“Guardiões da Galáxia”, de James Gunn

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    Guardiões da Galáxia (Guardians of The Galaxy – 2014)
    Eu assumo que não conhecia essa equipe antes do anúncio de
    que a Marvel a utilizaria no seu ambicioso projeto cinematográfico. E é
    exatamente a constatação de sua aparente irrelevância e desprestígio que
    funciona como metalinguagem no roteiro, que utiliza livremente como base o
    ótimo arco atual escrito por Brian Michael Bendis, que devorei em preparação
    para o filme. O interessante é constatar que tinha tudo para dar muito errado,
    um material que caberia perfeitamente nas debochadas páginas dos livros de
    Douglas Adams, mas que resultou em um produto que se conecta emocionalmente com
    o público, elemento que era o tendão de Aquiles das produções do estúdio,
    satisfazendo todos os requisitos de um industrial blockbuster infanto-juvenil.

    O segredo do roteiro está na assimilação das melhores qualidades dos filmes de
    Indiana Jones e Guerra nas Estrelas, com uma pegada espertamente despretensiosa
    de um diretor que nasceu no berço dos projetos do estúdio Troma. Um senso de
    camaradagem entre personagens que não se levam a sério, que constantemente
    piscam para o público, como que o convidando a entrar na brincadeira. Como não
    se identificar com o herói que, acreditando estar sozinho em um planeta
    distante, aproveita para dançar e cantar, segurando em um pequeno animal como microfone
    improvisado, ao som de canções retrô da década de setenta em um toca-fitas
    portátil? É a aceitação do absurdo pela diversão que ele oferece. Quando o
    roteiro nos desarma, faz com que deixemos o raciocínio adulto de lado,
    abraçando com saudade o escapismo que empolgava nossa criança interior. É impressionante como o filme consegue tornar relevante um personagem como o
    Groot (Diesel), que só pode se comunicar utilizando três palavras, entregando
    corajosamente a ele o peso da cena mais tocante. Já Rocket (Cooper), o diminuto
    guaxinim falante, pode ser considerado um milagre. Os diálogos espirituosos
    conseguiram fazer dele um elemento mais interessante que muitos dos humanos
    presentes. Em nenhum momento meu cérebro desativou a suspensão de descrença, algo
    que sinceramente achava que ocorreria logo no primeiro ato. Até mesmo o típico
    brutamonte, representado por Drax (Bautista), consegue surpreender por seu
    timing de humor. Somos conduzidos conscientemente por uma fórmula consagrada,
    mas realizada com esmero e ternura.

    Ao se conectar com seu passado através de um objeto tão frágil como um
    toca-fitas, Quill (Pratt) nos evidencia que sua anarquia é uma resposta imatura
    para os obstáculos da vida adulta. A lembrança triste da morte de sua infância,
    com seu desapegar forçado da mãe, não pode ser empecilho para a aceitação de
    sua missão ao lado de seus novos amigos. Somente quando ele abraça essa
    constatação, optando por verter a lágrima ao invés de retê-la, o jovem se
    mostra preparado para singrar o espaço sideral, como Luke Skywalker ao aceitar
    deixar seu conforto para acompanhar Ben Kenobi. É o clássico conto de
    amadurecimento que se repete a cada geração. Algumas cenas de “Os Vingadores” e de “Capitão América 2”, os melhores até
    então, podem ter ficado guardadas com carinho na memória, mas “Guardiões da
    Galáxia” é o único filme da Marvel que eu genuinamente tenho vontade de
    assistir novamente pelo todo que ele representa. Os desajustados heróis
    desconhecidos acabaram eclipsando os medalhões da empresa, garantindo meu
    interesse em revê-los em próximas aventuras. E, caso ocorresse, como é usual
    nos quadrinhos, um crossover entre as duas equipes, já sei para quem eu
    torceria…

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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