha, para que eventualmente obtenha sucesso pleno
    profissional e felicidade pessoal. O garçom estava tomando de forma torta a
    filosofia do livro para defender seus atos, considerando-se uma versão do
    protagonista Howard Roark, já que até mesmo o estupro deveria ser desculpado
    quando perpetrado por um indivíduo extraordinário. A desorientada irmã de Baby, aquela a quem ele realmente
    intencionava sugerir o livro, deveria, em seu ponto de vista, encontrar
    identificação com as personagens femininas das páginas, perdoando seu impulso
    sexual e considerando-se privilegiada por ser desejada. Mas Baby se ofende com
    a indicação literária, atacando-o agressivamente, ameaçando até causar sua
    demissão caso ele se aproximasse de sua irmã. Esse é o momento em que ela, sem
    ajuda de ninguém, existencialmente “sai do escanteio”, muito antes do clássico
    desfecho, onde é convocada por Johnny (Patrick Swayze) para o palco.

    Ela já demonstra força de caráter desde o
    início, conquistando o respeito de Johnny com sua reação ao erro na primeira
    dança, quando estava se adaptando apressadamente a uma coreografia que
    pertencia a uma dançarina profissional, aquela que havia sido violentada e
    necessitava do dinheiro para o aborto, um tema que o filme aborda de forma
    corajosa para sua época. Ao invés de colocar tudo a perder, ela improvisa um
    passo esquisito, mas funcional, sem medo da vergonha. Diferente do que muitos
    pensam ao terminar o filme, não se trata da história de uma patinha feia, Baby tinha
    consciência de que era um cisne desde o início. A simbologia da cena em que ele
    a levanta no ar é interpretada usualmente de forma machista. Não se trata do
    príncipe encantado que escolheu salvar a dama em apuros. Johnny é quem aprende
    e amadurece, sendo salvo e inspirado pela integridade de caráter da jovem. Ele
    a levanta no ar como forma simbólica de salientar a grandeza da personagem,
    acima de todos os comuns. Ao final da dança, Swayze sublinha o trecho da canção
    que explicita sua gratidão: “And i owe it all to you” (e eu devo tudo a você).

    RECOMENDAMOS


    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

    DEIXE UMA RESPOSTA

    Please enter your comment!
    Please enter your name here