Sétima Arte em Cenas – “O Garoto”

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    Link para os textos do especial:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/7-arte-em-cenas.html

    O Garoto (The Kid – 1921)

    O pecado da mulher, vivida por Edna Purviance, havia sido a
    parentalidade irresponsável, que Chaplin simboliza pela sobreposição da imagem
    do sacrifício de Cristo, carregando sua cruz montanha acima, numa espécie de
    paralelo com o mito de Sísifo. A cruz da mulher é o bebê. Sua solidão, evidenciada
    num intertítulo, encontra ressonância na cena seguinte, que mostra o pai do
    bebê, um homem que não se importa em resgatar do fogo a foto dela, evidenciando
    que o relacionamento não era alicerçado no amor e no companheirismo. A mulher
    já estava sozinha antes mesmo de ter o bebê. Ao deixar sua cruz no automóvel de
    uma família rica, a angústia que sente é sublinhada pela beleza da trilha
    sonora composta pelo próprio Chaplin.

    Quando o vagabundo aparece, por volta dos cinco minutos, reconhecemos
    nele uma versão adulta daquele bebê, um cavalheiro que foi despejado da
    sociedade, um fardo a ser perseguido pelas autoridades policiais, um órfão
    existencial cuja nobreza se esconde por trás dos trapos. Nada mais lúdico que o
    encontro entre esses dois elementos, que se alternam na posição de pai e filho
    em vários momentos, como quando o garoto prepara o café da manhã, desperte a
    ira da sociedade que os abortou, representada na clássica cena em que as
    autoridades do orfanato tentam separar os dois. Corajosamente o roteiro critica
    o conceito de “cuidados apropriados”, quando, na realidade, o garoto seria
    levado para um local onde deixaria de ser um indivíduo, passando a ser uma
    estatística social.

    O equilíbrio entre as cenas cômicas e aquelas que
    desenvolvem a trama é perfeito. É perceptível o cuidado do diretor com cada
    sequência desse seu primeiro filho artístico. Quando a mulher é mostrada em ato
    de caridade com os meninos da rua, devolvendo alegremente para a sociedade a
    sorte que a fez mudar radicalmente de vida, sendo agora uma artista famosa, o
    roteiro presenteia sua gratidão com aquilo que ela mais desejava: o reencontro
    com seu filho, ainda que ela não tivesse essa informação. O rosto de Jackie
    Coogan, admirando aquela estranha, é capaz de partir o coração do mais frio dos
    homens. É tocante a forma como ele, sabendo que a mulher já está distante e não
    o observa, acena uma melancólica despedida. O garoto se despedindo
    inconscientemente daquela doce ilusão que viveu por alguns segundos.

    O momento em que o vagabundo corre por sobre os telhados das
    casas, perseguindo o veículo que conduz o garoto ao orfanato, culmina numa das
    cenas mais bonitas em sua filmografia, o beijo na boca do menino, o lúdico gesto
    absoluto de amor em seu próprio reflexo no espelho.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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