Cine Samurai – “Harakiri”

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    Link para os textos do especial:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/kung-fu-fighting.html

    Harakiri (Seppuku – 1962)

    O elemento que me emociona nessa história, que considero a
    mais bonita dentre todos os filmes do gênero, reside essencialmente em ser a
    antítese do que se espera encontrar num chambara tradicional, sendo na
    realidade uma obra anti-samurai, com uma crítica poderosa, envolta em
    simbologia, ao vazio que existe também no Bushido, o código samurai, o que se
    esconde por baixo do verniz de grandeza, um embate entre a forma e a substância
    de uma filosofia. A refilmagem de Takashi Miike é bastante fiel ao superior original
    de Masaki Kobayashi, conduzindo com dinamismo o conto trágico de vingança roteirizado
    por Shinobu Hashimoto, a partir do conto de Yasuhiko Takiguchi, para um público
    muito menos paciente. Kobayashi vinha de vários projetos ambientados no Japão
    contemporâneo, abordando inclusive a Segunda Guerra Mundial, o que faz essa sua
    primeira incursão no jidai-geki, os filmes de época, ainda mais corajosa,
    optando por um tema espinhoso.

    A armadura que permanece no altar como símbolo da honra dos
    ancestrais e da estabilidade de sua instituição, todos os rituais de teatralidade,
    um conjunto de dogmas que banalizam a filosofia, que míngua nos escombros dos
    templos do ego, símbolo maior da busca pelo poder, o respeito que é conquistado
    pelo medo, formando guerreiros padronizados que não reconhecem um homem
    genuinamente honrado, mesmo quando ele se encontra a poucos metros de
    distância, sangrando o solo sagrado com sua bravura líquida. O perigo que
    ocorre quando os dogmas de uma instituição se tornam mais importantes que a
    humanidade dos indivíduos que são o alicerce da instituição.

    Aqueles homens esperavam humilhar severamente o visitante,
    eles nunca imaginariam que o desesperado rapaz iria cometer o seppuku com sua
    espada de bambu, um ato extremo que apenas os deixou ainda mais revoltados, por
    reconhecerem naquele jovem uma força de espírito que eles sequer sonhavam um
    dia conquistar. O samurai acredita que falhou como ser humano, já que vendeu sua
    espada, o símbolo máximo de sua honra, então o filme capta perfeitamente a
    agonia do rapaz que se mantém consciente o tempo todo, enquanto atravessa
    lentamente sua barriga com o bambu, de que está se despedindo do mundo da forma
    menos honrada possível. E é exatamente esse conceito de honra que o roteiro critica;
    um conceito que, para ser preservado, fazia uso de práticas desonrosas. Um
    valor contraditório que é cristalizado em imagens, não em atitudes. O casal
    apaixonado, diferente do que a sociedade com resquícios feudais ditava na
    época, não se une por conveniência, mostrando que o amor é mais forte que a
    honra.

    O personagem que representa a figura paterna, vivido de
    forma espetacular no original por Tatsuya Nakadai, não toma a atitude
    necessária a tempo de ajudar sua família; ele, mesmo na miséria, ainda se apega
    demais ao conceito cristalizado de honra, sendo incapaz de vender suas espadas
    para pagar os tratamentos médicos de sua filha e de seu neto. Ele irá se
    arrepender disso. O ato de desespero do jovem, tentando blefar um desejo pelo
    suicídio, na tentativa de conseguir por piedade o valor exato que precisa para
    tentar curar sua esposa e filho, nasce após seu maior gesto de abnegação,
    quando vende suas espadas, sua alma. Ele, ao adentrar no solo sagrado de seus
    algozes, já não existe mais como homem aos olhos de sua sociedade, mas é inconscientemente
    movido apenas por sua honra. Uma nobreza que não necessita de símbolos, templos
    ou ídolos; figuras de autoridade ilusória, como a armadura, que a câmera de Yoshio
    Miyajima capta alegoricamente em meio à bruma logo nos primeiros momentos,
    realçando ainda mais seu aspecto mítico, irreal.

    * A distribuidora Versátil está lançando o filme numa versão recentemente restaurada, com a refilmagem moderna de Takashi Miike, em DVD e Blu-ray, com quase uma hora de valiosos extras.

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    Octavio Caruso
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