Chumbo Quente – “Disparo para Matar” (1966)

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    Link para os textos do especial:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/chumbo-quente.html

    Disparo para Matar (The Shooting – 1966)

    A trama começa com o pistoleiro Willet, vivido por Warren
    Oates, chegando a um acampamento de mineração. Ele encontra um jovem, vivido
    por Will Hutchins, que fala e age como uma criança amedrontada. O rapaz explica
    ao pistoleiro que, durante sua ausência, um dos seus parceiros havia sido
    assassinado por um atirador desconhecido, após a partida inesperada do irmão de
    Willet, alguém que atende pelo sugestivo nome: “Coin” (Moeda). No dia seguinte,
    uma mulher, vivida pela bela Millie Perkins, chega ao acampamento e oferece farta
    recompensa aos dois, caso aceitem guiá-la através do deserto. Um jovem Jack
    Nicholson, emulando o vilão vivido por Jack Palance em “Os Brutos Também Amam”,
    passa então a seguir o grupo, com intenções enigmáticas.

    O clima vai ficando cada vez mais onírico, quando percebemos
    no longo trajeto que, ao invés de encontrar sinais de que existe uma cidade
    próxima a ser alcançada, parece que o grupo se afasta cada vez mais da
    civilização, adentrando uma espécie de limbo existencial, onde as definições de
    tempo começam a não ter importância. O roteiro de Carole Eastman, sob o
    pseudônimo de Adrien Joyce, já demonstra as qualidades que a fariam ser
    indicada para o Oscar alguns anos depois, pelo ótimo “Cada Um Vive Como Quer”
    (Five Easy Pieces). Filmado com luz natural pelo diretor de fotografia Gregory
    Sandor, generosamente aproveitando a dimensão do cenário, invariavelmente posicionando
    os personagens como diminutos grãos de areia, potencializando os aspectos
    metafóricos da jornada de penitência empreendida pelo personagem de Warren Oates,
    que eventualmente se encontrará com seu outro lado da moeda, com um toque alucinatório
    sobrenatural.

    A direção de Monte Hellman trabalha as charadas visuais com
    os pés fincados na realidade, deixando qualquer possível interpretação a cargo
    do espectador. O interesse dele é confundir, não explicar. Seria a mulher um “espírito”
    vingador do passado? Em certo momento é dito de forma despretensiosa que Coin
    matou uma pessoa pequena, provavelmente uma criança. Seria Coin, numa
    interpretação mais óbvia, o irmão gêmeo de Willet, ou, como prefiro acreditar, uma
    versão do próprio personagem do pistoleiro atormentado ao encarar profundamente
    o seu abismo nietzschiano interior? É interessante que ocorra no impactante
    final uma experimentação com o tempo fílmico, com a utilização da câmera lenta
    e do freeze frame, passando de forma eficiente aquela sensação que temos
    segundos antes de despertar de um sonho, ou, no caso do protagonista, um terrível
    pesadelo.

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    Octavio Caruso
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