“Amor Bandido”, de Jeff Nichols

Amor Bandido (Mud – 2012)
Existe algo de Mark Twain e Charles Dickens nesse conto sobre maturidade, envolvendo dois adolescentes, vividos por Tye Sheridan e Jacob Lofland, e um misterioso fugitivo da justiça (Matthew McConaughey). Na direção, Jeff Nichols, de “O Abrigo”, mantém sua característica autoral de utilizar generosamente os elementos da natureza como simbolismo para reforçar sua mensagem, que é potencializada pela excelente fotografia de Adam Stone, que captura a beleza turva do Mississippi. 
Quando Ellis, Sheridan, em mais uma atuação impecável, decide se aventurar numa ilha com seu amigo, ele busca negar a triste realidade de um relacionamento familiar destruído, procurando abafar o barulho das discussões dos pais na promessa de um novo mundo a ser desbravado. Ao perceber que aquele mundo não estava deserto, enfrenta o forasteiro com a bravura típica de um organismo ainda não tocado pela corrupção humana. O estranho acaba se tornando uma espécie de “Shane”, de “Os Brutos Também Amam”, herói idealizado que acaba se provando falível. O homem conta que as motivações de suas ações eram passionais, uma bela jovem, vivida por Reese Witherspoon, que ele declara ser seu verdadeiro amor, que aguarda seu retorno numa cidade próxima. O roteiro escrito por Nichols trabalha o senso de cavalheirismo ingênuo, assim como a eventual perda da inocência, que essa missão desperta nos garotos, especialmente o fator compensatório em Ellis, que anseia ver o casal apaixonado reunido, já que sabe não ser possível encontrar esse sentimento em casa.
Dizer muito mais sobre a trama é um desserviço a essa intelectualmente instigante, algo cada vez mais raro na indústria americana, experiência cinematográfica. Com uma duração desnecessariamente longa e falhas perceptíveis na construção de diálogos, ponto fraco do diretor, mas compensando plenamente na eloquência com que estabelece suas imagens, belas analogias que são favorecidas em uma revisão, e no trabalho impecável do elenco, o filme prova a competência de um autor que, em seu terceiro projeto, demonstra a segurança típica dos grandes mestres nessa Arte.

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